Pular para o conteúdo principal


432 Beijos (1 Sorriso)

Já passava das quatro e meia da manhã. E lá estava ela sozinha, ainda mais uma vez, tentando chegar em casa após uma festa. Mais uma festa e mais um final de semana. E lá estava ela, tentando achar seu caminho. Não, ela não estava bêbada, não estava chapada, não estava nada. Estava sóbria e consciente e isso era justamente o que mais lhe incomodava, pois a consciência lhe trazia a dor, a consciência lhe fazia lembrar do seu problema, da sua depressão, a consciência lhe tirava o sorriso do seu belo rosto. E tudo o que ela queria era que a festa acabasse e que as pessoas percebessem que ela não era mais a mesma garota alegre de antes. Agora, tudo havia mudado. Ela desejava, com toda a força, que as pessoas percebessem a sua tristeza e perguntassem e lhe dessem o colo e o carinho necessário para ela poder ser ela própria. Apenas ela própria. E festa após festa, isso definitivamente não estava acontecendo. E ela estava de saco cheio. Resolveu, naquela madrugada, sair da festa e rodar por aí até decidir parar a porra do seu carro em uma padaria qualquer para tomar um café barato e amargo, apenas para despertar. Apenas para enfrentar a realidade. Assim que sentou no banco sujo do balcão de uma padaria antiga, vazia, no centro da cidade, pediu um café ao atendente. Assim que o café chegou, quente, acendeu um cigarro. Ficou observando o seu reflexo em um espelho que havia sobre o balcão e, definitivamente, não gostou nada do que viu. Dispersou-se de tal forma por entre seus pensamentos tristes, que não percebeu o senhor atrás dela.

- Ei mocinha, tristeza não combina com cafés amargos e com os primeiros raios de sol de uma bela manhã de domingo, ninguém te explicou isso? – disse um senhor de voz grossa, vestido de palhaço, atrás dela.
Ela virou-se rapidamente, surpresa com o comentário e com os trajes de palhaço do senhor e disse – É comigo? – perguntou, ciente da tolice da pergunta.
- Só pode ser não, moça? Essa espelunca está vazia – respondeu o senhor, sorrindo francamente.
- Desculpe, definitivamente eu não estou bem. Estou vendo até palhaços agora – ela brincou.
- Dá para perceber – ele disse, sentando-se ao seu lado – Dá para perceber. É fácil ver uma tristeza funda nos seus olhos. Mesmo sem te conhecer, eu posso dizer que eles já não brilham como antes, não é mesmo? Conheço a tristeza. Animo festas de crianças carentes – por isso a roupa, aliás. E o mais foda, perdoe meu linguajar, mas é estritamente necessário, é que nenhum filho da puta de um amigo percebe isso né? – ele afirmou, sorrindo de um modo camarada e simpático.
Ela riu e respondeu – Exatamente. Exatamente. Todos pensam que eu sou a Miss Simpatia. A garota sorriso, aquela que só ajuda e que nunca, jamais, precisa ou precisará ser ajudada. A senhorita perfeita. Quer saber? Estou farta disso. Estou cansada demais dessa droga toda. Quero chorar e gritar e pedir ajuda. Será que é demais? – ela desabafou, com lágrimas gordas se formando no canto dos olhos.
Ele a amparou com o ombro e disse, tranqüilo – Calma mocinha, calma. É claro que não é demais pedir ajuda. Claro que não. Voc~e inclusive deve fazer isso, mas, mesmo que ninguém te escute, pode estar certa que as coisas acabam por se resolver. Ah, acabam mesmo.
Ela o olhou nos olhos e permaneceu calada.
- Faz o seguinte – ele disse – Lá no fundo tem um banheiro. Vai lá e lave seu rosto e tire essas lágrimas horrorosas da sua adorável face. O dia já está quase nascendo e é óbvio que ele não merece encontrar tanta dor – ele sorriu. – Vai.
Ela fez um sinal positivo com a cabeça e foi em direção ao banheiro. Antes de entrar, deu uma olhada em direção aquele senhor simpático, vestido de palhaço, e ensaiou um breve sorriso.
Minutos depois, assim que saiu do banheiro, ela percebeu que a padaria estava vazia de novo. No lugar em que estava sentada havia apenas um nariz de palhaço postiço e uma xícara de café nova, quente. Ela perguntou ao atendente onde o palhaço estava e ele respondeu que o mesmo havia acabado de sair, mas que havia deixado um beijo, o café e o nariz para ela. Ela não entendeu nada, ficou confusa. Porra, é sempre assim – pensou, irritada. Percebeu então, um bilhete em cima do balcão, embaixo da xícara de café. Leu o bilhete curto, amassado, escrito em uma letra triste e apressada:

Um velho palhaço provoca sorrisos e faz a alegria das pessoas. Essa é a sua função. Mas, na verdade, o certo seria que, tanto os sorrisos como as alegrias fossem provocadas espontaneamente por cada um de nós. E se isso não é possível para você, neste momento, então fique com um pouco do velho palhaço (o meu nariz) para te ajudar. Quando menos esperar, você vai se pegar sorrindo e, aí, o velho palhaço pode se aposentar. Seja feliz querida menina. 432 beijos para você, pois eu sou palhaço, mas não sou bobo de dar apenas um (ainda mais em uma moça tão bonita como você). Cuide-se...”.

E, com os olhos novamente cheios de lágrimas, entre padarias antigas, narizes postiços, cafés pequenos e dias nascendo, ela começou a sorrir, como um breve e delicioso raio de sol...




Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

TO THE END

- O que vc quer de mim? – ela perguntou, aos gritos – Que porra você quer de mim?. Ele olhou para o chão, triste. Não queria responder, não sabia responder. Preferiu o silêncio. - Vai responder, seu filho da puta? Vai? – ela gritou, enquanto dava socos no peito dele. Socos não fortes, porém socos repletos de raiva, desespero e dor. Ele ficou em silêncio. Ficou em total e absoluto silêncio, sem ter nada a dizer. Ela ter visto aquele beijo já era o suficiente. - Seu idiota. Seu completo e estúpido idiota. Sai daqui. Agora! – ela gritou. E ele saiu do pequeno apartamento e foi embora, descendo as curtas escadas daquele prédio tão antigo. E enquanto descia, podia ouvir, com desespero, o choro e a dor daquela garota tão especial, outrora o grande amor da sua vida. E caiu em choro e lamento. Pobre diabo...

NÃO SÃO TEMPOS COMO QUAISQUER OUTROS

OUÇA:  spang sisters || king prawn the 1st Ela jogou o livro de lado irritada, ajeitou os cabelos tortos pela cama e levantou-se. Aflita. Ela estava aflita e sem paciência. Nenhuma paciência. Andou de um lado ao outro do quarto procurando algo para pensar, algo para tocar, algo para lembrar, algo para fazer. Não pensou em nada ou, infelizmente, pensou sim tão logo percebeu o baú cor de palha encostado junto a parede. Lembrou das dezenas de fotos e bilhetes e bobagens que estavam ali guardadas. Pensou em abri-lo e considerou que esta seria uma boa ideia. Aproximou-se do baú e percebeu o que estava prestes a fazer. Parou brusca e riu da própria tolice em achar que as velhas lembranças podiam ajudar, ainda que em desespero. Não, nada que lembrasse aquela pessoa poderia ser bom naquele momento - considerou. Culpou o tédio pela burrice. Voltou a si. Sorriu e agradeceu a sei lá quem por ter voltado ao seu juízo normal a tempo. Saiu do quarto. Foi em direção a

O RIDÍCULO CANSAÇO EM UM BALCÃO DE BAR.

Chovia. Muito. Madrugada alta. Chovia para caralho e eles estavam lá. Tolos, sentados, entediados, apenas bebendo e esperando a chuva passar. Amigos. Muito amigos. Cúmplices. Muito mais que isso. - Cansado? – ela perguntou suave e gentil, sabendo da exaustão dele. Exaustão física e psicológica. Exaustão. Física e psicológica. Apenas exaustão. Muita. Muita exaustão. Ele apenas consentiu com cabeça enquanto tomava mais um gole da sua vodka e tragava seu cigarro mentolado. Ficou em silêncio. Ela sabia o que ele queria dizer. O que queria responder. - Você não está bem, certo? – ela insistiu, afirmando e concordando. Sabia que era isso. Tinha certeza do que falava. Conhecia ele há "séculos". - Sim. Muito cansado. Saco cheio. – ele respondeu sem energia - De saco cheio e muito, mas muito cansado mesmo. De tudo – ele emendou. Ela ficou com a expressão triste. Nada disse. O silêncio é fundamental em certos mo

A SAÍDA É LOGO ALI

OUÇA: casino || ponte Ela pensou que seria possível esquecer os seus problemas. Todos os seus problemas. Todos. Ela realmente acreditou e pensou que seria fácil. Simples como tomar um destilado forte, bebericar um café sem açúcar ou descolar uma anfetamina qualquer. Acreditou que pudesse esquecer tudo e, para tanto, apenas alguns trocados no bolso e um carro bastaria. Um carro que a levasse para longe dali e pudesse fazê-la seguir em frente e rasgar todas as estradas possíveis, todos os caminhos reais ou mesmo imaginários. E assim ela fez. Em uma sexta-feira úmida e cinza - como os seus olhos aliás - ela acordou bem cedo. Era madrugada, quase manhã. Encheu a sua mochila gasta de tantas viagens com uma porção de maços de cigarro, alguns pendrives com as suas músicas prediletas, livros de poesia barata e, claro, fotos antigas. Fotos suas e de seus amigos. Fotos que ela adoraria ver, caso sentisse saudade. Ela detestava ver fotos digitais e aquele conjunto de fotos impressas era um tesour

Não Há Mais O Suor Nas Mãos

leia e ouça: the smiths || asleep (piano cover - youtube channle Erzsébet Abyzou) Silêncio.  Ela olhou ao redor da sala e havia apenas silêncio. O silêncio intenso reinava na sala. A ausência de ruídos contrastava com um solene objeto deixado no canto da sala. Um piano. Sim, apesar do silêncio quase absoluto mortificando o ambiente, o piano estava lá. Intimidador, quieto, solene, impositivo, marcante e… esperando, apenas esperando por ela, como esteve por muito tempo. Tempo demais que ela deixou passar sem perceber.  Ela olhou ao redor da sala e havia apenas silêncio. Esfregou as mãos e percebeu o frio. Geladas. As suas mãos pequenas estavam incrivelmente geladas. Ela estava com as mãos polares como nunca. Ainda bem que minhas unhas estão pintadas em vermelho - ela pensou em um momento banal - Descascadas? Ok, mas o vermelho esconde o roxo do frio, desse gelo, desse medo - continuou em pensamento, lembrando, ainda mais uma vez, como suas mãos estavam frias. Sensação