Pular para o conteúdo principal

E O QUE ACONTECE QUANDO A CÂMARA CRIOGÊNICA DEIXA DE FUNCIONAR?



Do nada.
E ela olhou novamente para a tela azul do seu laptop e respirou fundo. Muito fundo e sem acreditar no que viu.
Muito sem acreditar no que viu.
Assustou e quase derrubou o seu copo de vodka estrategicamente posto ao seu lado. Estremeceu brusca os seus joelhos dobrados e quase derrubou o laptop que estava confortavelmente apoiado em suas coxas até então relaxadas.
Até então.
Até então, relaxadas.
Agora? Não mais.
Respirou fundo e buscou com a sua mão esquerda ligeiramente ansiosa o maço de cigarros que estava caído ao seu lado por sobre o gasto tapete cor carmim.
Tateou por instantes e encontrou a bendita caixa, sem sequer olhar.
Com a direita, correu o touchpad para cima e para baixo, lendo e relendo os nomes que pulavam na sua caixa de entrada.
Não acreditava no que acabara de ler.
Não.
Não acreditava.
Um nome.
Apenas um nome.
Aquele nome.
Deixou a seta pousada sobre ele e decidiu esperar antes de clicar.
Esperar.
Esperar?
Como se fosse possível.
Procurou aflita a caixa de fósforos e, assim que a localizou, puxou veloz e sem cuidado um fósforo qualquer, deixando cair ao menos outros sete ou oito por sobre o puído tapete carmim.
Acendeu o cigarro.
Ainda fumava mentolados.
Deu uma puta tragada e soltou.
A fumaça nervosa e tensa espalhou no ambiente e fez coro ao aroma das velas asiáticas (asiáticas?) que estavam acesas de um modo espalhado e desorganizado pela pequena sala.
Esperou para abrir a mensagem.
Não acreditou que ele havia escrito.
Definitivamente não acreditou.
Sentiu um tremor em seus lábios e sentiu o gosto do batom de cereja que ainda resistia naquela altura da madrugada.
Batom de cereja com um sabor incrivelmente amargo naquele instante.
Demasiado amargo, porém gostoso.
Não acreditou que ele havia escrito.
Definitivamente não acreditou.
Deu uma tragada ainda mais forte em seu cigarro mentolado e levou a mão livre à cabeça.
Cabelos soltos.
Bagunçados.
Nervosos.
Sabia que, ao clicar naquele nome em negrito estampado na caixa postal à sua frente, estaria abrindo uma verdadeira mensagem de um náufrago. Uma verdadeira message in a bottle, absurdamente improvável nos dias atuais.
Improvável.
Definitivamente.
Sentiu-se em um filme de ficção barato dos anos cinquenta, com máquinas do tempo vagabundas, alienígenas freaks, cientistas loucos e câmaras de criogenia insensatas que insistem em manter congelados por anos, ou mesmo décadas, alguns miseráveis astronautas insensatos e aventureiros.
Uma máquina de criogenia.
Isso.
Uma câmara de criogenia.
A definição perfeita para aquela mensagem.
Uma câmara de criogenia, porém como quase tudo em sua vida, uma máquina quebrada.
Bastava abri-la para o astronauta acordar.
Bastava isso, destampar a garrafa ou abrir a máquina, como queira.
Ela?
Ela permaneceu sentada sobre o seu tapete carmim com o laptop apoiado em seus joelhos, tragando o seu cigarro e apreciando a sua vodka barata, simplesmente sem saber o que fazer.
Apenas sem saber o que fazer.
O clique?
O clique... bem... dependia dela.
Bastava apenas um clique...
A câmara já estava quebrada...






Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

WITH A LITTLE HELP FROM MY FRIENDS

Hoje em dia, todos os meus amigos me detestam. Todos. Simplesmente todos. Hoje em dia eu tenho certeza disso. E, na verdade, são amigos porque eu ainda assim os considero. Unilateral e solitariamente, ainda assim eu os considero. Mas, triste, eu sei que apenas eu ainda os considero. No meu pequeno e inchado coração, eles ainda são meus amigos. Recuso a aceitar o oposto. Recuso a reconhecer o contrário. Simplesmente recuso. E o que eu fiz de tão grave? Tudo. Simplesmente tudo. Cometi os piores erros que se pode cometer. Menti, fraudei, trapaceei, não fui sincero, errei, não acertei, quis, não quis, fugi, corri, zombei, deixei na mão, enfim, fiz tudo aquilo que não se deve fazer com amigos. Nunca. Nunca, nunca e nunca. E, desta forma, por óbvio que todos, mas todos os meus amigos hoje me detestam. Amigos reais, virtuais, imaginários, inimigos, enfim, todos e todos e todos. De todos os tipos, cores, formatos, sexos e maneiras. Cometi toda sorte de crime que se possa ima...

