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COMO UM CONTO DE FADA EM UM DIA DE CHUVA

Assim que girou a chave da porta da quitinete em que morava no centro velho da cidade, ela soltou um suspiro de alívio e jogou a sua bolsa no meio do monte de almofadas sujas e vermelhas que ficavam ao lado da tv “meia” polegada que entulhava a sala. Chovia muito e já era bem tarde da noite. E ela estava lá, com fome, com frio, desesperada, cansada e com o saco cheio de tudo aquilo. Era tarde da noite. Ela estava ensopada e o dia não tinha sido nada bom. Nada bom. Ainda mais uma vez, ela não havia conseguido o maldito emprego, agora por causa das malditas tatuagens que tinha no braço. – Lamento, mas a senhorita não devia ter tatuado o nome de uma banda de rock no seu braço esquerdo inteiro. Nossa empresa não aceita esse tipo de perfil – disse a senhora gentil e gorda e velha para ela. Fodam-se eles, eu adoro as minhas tatuagens – ela pensou. Mas seu pensamento “foda-se” durou o tempo suficiente de ela abrir a geladeira. Ela TINHA que arrumar um emprego, ela tinha que arrumar dinheiro, ela tinha que pagar o aluguel até sexta feira, ela tinha que pagar a luz e, ela tinha que comprar alguma comida. Teve vontade de chorar. Nem uma toalha limpa para se secar ela tinha em casa. Tirou a roupa molhada e limitou-se a colocar sobre o corpo ainda úmido uma camiseta velha do The Clash, presente de seu último namorado. Um imbecil, por sinal, cuja única qualidade era o seu gosto musical. Estava com uma vontade incrível de chorar. Mas não chorou. Acendeu um Marlboro e sentou ao lado da secretária eletrônica semi-funcionando – único bem de valor que realmente possuía – e percebeu que havia uma mensagem. Coisa rara desde que ela havia se mudado. Apertou o play, rezando para que fosse alguma resposta de qualquer das dezenas de agência de emprego que andou freqüentando nos últimos meses.
"Hey, sou eu...lembra de mim? Cadu? Aquele seu velho amigo da época do colegial. Talvez você nem seja a Ana Maria que eu conheço, já que só Deus sabe como foi difícil chegar até esse número. Mas, enfim, de qualquer forma, eu estou aqui e com saudades e pensando em você e...isso pode parecer idiota, mas estou precisando ouvir alguma voz amiga, alguém que eu saiba quem eu sou, mesmo tendo passado uns...dez, doze anos, é isso?...bem, de qualquer forma eu ligo outra hora então e espero que você esteja em casa...e não me ache estúpido...beijos”. E desligou, simples assim...
E ela ficou lá, com aquele cigarro queimando sua mão e com a boca aberta pela surpresa de ter sido descoberta por um velho amigo e com os olhos cheios de lágrimas, esperando o telefone tocar, esperando o telefone tocar.


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