1.2.18

VALSAS NADA AMARGAS NA MADRUGADA


E lá estava ela.
Uma tola sentada no balcão de um bar medonho localizado bem em frente ao Clube Varsóvia, lá pelas três da madrugada de uma sexta feira qualquer.
Uma úmida sexta feira qualquer em um bar medonho repleto de ninguém.
Sem clientes.
Sem clientes e apenas com uma trilha sonora vagabunda ecoando sem folga de um radinho de pilha postado em cima do enferrujado freezer das cervejas.
Sem clientes e apenas ela e o pobre do balconista.
E ela tomava goles e mais goles de seu conhaque de péssima qualidade e fumava um cigarro ainda mais barato, também de péssima qualidade, como se isso fosse possível. Como se fosse possível algo pior do que aquele conhaque.
Nicotina pura.
Mas era o que o pouco dinheiro que ela tinha entocado nos bolsos apertados da sua surrada calça jeans podia comprar.
E ela fumava os malditos cigarros baratos.
Um atrás do outro.
Um atrás do outro.
E o conhaque já estava sendo dado como “brinde” pelo balconista.
Um cavalheiro, enfim, no meio do caos.
Um cavalheiro que ela conhecia há tempos.
Tempos e tempos.
E chovia.
Chovia para caralho.
Gotas muito gordas caindo sem parar.
E a música barata não parava de sair do radinho de pilhas para explodir em seus ouvidos.
Derretendo o cérebro.
E chovia para caralho.
Muito mesmo.
E ela deciciu que talvez não fosse entrar no Varsóvia.
Talvez não.
Muito provavelmente não.
Na verdade iria depender muito da quantidade do conhaque vagabundo gentilmente oferecido pelo seu amigo balconista.
Mas o problema maior era outro.
Não o conhaque barato e nem os cigarros ruins e nem o balconista e nem o radinho de pilha que tocava canções péssimas.
O problema estava do outro lado da rua.
Do outro lado da rua.
O problema era ele.
Apenas ele.
 E ele estava lá dentro.
Dentro do Clube Varsóvia.
E, com certeza, ele estava lá dançando com aquela ruiva toda tatuada e linda que era cruel e adoravelmente perfeita.
Perfeita.
O oposto dela.
Uma afronta de beleza.
Ruiva e linda.
Muito ruiva.
Muito linda.
E, na verdade, ele sabia disto, não à toa que estava lá, dançando com a ruiva e sendo feliz.
Ela?
Do outro lado da rua, sentada no miserável boteco vendo a chuva despencar. Literalmente despencar.
Sem saber exatamente o que fazer.
- Olha – disse o balconista do boteco de forma até gentil – Não quero me intrometer, mas você vai ficar muito tempo por aí?
- Como? – ela perguntou distraída.
O moço a olhou com compreensão e respondeu – Veja, você está aqui há um tempinho considerável, olhando esta porra desta chuva e encarando sem parar a porta do Clube Varsóvia ali em frente. Não entra a porcaria de um cliente nesta espelunca há um tempão. Você vai atravessar a rua e entrar no Varsóvia? – perguntou novamente e de forma direta.
Ela o olhou com surpresa. Nada respondeu.
Sabia que ele estava certo.
Ela não teria coragem.
- Então... – prosseguiu o balconista – já é tarde. Eu até adoraria ir para minha casa. Dormir sabe? Faz bem às vezes.
Ela concordou com a cabeça e disse sincera – Me dá mais uns vinte minutos? Mais uma dose de conhaque e um par de cigarros vagabundos. Pode ser? – pediu – Quem sabe aí me decido e te deixo em paz – completou.
Ele concordou com a cabeça enquanto se virava para pegar a garrafa de conhaque ainda mais uma vez.
E ela voltou seu olhar para a chuva.
Do nada, sentiu um toque leve em seu ombro. Perfume absolutamente familiar. Suavemente familiar. Virou e não acreditou que era ele. Definitivamente não acreditou.
Mas era.
Era ele mesmo.
Ele.
Apenas ele.
- Oi – ele disse ensopado pela chuva e totalmente sem jeito – Tudo bem? – perguntou.
Ela apenas sorriu e se sentiu uma idiota. Apenas sorriu. Nada disse.
 - Cansei do barulho do Varsóvia sabe? – disse com um sorriso.
Ela encarou-o desconfiada e disse – Cansou?
Ele assentiu com a cabeça, balançando seus longos e molhados cabelos pretos.
- E dela? – ela provocou – Cansou de dançar com ela? - perguntou.
Ele deu um sorriso amarelo e respondeu – Ela está lá. Dançando. Nem sabe onde estou. Mas eu tinha certeza que você estaria por aqui. Lembra do Reveillon do ano passado? Passamos aqui. Lembrei disso. Aliás, nunca esqueci.
- Eu lembro – intrometeu-se o balconista – Eu lembro. Vocês encheram o meu saco sob o barulho de tantos fogos. Podiam ter ido ao Varsóvia naquela noite. Podiam mesmo.
Todos riram da sinceridade explícita.
- Então – ele disse. Eu estava lá, mas na verdade estava com a cabeça aqui. Na verdade, com a cabeça em você. Pode apostar.
Ela o olhou com carinho e afeto. Nada disse. Apenas seu olhar transmitiu o sinal.
- Você podia me perdoar, não? – ele perguntou em voz suave e baixa – Já não está na hora?
- Quer dançar? – ela perguntou, desviando a resposta.
- Dançar? – ele respondeu surpreso.
- Sim, dançar. Não está ouvindo esta adorável balada vulgar dos anos setenta tocando neste maldito radinho de pilha? Esta canção é boa
- Hey – disse o atendente – Maldito o caralho. Este rádio fez muita companhia a você durante a noite toda – emendou com um sorriso enquanto terminava de lavar os últimos copos americanos deixados junto a pia.
Ele sorriu e a segurou pelos ombros finos e pequenos e delicados – Claro. Eu adoraria.
Ela sorriu e se deixou levar.
E dançaram e dançaram e dançaram no apertado salão daquele boteco vagabundo no centro da cidade.
O Clube Varsóvia não era mais o protagonista.
Eles sim.
E a chuva, os sorrisos, os movimentos, a madrugada, o radinho de pilha e os beijos. Muitos beijos de um final – ainda não, mas – quase feliz...
Quase inteiramente feliz.
Quase inteiramente feliz.
Valsas nada amargas na cidade.
Inesperadas e adoravelmente surpreendentes.
Adoravelmente surpreendentes.



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