31.5.20

JOYEUX ANNIVERSAIRE



Ela sacudiu levemente a cabeça, sem entender exatamente o que estava acontecendo.
O barulho era conhecido e suave e vinha do aparelho que estava jogado sobre o criado-mudo.
O seu celular.
Ela detestava toques aflitos e altos, então o dela era sempre ameno. Discreto.
Olhou para o relógio com os olhos ainda quase cerrados e mal acreditou – Porra. Acabei de pegar no sono caralho! Que tipo de imbecil liga para você a uma hora dessa? Depois de três noites dormindo mal. Porra, se não for alguma urgência eu mato – pensou, veloz e desconexa.
Agarrou o aparelho e sequer viu o número estampado na tela.
Já atendeu logo disparando irritada e sonolenta – Oui que s'est-il passé? – perguntou rude, sem a menor boa vontade ou gentileza.
- Mon petit amour. Feliz aniversário! – a voz respondeu.
Ela estremeceu e não acreditou na voz tão familiar e doce que escutava do outro lado.
Improvável.
Bastante improvável.
Afundou a cabeça novamente no travesseiro e soltou um sorriso sincero de alegria.
Um misto de alegria e angústia.
Saudades.
Felicidade em ondas sonoras.
- Porra. Você sabe que horas são por aqui? – ela disse abafando uma risada.
- Claro. Como poderia esquecer. O seu fuso horário eu não esqueço – ele respondeu.
Ela gostou do que ouviu e provocou – Ah, claro, por isso fala comigo todos os dias, mesmo depois de todo este tempo. Mais de ano - reclamou.
Ele a ignorou e disse - Feliz aniversário querida.
Ela ficou surpresa, pois ainda não tinha se dado conta de que dia era aquele.
Olhou para o relógio, percebeu do que se tratava, sorriu e respondeu - Obrigado. Obrigado – disse amável e, sem graça, completou – Mas, não podia esperar um horário decente para me ligar? Tipo, depois do meu café da manhã? Ou talvez uma mensagem – ela esfriou – Um conto? Você era bom nisso. Parou e disse em tom baixo, mas ainda para ele escutar – Bem, no nosso caso, creio que ainda assim não seria adequado.
Ele sorriu e respondeu calmo - Claro que não. Bem, você sabe. Eu sempre gostei de ser o primeiro a te cumprimentar e pelo muito que sei de fuso horário, aí em Paris acaba de dar meia-noite. E não sou de mandar mensagens. Eu ligo e falo. É melhor.
Ela, definitivamente, despertou.
- É, mas não ligou desde que eu cheguei aqui em Paris e você ficou por aí. Nunca aceitou, não é verdade? “A vida é feita de escolhas”, não foi essa a babaquice que você me disse um dia antes do aeroporto? – ela emendou, remoendo o que não devia.
Ele respirou fundo e desconversou - Então, o que importa é que eu pensei. E pensei muito. Então, resolvi arriscar e ligar para te desejar todas as coisas boas que você sempre merece e mereceu. Todas. Te desejar o melhor, antes de qualquer outra pessoa.
- É? – ela provocou – E se eu estivesse acompanhada? Pensou nisso?
Ele respondeu alegre – Sim, eu pensei. No entanto, resolvi tentar a sorte e, caso você estivesse acompanhada, seria a hora de a pessoa perceber e sair fora imediatamente.
Ela escutou e ficou em silêncio. Pensativa naquela hipótese.
- Mas percebo que acertei – ele completou.
Em tom de tristeza, ela disse - Se você tivesse me escutado, não tivesse sido idiota, poderia estar aqui comigo agora e não parado aí, telefonando em horários inoportunos. Tudo poderia ter sido tão diferente – concluiu.
Após um breve silêncio, ele disse – Ou poderá ser. Poderá ser diferente. Como vamos saber, não é mesmo?
Ela ficou em silêncio e dispersa por um instante, apenas observando a chuva molhando a janela do seu quarto.
- Então... – ele disse - ... que tal ser mais ágil e sair da cama para abrir a porta aqui do edifício. Está chovendo, sabia? E está frio. Eu tenho só uma mala pequena, mas não é impermeável e as roupas dentro dela vão molhar. E muito.
Ela olhou para o telefone surpresa e balbuciou – Mas... o quê? Edifício? Que bobagem está dizendo? – perguntou.
- Por favor. Libere a entrada. Talvez seja melhor eu te desejar feliz aniversário pessoalmente, ainda que completamente ensopado – disse com uma voz alegre.
Ela mal acreditou e sorriu como há tempos não sorria.
O maior dos seus sorrisos.
Feliz, surpresa e acelerada, como tivesse ganho o melhor dos presentes.
A melhor das surpresas.
E, na verdade, não é para isso que serve um presente de aniversário?




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