Pular para o conteúdo principal
DEDILHADO EM NOITE MOLHADA E FRIA
(não tão molhada e, também, não tão fria)


boomp3.com

A noite estava molhada e fria.
Não tão fria, para falar a verdade, e também nem tão molhada.
A impressão de umidade e gelo era menos real e mais fantástica.
Era conseqüência da chuva fina, porém intensa, que havia parado de desabar há pouco na cidade cinza.
O asfalto, palco, tornou-se brilhante, vivo e aceso. Um mosaico de cores e texturas. Um carrossel de delírios e reflexos.
Palco perfeito para putas, drug dealers, travestis, ingênuos, vividos, enfim, toda sorte de pessoas. Normais ou não.
O asfalto, ainda úmido, tornou-se espelho. Espelho de rostos desconhecidos, de desejos lascivos e impertinentes. Desejos típicos e comuns. Desejos devassos e sinceros.
Solidão e medo.
Medo da luz e do que se pode ver com ela.
Medo e desejo.
Enfim, a noite no centro velho da cidade cinza estava molhada e fria.
Não tão fria, para falar a verdade, e também nem tão mais molhada.
E ele, sozinho, da sacada pequena do seu apartamento observava a noite na metrópole. A noite como só percebida em filmes noir, filmes B, filmes antigos, filmes bobos, filmes p&b, filmes sobre amores desfeitos.
Ele, sozinho.
Sozinho à própria sorte. Sozinho ao próprio azar.
Na companhia dos sonhos e do medo.
Na companhia do violão clássico que rasgava o alto falante da jukebox semi-quebrada que “enfeitava” a sala única do apartamento.
E o vinil velho rodava e rodava e rodava e rodava sem parar no toca-discos (Deus, ainda se usa toca-discos?). Um álbum qualquer de um violonista qualquer dos anos setenta. Anos em que ele foi garoto. Anos em que ele foi feliz (talvez).
E enquanto o vinil rodava e rodava e rodava e rodava sem parar no toca-discos e o dedilhado do violão era implacavelmente delicioso, o pensamento dele era apenas descompassado.
Pensamentos vagabundos e desimportantes.
Pensamentos idiotas.
O cigarro, acabando.
A bebida? Não.
"Prefiro morrer de vodka do que de tédio".
Alguém disse isso, mas provavelmente morreu de vodka e de tédio.
E no meio da ciranda imbecil de pensamentos escrotos, ele percebeu a garota loira emoldurada na janela do prédio em frente ao seu.
Grata surpresa.
Delicioso presente em uma noite fria e molhada.
Não tão fria, para falar a verdade, e também nada mais molhada.
Uma garota loira.
Linda.
Cabelos compridos e soltos, com o olhar perdido na cidade.
Exatamente como ele.
Viva.
Não exatamente como ele.
E ele olhou fixamente, apenas para tentar adivinhar o que ela vestia embaixo da regata. Uma calça? Calcinha? De que cor? Pijama? Nada? Que bom.
E prosseguiu na sua veloz loucura, tentando imaginar o ambiente daquela garota. Como era o seu habitat. Como era o apartamento, se ela estava sozinha, o que gostava de fazer quando estava em casa, o que gostava de ouvir, beber, fumar, etc etc etc etc etc, enfim o que ERA aquela garota.
Do nada, tudo mudou.
Ela o percebeu.
Óbvio.
Ela o percebeu ali.
Um estorvo.
Quieto. Sentado e fumando e olhando com fome em sua direção.
Ela simplesmente virou o olhar para a cidade, sem se importar com a presença dele.
Ele sorriu, idiota.
Ela o ignorou, soberba.
Ele concluiu que ela realmente devia ser linda.
Ela nem se deu ao trabalho.
E por instantes, a única realidade era o dedilhado e o sangue nas cordas.
O violão rasgando seus ouvidos, a fumaça abrindo seu pulmões e ele, queimando seus desejos.
Brusca, ela virou.
Olhou em sua direção e deu adeus com um sorriso lindo, suave e doce.
Um sorriso tenro, porém cruel.
Tortura.
Ele quis dizer qualquer coisa e ficou mudo.
Ela? Apenas se virou e entrou no seu apartamento.
Estava cansada da noite.
Ele quis gritar para ela ficar apenas ali. Parada e observando. Imóvel retrato.
Porém, ele nada disse, como sempre em sua vida.
Como em todos os momentos.
Nada de viver e tentar.
Nada.
Mais uma vez a personagem foi a noite.
Uma noite fria e molhada.
Não tão fria, repito, e também nada molhada
E novamente, a única realidade era o dedilhado e o sangue nas cordas.
O delicioso violão clássico rasgando os seus ouvidos, a fumaça abrindo seu pulmões e a cabeça queimando de desejos.
...
Ela nunca mais apareceu na porra da janela.
Ele também nunca quis se arriscar a olhar.
No final das contas, sabia que podia contar com os adoráveis sons de violão.
Adoráveis sons de violão...

