Pular para o conteúdo principal
CARVÃO | CLEPSIDRA (O TEMPO NUNCA SE PERDE)

Boomp3.com

- Desenha algo para mim? Ela pediu, doce e tranqüila.
Ele sorriu lindo e disse – Claro. Desenho. O que a Senhorita deseja que eu rabisque?
- O que você quiser. O que te inspirar em mim. Qualquer coisa.
Ele pegou o carvão e começou a rabiscar um pedaço de papel verde que estava “largado” sobre a mesa.
Ela ficou em silêncio e olhou para ele. Acendeu um cigarro.
Ele desenhou por breves instantes, concentrado, e terminou. Abriu um sorriso imenso após jogar o carvão sobre a mesa.
- Pronto – ele disse.
- Pronto? Rápido assim?
- Exato. Rápido assim.
- Posso ver? - ela pediu, curiosa.
- Claro que pode. Mas daqui a pouco, daqui a pouco – respondeu.
- Quero um conhaque – ela pediu.
- Ótima idéia. Cigarros e conhaques combinam demais.
- E na companhia de moços lindos, combinam mais ainda – ela emendou, esperta.
- Moços lindos? – ele perguntou. Surpreso por ouvir algo assim da parte dela. Sempre tão cool, sempre tão alternativa.
Ela, por sua vez, sorriu como boba. Não sabia ser tão sincera. Nunca. Não sabia ser tão segura. Não estava acostumada a estar tão a fim de alguém. Neste panorama, sempre que dizia algo, arrependia-se imediatamente depois. Exatamente este o caso.
- Nada demais – ela respondeu – Moços lindos combinam com cigarros e conhaques. Apenas isso.
Ele entregou a ela um copo americano com conhaque e falou, tranqüilo – Adorei.
- O quê? – ela perguntou, aceitando o copo repleto de bebida.
- Ser considerado um moço lindo. Poucas pessoas disseram isso. Adorei.
- Poucas? – ela perguntou, acesa.
Ele franziu o rosto charmoso, como se estivesse fazendo uma gigantesca força para lembrar de alguma situação e disse – Para não dizer nenhuma. Não gosto de admitir assim, de primeira, minha total inaptidão em romances e relacionamentos.
- Discordo – ela respondeu – Você não parece assim tão inábil nesta matéria. Várias pessoas em comum podem confirmar.
- Você é apenas gentil. Thanks.
- O que desenhou, afinal? – ela insistiu.
Ele ficou em silêncio alguns segundos e disparou – Desenhei sua doçura.
Ela virou o copo de conhaque antes de dizer – Doçura? Como assim?
- Desenhei algo que – para mim – retrata um bocadinho de você. Seu toque, seu perfume, sua gentileza, beleza, seu talento, todas as coisas boas que você me traz, enfim, desenhei mais ou menos isso.
Ele entregou o papel verde rabiscado a ela.
Ela ficou surpresa. O desenho era o desenho da sua pequena mão direita, com todos os anéis de dedos finos.
Ele não esperou por qualquer comentário – Hoje em dia, nestes tempos de ira e fúria, nada me parece tão suave quanto a sua mão. O seu toque no meu corpo, nos meus cabelos, no meu braço, rosto, nos meus lábios, no meu pau, enfim, tudo. Tudo em mim entorpece ao seu toque. Até o coração, que você não toca, mas alcança.
Os olhos azuis imensos dela encheram-se de lágrimas absolutamente gordas. Um dilúvio de lágrimas prestes a explodir.Começou a chorar. Cry Baby Cry.
Ele sorriu como apenas moços lindos costumam fazer. Abraçou a pequena menina tão cheia de tatuagens e medos e apertou com força, com muita força, como se pudesse torná-los um corpo só.
E neste instante, a lua cheia e amarela tinha certeza de estar testemunhando uma das cenas de amor mais intensa e linda desde sempre. Uma cena de amor repleta de beijos, carinhos, toques, desenhos, pinturas, conhaques e cigarros. Uma cena de amor entre duas pessoas tão sinceras.
E sobre o piso de tacos descascados, o desenho em carvão da pequena mão da garota tatuada repousava suave.
Sobre a cama, corpos cansados descansavam sob a luz do luar.
Corpos felizes e exaustos.
Corações simplesmente apaixonados.
Surpreendentemente apaixonados.
O mundo fazendo sentido de vez, uma única vez.



(onde tenho que ir | nação zumbi)

Deixou cair em tentação
Não lhe custava o sacrifício
Aprendendo com os erros
E às vezes acertando em cheio
Por uma vida menos ordinária pintamos o chão
Por isso você é o lugar pronde sempre vou e fico
Mesmo ligando a esperança de ver
O meu mundo fazendo sentido de vez, de vez

Incompletos desejos
Aos pedaços lhe faço existir
Um dia aqui e outro ali
E com fome de tudo
Esperando a hora que diz onde tenho q ir

Deixou cair em tentação
Não lhe custava o sacrifício
Planejava fazer o batente o dia inteiro
Pra lembrar que estica o caminho
Quem manda no chão
Não atrasava mais nada além do que o tempo lhe deu
Sempre ligando a esperança de ver
O seu mundo fazendo sentido de vez, de vez

Comentários

WodAdmin disse…
Guzi,

Liga pra mim, tá me devendo.