O RUÍDO QUE PRECEDE O GOZO

Ele suava frio. Muito frio, mesmo debaixo daquele calor infernal do Rio de Janeiro. Quando encarou a porta do elevador do pequeno, porém adorável edifício, decidiu se ia mesmo entrar. Ficou estático por alguns minutos. - Ei senhor, é no sétimo andar – disse o porteiro, estranhando a lerdeza do rapaz. - Obrigado – ele respondeu. Abriu a porta e entrou. Apertou rapidamente o botão do sétimo andar e ficou pensando no que estava fazendo. O elevador subia rapidamente e ele fez um retrospecto de sua vida pequena, desde o instante em que a conheceu, até aquele momento no elevador do pequeno edifício. Ficou contando os andares até o elevador chegar. Saiu da cabine e ficou diante da porta. Apartamento 701. Não sabia se ela estaria feliz de verdade em vê-lo, ou não. Ele gostava de pensar que sim, porém não tinha certeza. Definitivamente não tinha certeza. Ficou parado e enxugou o suor da testa. Lentamente apertou a campainha. Após alguns segundos, a porta lentamente se abriu. Atrás, ela, tod...
O SECAR DAS LÁGRIMAS (É TÃO DOCE) "...it´s getting better all the time..." - Puca cantarolou do nada, para espanto de Lee. - Está? - Lee perguntou, completando na seqüência - E meu Deus, você vai sussurrar esta canção a tarde toda? - Claro que sim - Puca respondeu - Estou feliz, pô. Não vejo o menor problema em expressar isto. - Você é um saco. ...it´s getting better prá lá, it´s getting better prá lá. E peraí porra, isto é Beatles? Certo? - Lee perguntou fast and furious, após cair a ficha. Puca olhou com um ar fake de superioridade para a amiga e com um sorriso quase revelador, apenas assentiu com a cabeça. - Jesus, como você está ficando cafona, Puca - Lee reclamou - O que pode estar ficando melhor nesta porra de dia cinza? Ainda mais ao som de uma banda dos meus pais? - Como você é pesssimista Lee. Caráleo. Como você é pessimista. Você é uma garota tipicamente "quarta feira de cinzas". Um porre não, uma ressaca completa. Você sucks demais. Lee sorriu com a bri...
APAGUE A LUZ, POR FAVOR? boomp3.com Então é assim que termina? – ele pensou, enquanto a chuva desabava sobre o seu corpo inerte. Ele estava só, parado em frente ao velho apartamento deles, no Centro Velho, apenas olhando o passado. Acaba assim? Desta forma idiota? Eu aqui, parado como um imbecil na frente da minha ex-casa, debaixo de chuva torrencial e com uma mochila cheia de livros e fotos rasgadas? - Quer ajuda, doutor? – perguntou o porteiro, sempre gentil - Está chovendo demais e o Senhor aí, parado na “trovoada”. - Não, obrigado Carlos. Já estou indo – ele respondeu, seco – Já estou indo. Ficou em silêncio por alguns instantes, apenas sentindo o sabor das lágrimas e da chuva. Após tentar acender um cigarro molhado, virou e foi embora de vez daquele lugar. E foi embora para sempre do único lugar em que ele foi, por algum tempo, verdadeiramente feliz. O único lugar em que ele foi, por algum tempo, verdadeiramente apaixonado. ... Mas, e como começa? Começa com um toque, com um gesto...

MEDO? MUITO!

Sinto um breve sopro de medo e desespero a me corroer o peito. Um breve, porém profundo, sopro de medo e desespero. Medo. Medo de encarar a minha própria vida e todas as bobagens que dela fiz. Medo de encarar o espelho, de frente, e perceber que do alto de todos os meus anos vividos, não fui capaz de manter a verdade como a linha mestra dela. Como a guia. Como o farol a iluminar cada passo dado no escuro. Sinto um breve sopro de desespero a me corroer o peito. Aquele desespero que muito embora desperta uma vontade absurda de correr sem parar para qualquer lado, mas que, na verdade, te deixa apenas imobilizado, estático, congelado, sentindo o suor frio escorrer pela testa. Sinto medo e desespero com a mesma frequência com que respiro. Uso e abuso do álcool das drogas, do cigarro, da mentira. Subterfúgios e desculpas. Não consigo encarar os que amo. Sinto como se minha vida fosse uma fraude bem arquitetada pelo destino. Uma fraude bem arquitetada pelo tamanho, porém uma fraude grosseira...