Comentários

ah_sei_lah disse…
Milagre! Milagre! Ele publicou um doas 4372 textos que tem guardados na gaveta!
Tô indo pra SP amanhã, wish me luck rs
Besos
Nina 512 disse…
amei o texto.
pensei que tivesse abandonado o blog de vez "dessa vez".
espero e creio que não.
e como sempre, abandonado ou não, leio e releio tudo o que aqui foi deixado.

Postagens mais visitadas deste blog

DISCOS DE VINIL NÃO SALVAM VIDAS? - Discos de vinil não salvam vidas - Bia sentenciou, profana e canalha Nanda abriu os olhos em choque - Não? Como não? - Não, porra. Definitivamente, discos de vinil ou fitas cassete ou ipods ou seja lá o diabo, não salvam vidas. Não. - Você enlouqueceu? - disse Nanda. Bia sorriu um sorriso sinistro, triste, inadequado à felicidade. Adequado ao seu momento. - Claro que salvam. Se você não desistir de se matar ao ouvir Marvin Gaye e Tammi Terrell juntos e cantando apaixonadamente, então não sei o que mais pode te ajudar. - Nhá. Isso é para você, ingênua e esperançosa. - Se eu me fodesse, não me afogaria em etanol barato. Me afogaria em lágrimas ao som de um bom soul dos 60s. Estaria salva. - Que patético. - Você precisa de um choque de realidade. Um choque de vida. Você precisa de cores. = Vai começar. Já te disse para parar - pediu Bia. - Parar nada. Você precisa mesmo. De vida, porra. - Pára de encher. Você está me irritando - disse Bia. - Eu precis
PAPEL MOLHADO Boomp3.com - Você vai? - ele perguntou. - Talvez. E você? – ela devolveu, ansiosa. - Não sei. Gosto da Lu e tals, mas ainda não sei. - Vá! – ela pediu – Vou gostar disso. - Devo? – ele perguntou. - Claro. Acho que deve. Mas você decide. - Bem, então ta. Nos falamos. - Ok. Besos – ela respondeu e desligou o telefone. A festa rolava demente no Clube Varsóvia. Pessoas de todo o tipo, cores, tamanhos e desejos comemoravam, bebiam, celebravam. Todos pelo aniversário da Lu. Ela? Ela aguardava ele. Ele? Não chegava. Ela bebia vodka. Ele ainda não chegava. Ela fumava cigarros e maconha. Ele? Claro que não. Ao final da noite, ela estava exausta. Bêbada e cansada. Exausta por esperar demais pessoas erradas. Cansada de errar. Errar tão fodidamente feio. E ela decidiu ir embora do Clube Varsóvia. Lá fora, a chuva estava infernal. Imprudente, entrou no carro toda molhada e ensopou os bancos sujos. Tão de saco cheio, ela sequer percebeu o bilhete pardo dissolvendo-se no seu pár

O QUE VEM DEPOIS DO RELÂMPAGO?

OUÇA: alexander biggs || low Assim, de repente, ela lembrou. ... Ela lembrou que choveu muito naquela tarde. Muito mesmo. Mais do que em qualquer outro dia da sua vida que não aquele. Cruel. Ela lembrou que o tempo estava bom até então, mas o céu, caprichoso, optou pela rebelião. O céu, assim de repente, tornou-se cinza. Absurdamente cinza. Cinza chumbo, quase noite. E choveu muito, mas muito mesmo naquela tarde. Como jamais ela pensou que poderia chover naquela época do ano ou em qualquer outra época, na verdade. Maldade. Ela recordou que estava no Parque Central, quieta, apenas pensando nas verdades que havia ouvido horas antes e arquitetando uma fuga mirabolante do viciado e repetitivo labirinto caótico em que a sua vida tinha se transformado. Lembrou-se, também, que não tinha feito tanto sol e nem tampouco estava abafado e, portanto, não havia razão para tantas nuvens no céu capazes de provocar aquela tempestade gigantesca que se formou. Não mesmo. Ironia. Mas, ainda assim, tudo ac