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NÃO HÁ MAIS O SUOR NAS MÃOS

OUÇA: baseball game || woman


Silêncio.

O piano estava lá.
O piano estava lá posicionado à sua frente.
As mãos?
Quentes.
Ela estava com as mãos aquecidas como nunca.
Sensação agradável de calor.
Naquele instante, não havia nada em sua mente além de paz.
Muita paz.
Ela estava feliz e contente como há tempos desejava estar.
Há tempos.
Ela pensou em como havia lutado, brigado, gritado, escalado, desenhado, pintado, composto enfim, como havia feito tudo o que fez para estar lá naquela sala e naquele momento.
Para estar lá naquela sala, exatamente naquele instante e naquele momento à frente do seu piano.
O seu piano e a sua vida.
Muita desconstrução e, ainda mais necessária, muita reconstrução.
Ela deu um suspiro de alívio e sorriu de leve ao lembrar por um breve instante de tudo.
Um relance do passado.
Mas era passado.
Algo que não existia mais.
O presente, sim.
O presente é importante.
Sempre presente e, a partir daquele instante, à sua frente.
Ao seu alcance.
Ela sorriu sem perceber e caminhou lenta em direção ao instrumento.
O reflexo na tampa das cordas do piano causado pela iluminação natural das velas espalhadas pelo ambiente era uma cena adorável.
Adoravelmente bela e emocionante a quem quer que a testemunhasse.
E ela não chorou.
Não.
Sentou-se ao piano, respirou em uma espécie de breve transe particular e pousou com delicadeza os seus dedos finos e longos nas teclas brancas e pretas do instrumento.
Os dedos começaram a correr.
Os pés descalços lentamente acompanharam o movimento das mãos e iniciaram uma dança junto aos pedais.
E ela tocou.
Tocou e tocou e tocou.
Muito.
E à medida em que mergulhou no som gritado e desabafado pelas cordas do piano, o seu corpo, em transe, produziu um espetáculo.
Belíssimo.
Ela dançou uma dança bonita, em que pés, mãos, cabelos e olhos fechados formaram uma coreografia de beleza e prazer.
Uma verdadeira celebração da vida.
Uma celebração do romance e do amor próprio.
Celebração da arte singular em que a sua vida se transformou.
E ela tocou.
Tocou e tocou e tocou.
Muito.
Quanto tempo durou?
Tempo?
E quem se importa?
O “agora” contido naquele momento era suficiente.
Muito mais do que o suficiente.
Muito mais.




Photo by Michal Jarocinski from FreeImages


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