Beijo.
carol disse…
soberbo.
e...soberba; envolvente. e mais coisas que me fariam cair de amores...

Postagens mais visitadas deste blog

FRIOS COMO O MAR

Frios. Apenas frios. Frios e distantes. Distantes e azuis. Muito. Muito azuis. Olhos azuis, longos e lindos. Mas frios. Frios como o mar. Lacônicos. Como o mar. Como o mar. E naquela mesa do Clube Varsóvia ele apenas percebia isto. Entre uma tragada e outra. Apenas os lindos olhos azuis e frios. Dando adeus. Apenas dando adeus. Apenas adeus. Frios. Olhos azuis, longos e lindos. Frios. Frios como o mar. Como o mar. Olhos azuis, longos e lindos. Mas frios. Frios como o mar. Um adeus. Apenas isso. Um adeus. Deve ser amor. E dor. Muita dor. Muita dor e muito adeus. Muito adeus...

MEDO? MUITO!

Sinto um breve sopro de medo e desespero a me corroer o peito. Um breve, porém profundo, sopro de medo e desespero. Medo. Medo de encarar a minha própria vida e todas as bobagens que dela fiz. Medo de encarar o espelho, de frente, e perceber que do alto de todos os meus anos vividos, não fui capaz de manter a verdade como a linha mestra dela. Como a guia. Como o farol a iluminar cada passo dado no escuro. Sinto um breve sopro de desespero a me corroer o peito. Aquele desespero que muito embora desperta uma vontade absurda de correr sem parar para qualquer lado, mas que, na verdade, te deixa apenas imobilizado, estático, congelado, sentindo o suor frio escorrer pela testa. Sinto medo e desespero com a mesma frequência com que respiro. Uso e abuso do álcool das drogas, do cigarro, da mentira. Subterfúgios e desculpas. Não consigo encarar os que amo. Sinto como se minha vida fosse uma fraude bem arquitetada pelo destino. Uma fraude bem arquitetada pelo tamanho, porém uma fraude grosseira...
CAMILA´s KISSES boomp3.com O Clube Varsóvia! Lá estava ela, uma vez mais, entrando no Clube Varsóvia. Depois de todos estes anos. Depois de tanto tempo. E para sua surpresa, as cores, as luzes, as pessoas, a fumaça, os bartenders, a pista, as cadeiras, o globo colorido, os cinzeiros setentistas, o veludo das paredes, enfim, tudo, mas todo o cenário dos seus loucos anos estava exatamente como sempre foi. Como sempre esteve. Tudo no seu devido lugar. Tudo suspenso no tempo, no espaço, na vida. Mas não exatamente. Óbvio. Óbvio que não. Sempre é assim. As coisas mudam. Tudo o que demora demais para ser revisitado, para ser relembrado, para ser retomado, muda. E muda mesmo. Para valer. De modo implacável, cruel e até mesmo rude. Carrinho por trás com o jogador fora de jogo. Fratura exposta e corte na carne alheia. No player, no game. No entanto, o curioso, no caso dela, é que o Clube Varsóvia estava REALMENTE igual. Exatamente como sempre foi. Exatamente igual. O que mudou, meus caros, o qu...

BABIES

"Estou deixando a minha vida passar. Isto é grave. Bastante grave. Está passando rapidamente e tudo o que eu queria era poder ter paz. Não beber, não fumar, não fazer merda, enfim, deitar a cabeça no travesseiro de forma tranqüila e calma, e dormir o sono dos bons, o sono dos justos, o sono dos normais. Muito ao contrário, tudo em que me meto remete ao caos, ao desespero, aos problemas. Falta de bom senso, falta de critério, falta de razão, Falta de juízo, como costuma dizer os sábios mais velhos. Ok, ok, juízo também não é tudo na vida. Viver sem um pouquinho de imaturidade ou de risco não é exatamente viver. Mas a vida deve ser vivida de forma alegre e divertida e não necessariamente como um fio de nylon, no qual você tem que caminhar por quilômetros, tendo um abismo colossal abaixo. Não, a vida pode ser mais leve, como um copo de suco gelado, irrepreensível diante de tardes de calor insanas. A vida merece mais, não menos. A vida merece muito, não pouco. Cansei de errar e chora...

A VOLTA

É difícil voltar. Difícil mesmo. É difícil voltar a escrever como antes. Muito difícil. Eu costumava escrever demais. Escrevia muito, muito, muito. Cheguei a postar contos quase diariamente durante algum período. Sim, durante algum período consegui esta façanha. E adorava fazer isto. Talvez a coisa mais importante da minha vida. A coisa mais realizadora. O ato mais feroz e feliz. Acontece que as coisas mudam, nós envelhecemos, e a vida passa a ser cada dia mais selvagem e cruel, absolutamente cruel. Pensei e pensei e pensei e cheguei a conclusão de que devia me afastar de tudo. Me afastar dos meus escritos, dos meus contos, do Clube Varsóvia, enfim. Nunca consegui deletar todo este blog, embora tenha tido vontade inúmeras vezes, desde que parei de escrever. Pensei, pensei e pensei muito de novo e cheguei a conclusão de que sou forte. Desatei alguns nós importantes e difíceis e voltei a ser leve e solto. Voltei a ser feliz com pequenos prazeres. Decidi voltar. E mais forte e melhor. ...