17.6.20

NEON GUIPURE


killkiyoshi || if only zamboni

Quatro e quatorze da madrugada e lá estava ele, todo aceso, encostado próximo à janela e olhando na direção da cama, admirado.
Admirando-a.
Ela.
Ela estava lá, desajeitada sobre a cama e dormindo de forma profunda, quase desnuda, toda linda.
Desarmada.
Quatro e quinze da madrugada e aquilo não era insônia.
Não, não era insônia.
Definitivamente não.
Não mesmo.
Era felicidade.
Apenas felicidade.
Quatro e dezesseis da madrugada e lá estava ele, despido, segurando um copo de vodka com as mãos que ele sorvia em breves e cuidadosos goles.
Bebia lentamente a generosa dose vodka, de modo intencional.
Pretendia retardar, ao máximo, a perda do sabor daquela linda garota ainda impregnado em seus lábios.
Não quis acender um cigarro para não perturbá-la.
Não quis nem pensar em arriscar acordá-la.
Seria um crime.
O crime do século, desconstruir aquela cena.
Cena adorável.
Adoravelmente bela.
Encantadora.
Quatro e dezessete e o que mais ele podia querer, além do que já possuía naquele exato instante? Naquele exato momento da madrugada?
Quatro e dezoito e ela, toda linda, ao alcance dos seus olhos.
O perfume suave e com toques doces exalava da sua delicada pele, sobressaindo no ambiente e afastando o aroma urgente do sexo apaixonado há pouco praticado.
Quatro e dezenove da madrugada e a luz do letreiro do prédio comercial vizinho invadia, sem cerimônia ou permissão, aquele aconchegante quarto de apartamento e abraçava a delicada renda guipure envolta no corpo dormido dela.
Uma dança sensual de luz neon sobre um palco de renda guipure.
Como se fosse possível.
E era.
Quatro e vinte e ele estava acordado.
Mais do que nunca.
Mais do que nunca.
Acordado e feliz.
Feliz.
Bastante feliz.
Espectador de uma cena adorável.
Cena de algum belo e inédito filme antigo.
Coadjuvante de uma cena explícita de amor.
Ele, o coadjuvante.
Ela, a protagonista.
Sem dúvida alguma.
O neon?
O neon era a fotografia.
E a renda guipure o figurino ideal, a moldura perfeita para aquele quadro de paixão.
Uma bela tela de cinema real.
O mais belo quadro.
A mais bela tela.
Ela.
Quatro e quarenta e nove; quatro e cinquenta e dois; quatro e cinquenta e oito; cinquenta e nove; e, ele, ainda estava lá.
Ainda acordado e com o mesmo, exatamente o mesmo, sorriso no rosto, apenas desejando em pensamento que o relógio parasse, ainda que por mais vinte e tantas horas.
E isso não era pedir demais.
Definitivamente, não era pedir demais.




Photo by Shonna  Clark from FreeImages


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