Pular para o conteúdo principal
ESCOLHAS, APENAS MALDITAS ESCOLHAS

- Então, vamos combinar uma coisa? - ela disse, toda confusa, toda triste, toda encantada, toda decepção.
- O quê - ele perguntou, todo confuso, todo triste, todo encantado, todo decepção.
- Daqui a uns doze, treze, quinze meses, o tempo você me diz agora, nos encontramos aqui, neste bar, neste mesmo horário, que tal?
Ele olhou para os seus olhos pretos, lindos, e emendou, meio sem jeito, sem esperança - Mas, e se eu nem voltar? Você vai apenas esperar sozinha. Não quero isso, apesar de tudo.
Ela odiou aquela crueldade tola e tentou, em vão, esconder as lágrimas que explodiam em seus olhos pretos, lindos, doloridos. Ficou em silêncio.
- Não dá para combinarmos nada. Nada mesmo. Você entende? Apenas posso prometer que vou te escrever.
Ela o olhou com raiva, com dor, como se fosse matá-lo - Não - quase gritou.
- Não? - ele perguntou, surpreso.
- Não. Não quero cartas, cartões postais, palavras escritas de favor. Palavras escritas com pena. Palavras escritas com culpa. Malditas palavras escritas. Prefiro as boas lembranças, prefiro apenas as suas boas lembranças.
Ele entendeu com a cabeça e nada disse. Não quis se defender.
- A melhor combinação entre nós é deixar de combinar qualquer coisa - ela decidiu.
- Então, ficamos como? Apenas assim? Acabados?
- Você decidiu viajar, você decidiu sumir, você decidiu o que quis da sua vida e sequer me perguntou o que eu achava. Então...
- Ei - ele a interrompeu - Isso não é verdade. Você podia ter vindo junto.
- Você não desistiria desta porra de aventura por mim, certo? - ela perguntou.
- Não - ele respondeu, seco e sem enrolar.
- Então, acho que é isto. Melhor ir, acho que daqui a pouco seu vôo parte.

E houve abraços e lágrimas e despedidas e muita, mas muita mágoa e ressentimento.

Momento de adeus.

E enquanto ela andava em direção à saída, amassou e jogou a passagem áerea guardada em seu bolso no cesto de lixo mais próximo.

Colocou seus óculos escuros, acendeu um cigarro e decidiu que estava aliviada por ter escolhido, pela primeira vez em toda a porra da sua vidae ainda que à custa de muita dor, o seu próprio destino.


foto: raquel avani

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

OS PEQUENOS MILAGRES DE SÃO JORGE. PEQUENOS?

- Lembra? - ela perguntou, com um sorriso feliz. - Do que, exatamente? Ando bebendo tanto que minha memória dissolveu de vez - ele retrucou, divertido. - De quando nos conhecemos? Lembra? Ele sorriu por um tempão e ficou olhando para aquela garota linda, ao seu lado. Simplesmente a sua melhor amiga.A pessoa com quem ele mais se importava. - Lembra ou não, porra? - ela perguntou ríspida, exibindo a total falta de paciência. Típica. - Claro que lembro - ele respondeu - Claro que lembro. Clube Varsóvia e o Edu nos apresentou. - Sei. - Claro que sabe, você queria dar para ele. - Tonto. - Queria sim. - Imbecil. - Deixa isso para lá. O que você quer saber exatamente, tirando o porra do Edu? - ele perguntou, curioso com a pergunta. - Estávamos no Varsóvia e você me disse algo que achei tão curioso para o lugar, para o momento, para tudo o que acontecia naquela hora. - O quê? - ele perguntou - O que eu disse de tão formidável e extraordinário assim? - Falávamos sobre alguma c
POSSO PEDIR DESCULPAS? Eu vou atualizar isso aqui...estou no meio de uma tempestade de coisas para fazer e não tem sobrado muito tempo para fazer o que gosto...escrever, por exemplo...mas eu prometo escrever e amanhã, antes do carnaval, postar um conto sobre isso, inclusive, carnaval... Alguém espera?
POSSO NÃO DESISTIR? eu escrevo esse blog há quase sete meses. E não é fácil escrever estórias, desenterrar memórias, abrir segredos...e sabe o que recebo no e-mail? "Hey, sua média de visitas é tão baixa...você acha que alguém se interessa? Que alguém quer ler o que escreve? "...e eu preciso responder e pensar que sim. Não importa se é uma, duas ou três pessoas...quem perde um minuto do seu precioso dia entrando aqui é uma pessoa muito importante para mim...uma pessoa muito especial...porque quer saber o que escrevo e não há felicidade maior do que essa... obrigado...espero não desistir tão fácil assim...
E QUEM DISSE QUE AS COISAS NÃO PODEM SER ASSIM? APENAS SIMPLES... - Pára! Ela ouviu a frase e virou a cabeça rapidamente. Queria saber de quem era aquela voz doce e suave, porém firme e ligeira, que havia dito a tal palavra para ela. - Pára! Assim – ele repetiu. Ela encarou o dono da voz com uma certa irritação. Apenas para disfarçar. Ele era lindo. Olhos escuros, cabelos pretos longos, um queixo quase barbado, regular e quadrado, e um sorriso sensacional. Estimulante. Aparentemente sincero e interessante. Ela apenas o encarou em silêncio, agora sem qualquer irritação disfarçada. Ele sorriu simpático, querendo quebrar o gelo – A posição do seu rosto daria uma foto. Um retrato lindo, sabe? Por isso pedi, quer dizer, quase mandei, né? Você ficar parada. Queria congelar o momento. Ela segurou um sorriso, apenas para querer parecer ser um pouco mais teimosa. Um pouco mais difícil. Ele ofereceu uma bebida. - Não sei o que está bebendo – ela disse – Como posso aceitar? Ele continuou com o co
DANÇAS DE AMOR SEM TECHNICOLOR Eles dançavam. O espaço era pequeno, a sala do apartamento dele era extremamente tímida e o sofá, de tão puído, já nem existia mais. Ótimo - ele gostava de pensar - Assim sobra mais espaço para a dança . E era exatamente a dança que impregnava a sala naquela noite cheia de estrelas tristes e gente dizendo adeus. Enquanto isso, eles dançavam. Ritmo suave e doce, quente e confortável, como um vinho bom. O ruído dos calçados deslizando pelo piso da sala era insinuante e ritmado, constante e adocicado, um tango bom. E eles dançavam felizes. Felizes como há tempos não estavam, como crianças novas, descobrindo amor. Lá fora a cidade era pura madrugada e testemunha. Apaixonada. Era a própria noite veloz que sabia do seu fim, do seu destino triste, da sua morte prematura e repetitiva provocada pela manhã implacável que sempre insiste em nascer, para desespero dos boêmios, para desespero dos amantes, para desespero dos jovens e velhos, daqueles que sabem viver. M