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Going Down



leia e ouça: lou reed || going down


“...

Time's not what it seems.

It just seems longer, when you're lonely in this world.

Everything, it seems,

Would be brighter if your nights were spent with some girl


Yeah, you're falling all around.

Yeah, you're crashing upside down.

Oh, oh, and you know you're going down

For the last time

…”

Lou Reed || Going Down


E o sonho avançava.

Apenas avançava.

A noite tinha apenas começado.

- Ei mocinha. Mocinha? Me ouve?

Ela chacoalhou os cabelos castanhos desgrenhados, um monte de nós sem sentido, apenas ela, virou o rosto confuso e encarou aquele sujeito grande, intimidador, com cara de bravo e que estava imóvel à sua frente, um verdadeiro brusco naquele cenário.

- Então, me ouve? Está me ouvindo? - aquele grandalhão insistiu - Me ouve, porra? - disse, de modo grosseiro.

Ela olhou com um tanto de medo e sem saber exatamente o que fazer, o que dizer, o que mexer, o que responder, nada disse. Apenas, nada disse.

- Você entende? É surda? Onde você pensa que vai? - o grandalhão insistiu.

Ela titubeou e respondeu com uma voz fraca, pálida, quase inaudível - Onde vou? - deu uma pausa que pareceu um século e completou - Viver? - respondeu como se pedisse desculpa.

O grandalhão à sua frente, surpreso, a observou por uns instantes, olhou para o alto e gargalhou com muita, mas muita força.

Uma gargalhada impossível.

Infernal.

Alta.

Uma gargalhada gritada.

Doída.

Uma gargalhada.

Ela não entendeu e sentiu o golpe da cena. Tremeu. Não sabia o que fazer.

- Que resposta é essa mocinha? Que resposta é essa? Viver? - gargalhou novamente, agora, ainda em um tom ainda mais alto - Você pensa que é quem? Quem? Quem você pensa que é? 

Ela nada disse, sabia que o gigante estava certo no seu ponto fraco.

Nevrálgico.

Ela era pequena e grande. Ele, ainda mais.

- Quem você pensa que é? Quem? Você mora aonde? Você vive do que? Você agrada a quem? Você é o que? Quem? Quem você pensa que é? Quem?

Ela nada disse, tentando esconder seus olhos repletos de lágrimas que ela queria, e queria MUITO, mas não podia esconder.

O gigante sorriu.

Adorável prazer.

Ela? Encolheu.

Ainda mais uma vez.

E o sonho avançava.

Apenas avançava.

A noite tinha começado e estava na metade.

Pobre dela.

- Ei mocinha. Mocinha? Me ouve?

Ela chacoalhou novamente os cabelos desgrenhados, agora suados, desesperados, e somente virou, a contragosto, o seu rosto ainda confuso para encarar novamente aquele seu pesadelo grande, intimidador, com cara de bravo e que estava novamente imóvel à sua frente, um verdadeiro brusco naquele cenário.

Ele sorriu uma vez mais e disparou - Então, me ouve? Está me ouvindo? - e insistiu - Me ouve, porra? - disse, de modo ainda mais bruto.

Ela tentou evitar o olhar mas, inevitável, olhou para ele com um tanto de medo e sem saber exatamente o que fazer, o que dizer, o que mexer, o que responder, nada disse. Apenas, nada disse, uma vez mais. 

- Você entende? É surda? Onde você pensa que vai? - o grandalhão insistiu.

Ela titubeou e respondeu com uma voz fraca, pálida, quase inaudível - Onde? Onde eu vou? Viver? - ela emendou como se pedisse desculpa.

O grandalhão à sua frente a observou por uns instantes, olhou para o alto ainda mais uma vez e gargalhou com muita, mas muita força.

Uma gargalhada impossível.

Insana.

Real.

Alta.

Ela não entendeu. Tremeu. Não sabia o que fazer.

- Que resposta é essa mocinha? Que resposta é essa? Viver? - gargalhou novamente, agora, ainda em um tom mais alto - Você pensa que é quem? Quem? Quem você pensa que é? Você acha que tem direito a isso? 

Ela nada disse, sabia que ele estava certo no seu ponto fraco.

Implacável.

O gigante sorriu.

Ela? Encolheu.

E acordou.

E o sonho avançava.

E chegava perto do fim.

A noite estava quase acabando.

Sorte dela.

Sorte dela.

Simples assim.

Ela se mexeu e nada viu.

Nada.

Ninguém.

Levantou e percebeu que mesmo com os movimentos de seus membros havia apenas um reflexo no espelho da sua penteadeira.

Apenas um reflexo no espelho.

Ela.

Cabelos longos desgrenhados e desordenados que nem uma tiara ou qualquer outra coisa similar daria jeito.

Nada.

Ela.

Apenas… ela.

Levantou, Chacoalhou e foi direto ao banheiro.

Mais uma vez outro… espelho.

Olhou e viu o que mais temia:

Ela.

Apenas ela.

O seu reflexo.

E uma voz ecoou em sua mente. Uma voz conhecida, desta vez.

A sua própria voz.

Onde você pensa que vai?

Ela sorriu, agora não mais nervosa.

Ela.

Apenas, ela.

Onde você vai?

Ela sorriu e respondeu, falando ao vento, respondendo a si própria:

- Caí demais. Demais. Despenquei de todas as alturas, de todos os lugares, de todos os jeitos, de todos os modos, de todos os lados, de todos os ângulos. Apenas caí. Caí e caí feio. E não havia unha possível que segurasse meu corpo inerte nas paredes íngremes da queda. Tentei. O maldito Deus que nem sei se existe, ah ele viu. Viu e percebeu. Nada fez. Eu tentei, mas, não deu. Não havia unha possível. Não, não havia mesmo unha possível. Todas quebraram. Todas. tentei. Não segurei. Queda livre. Um horror. Um show de horror. Mas caí e levantei. Tentei. Viver. Vivi. Viverei.

- Viver. É o que quero. Apenas, viver. Apenas isso - e ela repetiu aos gritos, olhando seu reflexo borrado no espelho.

O reflexo pareceu contrariado.

Ela insistiu.

- Viver, comer, transar, correr, brincar, experimentar, tentar, tentar, tentar e tentar. Tudo, tudo o que eu quiser. Enfim, apenas ser, apenas ser, apenas ser: EU - emendou.

O reflexo, ENFIM, devolveu com bom humor: Ufa, finalmente. Finalmente.

Ela sorriu.

E, não importa não ter nada, não ser nada, não querer nada, errar tudo, querer tudo, perder tudo, não ser ninguém.

A vida é essa.

E você tira de letra.

Espelho. 

O item mais sábio da vida.

Você.

Reflexo.

Espelho.

Sonho?

O sonho acabou.

Vida?

A vida está aqui.

Vida.

Começando agora.

Apenas isso.

Vida.

Apenas isso.

Foda-se o tamanho da queda.

Foda-se.


“...

Time's not what it seems.

It just seems longer, when you're lonely in this world.

Everything, it seems,

Would be brighter if your nights were spent with some girl


Yeah, you're falling all around.

Yeah, you're crashing upside down.

Oh, oh, and you know you're going down

For the last time

…”

Lou Reed || Going Down




Photo by: Matthew Wylie



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