Pular para o conteúdo principal
A CAIXA DE PANDORA

"A caixa era do Gigante Epimeteu, que mantinha bem guardados os elementos que utilizara para preparar a Terra. Pandora, muito curiosa, abriu a caixa e deixou escapar todas as bênçãos que o Gigante guardava com todo o cuidado. Desesperada, ela tentou fechar a caixa, mas somente uma dádiva ficou preservada: a Esperança..."


Chovia muito forte lá fora. Muito forte mesmo. Cada gota parecia um pedregulho quando explodia na janela do seu quarto. Cada gota parecia um diamante lapidado gordo, querendo dura e cruelmente arranhar o vidro. Cada gota parecia uma lágrima produzida por algum divindade triste, que morava no céu furioso, todo cinza, quase chumbo. Não se via nada de azul no céu.

Muito menos no seu coração.

Ela estava sentada no chão, descalça. A cama estava completamente tomada por discos, fotos, livros, cadernos, grafites, poesias, rabiscos e rascunhos. Parecia tudo uma grande colagem de artes plásticas. Uma grande colagem sem pé e nem cabeça, sem começo, sem meio e sem fim.

Chovia muito forte lá fora e ela estava apenas sentada no chão do seu quarto, descalça.

Os dedos das suas mãos estavam sujos de nanquim. Nanquim borrado. Escuro. Os dedos das suas mãos estavam sujos e borrados das cartas mal escritas, dos poemas mal arranjados, dos contos mal resolvidos, da sua vida mal retratada.

Ela pouco se importava com isso. Os dedos sujos provocavam estampas sujas naquelas velhas fotos jogadas na cama, naquelas velhas quinquilharias espalhadas pelo seu quarto.

Quinquilharias? Quinquilharias? Pô, que triste adjetivo para a colagem da minha vida. – ela pensou, triste, enquanto permanecia sentada, descalça, no chão do seu quarto de dormir.

E chovia forte lá fora. E como...

Mas não é que um trovão forte, grosso e espesso, estourou os seus delicados tímpanos acostumados apenas à bossa nova e jazz e fez com que ela acordasse? Fez com que ela despertasse?

Ela decidiu que não queria mais ficar ali sentada descalça, ouvindo o açoite insano da água na maldita janela do seu quarto.

Ela decidiu que não queria ter mais os dedos sujos de nanquim barato.

Ela decidiu que não queria mais ter aquela caixa com “quinquilharias” espalhadas sobre o seu colchão, como uma poça de sangue esvaindo do seu coração.

Ela decidiu que não queria mais chorar por amor. Que não precisava mais daquela caixa, que não precisava mais ficar apenas sentada, descalça, com medo de olhar o céu.

Amontoou tudo desajeitadamente e jogou tudo porta afora, dentro do cesto de lixo do corredor.

Voltou aliviada e ainda descalça ao seu quarto.

Voltou decidida.

Ela decidiu que amaria a ele. Não mais. Não a ele. Não a quem o ferisse. Não a quem não a amasse. Não a quem não estivesse por perto.

Ela olhou através da janela e percebeu que mesmo cinza chumbo, o maldito tinha lampejos de azul...

...talvez fossem os seus olhos. Talvez fosse apenas esperança. Talvez fosse nada. Apenas vontade de mudar e ser feliz. O que, convenhamos, não é pouca coisa, ah, não é mesmo!



Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O QUE VEM DEPOIS DO RELÂMPAGO?

OUÇA: alexander biggs || low Assim, de repente, ela lembrou. ... Ela lembrou que choveu muito naquela tarde. Muito mesmo. Mais do que em qualquer outro dia da sua vida que não aquele. Cruel. Ela lembrou que o tempo estava bom até então, mas o céu, caprichoso, optou pela rebelião. O céu, assim de repente, tornou-se cinza. Absurdamente cinza. Cinza chumbo, quase noite. E choveu muito, mas muito mesmo naquela tarde. Como jamais ela pensou que poderia chover naquela época do ano ou em qualquer outra época, na verdade. Maldade. Ela recordou que estava no Parque Central, quieta, apenas pensando nas verdades que havia ouvido horas antes e arquitetando uma fuga mirabolante do viciado e repetitivo labirinto caótico em que a sua vida tinha se transformado. Lembrou-se, também, que não tinha feito tanto sol e nem tampouco estava abafado e, portanto, não havia razão para tantas nuvens no céu capazes de provocar aquela tempestade gigantesca que se formou. Não mesmo. Ironia. Mas, ainda assim, tudo ac
DISCOS DE VINIL NÃO SALVAM VIDAS? - Discos de vinil não salvam vidas - Bia sentenciou, profana e canalha Nanda abriu os olhos em choque - Não? Como não? - Não, porra. Definitivamente, discos de vinil ou fitas cassete ou ipods ou seja lá o diabo, não salvam vidas. Não. - Você enlouqueceu? - disse Nanda. Bia sorriu um sorriso sinistro, triste, inadequado à felicidade. Adequado ao seu momento. - Claro que salvam. Se você não desistir de se matar ao ouvir Marvin Gaye e Tammi Terrell juntos e cantando apaixonadamente, então não sei o que mais pode te ajudar. - Nhá. Isso é para você, ingênua e esperançosa. - Se eu me fodesse, não me afogaria em etanol barato. Me afogaria em lágrimas ao som de um bom soul dos 60s. Estaria salva. - Que patético. - Você precisa de um choque de realidade. Um choque de vida. Você precisa de cores. = Vai começar. Já te disse para parar - pediu Bia. - Parar nada. Você precisa mesmo. De vida, porra. - Pára de encher. Você está me irritando - disse Bia. - Eu precis
PAPEL MOLHADO Boomp3.com - Você vai? - ele perguntou. - Talvez. E você? – ela devolveu, ansiosa. - Não sei. Gosto da Lu e tals, mas ainda não sei. - Vá! – ela pediu – Vou gostar disso. - Devo? – ele perguntou. - Claro. Acho que deve. Mas você decide. - Bem, então ta. Nos falamos. - Ok. Besos – ela respondeu e desligou o telefone. A festa rolava demente no Clube Varsóvia. Pessoas de todo o tipo, cores, tamanhos e desejos comemoravam, bebiam, celebravam. Todos pelo aniversário da Lu. Ela? Ela aguardava ele. Ele? Não chegava. Ela bebia vodka. Ele ainda não chegava. Ela fumava cigarros e maconha. Ele? Claro que não. Ao final da noite, ela estava exausta. Bêbada e cansada. Exausta por esperar demais pessoas erradas. Cansada de errar. Errar tão fodidamente feio. E ela decidiu ir embora do Clube Varsóvia. Lá fora, a chuva estava infernal. Imprudente, entrou no carro toda molhada e ensopou os bancos sujos. Tão de saco cheio, ela sequer percebeu o bilhete pardo dissolvendo-se no seu pár