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VIOLONCELO


Ele tocava violoncelo...

Sim, é raro, porém é verdade. A mais pura verdade. Ele tocava violoncelo, aquele instrumento de corda, afinado em quintas. Um instrumento grande, vistoso, soberano. Um instrumento interessante, de rara beleza.

Ele tocava violoncelo...

Passava horas e horas na sala do pequeno apartamento, ensaiando e estudando e tocando obras para tal instrumento.Era o momento mais feliz do seu dia. Definitivamente.
Certa vez, o vizinho do andar de cima bateu à sua porta. Eram três da manhã e ele estava bastante puto com a porra da sinfonia no meio da madrugada. Ele simplesmente se desculpou e parou de tocar. No dia seguinte, o rapaz do andar de cima deixou um bilhete sob sua porta, com desculpas e um pedido para ele voltar a tocar “de fato, embala meu sono” o rapaz prosseguiu.

Ele tocava violoncelo...

Naquela noite, em especial, ele decidiu que comporia uma canção para ela. Uma peça simples e direta, com notas perfeitas e delicadas. Uma peça para violoncelo em sua homenagem. Uma peça de amor.
Ficou horas a fio tocando e repetindo e criando e inovando. Horas a fio. Horas a fio. Quando acabou o último acorde, já se podia perceber o céu alaranjado celebrando a morte da madrugada e o nascer de um novo dia. Ele estava satisfeito.

Ele tocava violoncelo...

Obviamente a música ficou linda. Linda mesmo. Obviamente ele nunca mostrou a ela tal peça. Nunca. Afinal, como ele mostraria algo a ela, se jamais, mas jamais mesmo, sequer dirigiu uma palavra aquela garota tão linda que ele tanto amava. Jamais. Ele presumia que ela sequer sabia o seu nome. Sequer sabia quem ele era. Timidez e fuga impediam qualquer forma de contato, exceto olhares furtivos ás escondidas. Ele jamais falou com ela sobre a música, sobre o seu amor, sobre qualquer coisa, na verdade.

Ele tocava violoncelo...

Do outro lado do bairro, próximo dali, ela desenhava pequenos desenhos em carvão. Desenhos de uma amor sem futuro. Desenhos de um amor impossível. Ela desenhava o menino que tocava violoncelo e pensava, triste, se ele sabia da sua existência... se ele sabia da sua existência...

E no final das contas, tanto para o garoto que tocava violoncelo como para a garota que desenhava em carvão, a realidade, cruel e desesperada, é sempre uma só, sempre uma só...

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