Pular para o conteúdo principal
BRINDANDO ÀS PALAVRAS REPETIDAS

- Você é repetitivo.
Ele olhou com uma surpresa muda, sabendo que, no fundo, ela estava certa - Como assim? - perguntou.
- Repetitivo. Repetitivo. Você usa as mesmas palavras para dizer as mesmas coisas. faz isso o tempo todo.
- Faço? - ele disfarçou.
Ela sorriu - Claro que faz. Mas o que me deixa ainda mais fascinada é esta sua cara de pau. Você sabe que é assim, desse modo.
Ele fingiu indignação, mas por puro orgulho. Ela estava absolutamente certa. Acendeu um cigarro e ficou quieto, esperando a próxima porrada.
- Não? Você não sabe disso? - ela insistiu.
- Claro que sei. Claro, porra.
- Então porque você não tenta mudar?
- Você quer que eu diga o quê? Quer que eu faça o quê? Quer que eu pegue um dicionário e use as mais estapafúrdias palavras? Quer que eu use os mais diversos adejtivos, substantivos, artigos, enfim, as mais mirabolantes saídas da língua portuguesa para dizer algo que pode ser dito de maneira simples, direta, objetiva.
- Mas você não é objetivo - ela disparou, como um direto em seu queixo.
Ele levantou-se do sofá e foi direto em direção ao aparelho de som.
Ela apenas observou, em silêncio.
- Lembra daquela nossa conversa sobre filmes?
Ela concordou com a cabeça, enquanto observava ele mexer nos seus discos.
- Então, acho que descobri qual o filme mais emotivo.
- Qual? - ela perguntou curiosa.
- Rumble Fish.
- O quê? - ela perguntou, surpresa.
- Rumble Fish. O Selvagem da Motocicleta, do Coppola.
- Ah, sei. Mas emotivo?
- É.
- Não tenho a menor idéia da razão.
- Assiste ao filme. É sobre tudo. Sobre tentar ser o que não se consegue. Em preto e branco. E a personagem principal não enxerga cores. E não sabe como são lindos "peixes de briga" com suas caudas coloridas e barbatanas imponentes.
- Hmmm, interessante. Não imaginava que você fosse assim.
- Assim como? - ele perguntou, segurando o vinil preto que havia acabado de escolher.
- Assim, deste jeito. Capaz de ver cores em ambientes "monocromáticos".
- "Monocromáticos"? Puta coisa "Bergman".
- Hahahahahahahaha - ela gargalhou.
- Sério, típico de quem é obcecada pelo sueco.
- Sou obcecada por coisas interessantes. Apenas isso meu querido. Apenas isso. O que escolheu?
- Um disco de rock triste, repleto de canções de amor.
- Canções tristes para uma sexta à noite?
- Não, canções amor para amigos queridos, juntos numa sexta à noite.
- Então brindemos.
- A quem? A Bergman?
- Hahaha. Não. Brindemos às palavras repetidas.
- Palavras repetidas? - ele perguntou, curioso.
- Exato. Brindemos às palavras repetidas.
- Motivo?
Ela sorriu com leveza, alegria e disse - Mesmo à exaustão, as palavras repetidas podem ser úteis. Mesmo repetidas à exaustão, elas podem nos levar aonde menos sonhamos. Depende apenas de quem as usa, de quem as lê, de quem as escuta. Depende apenas disso.

...


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

DISCOS DE VINIL NÃO SALVAM VIDAS? - Discos de vinil não salvam vidas - Bia sentenciou, profana e canalha Nanda abriu os olhos em choque - Não? Como não? - Não, porra. Definitivamente, discos de vinil ou fitas cassete ou ipods ou seja lá o diabo, não salvam vidas. Não. - Você enlouqueceu? - disse Nanda. Bia sorriu um sorriso sinistro, triste, inadequado à felicidade. Adequado ao seu momento. - Claro que salvam. Se você não desistir de se matar ao ouvir Marvin Gaye e Tammi Terrell juntos e cantando apaixonadamente, então não sei o que mais pode te ajudar. - Nhá. Isso é para você, ingênua e esperançosa. - Se eu me fodesse, não me afogaria em etanol barato. Me afogaria em lágrimas ao som de um bom soul dos 60s. Estaria salva. - Que patético. - Você precisa de um choque de realidade. Um choque de vida. Você precisa de cores. = Vai começar. Já te disse para parar - pediu Bia. - Parar nada. Você precisa mesmo. De vida, porra. - Pára de encher. Você está me irritando - disse Bia. - Eu precis
PAPEL MOLHADO Boomp3.com - Você vai? - ele perguntou. - Talvez. E você? – ela devolveu, ansiosa. - Não sei. Gosto da Lu e tals, mas ainda não sei. - Vá! – ela pediu – Vou gostar disso. - Devo? – ele perguntou. - Claro. Acho que deve. Mas você decide. - Bem, então ta. Nos falamos. - Ok. Besos – ela respondeu e desligou o telefone. A festa rolava demente no Clube Varsóvia. Pessoas de todo o tipo, cores, tamanhos e desejos comemoravam, bebiam, celebravam. Todos pelo aniversário da Lu. Ela? Ela aguardava ele. Ele? Não chegava. Ela bebia vodka. Ele ainda não chegava. Ela fumava cigarros e maconha. Ele? Claro que não. Ao final da noite, ela estava exausta. Bêbada e cansada. Exausta por esperar demais pessoas erradas. Cansada de errar. Errar tão fodidamente feio. E ela decidiu ir embora do Clube Varsóvia. Lá fora, a chuva estava infernal. Imprudente, entrou no carro toda molhada e ensopou os bancos sujos. Tão de saco cheio, ela sequer percebeu o bilhete pardo dissolvendo-se no seu pár

O QUE VEM DEPOIS DO RELÂMPAGO?

OUÇA: alexander biggs || low Assim, de repente, ela lembrou. ... Ela lembrou que choveu muito naquela tarde. Muito mesmo. Mais do que em qualquer outro dia da sua vida que não aquele. Cruel. Ela lembrou que o tempo estava bom até então, mas o céu, caprichoso, optou pela rebelião. O céu, assim de repente, tornou-se cinza. Absurdamente cinza. Cinza chumbo, quase noite. E choveu muito, mas muito mesmo naquela tarde. Como jamais ela pensou que poderia chover naquela época do ano ou em qualquer outra época, na verdade. Maldade. Ela recordou que estava no Parque Central, quieta, apenas pensando nas verdades que havia ouvido horas antes e arquitetando uma fuga mirabolante do viciado e repetitivo labirinto caótico em que a sua vida tinha se transformado. Lembrou-se, também, que não tinha feito tanto sol e nem tampouco estava abafado e, portanto, não havia razão para tantas nuvens no céu capazes de provocar aquela tempestade gigantesca que se formou. Não mesmo. Ironia. Mas, ainda assim, tudo ac