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Carvão


leia a ouça: stray fossa || better late than

E lá estavam os dois sentados na sala de estar da casa dela.

Dois.

Os dois.

Sempre os dois.

Amor.

Eles…

- Desenha algo para mim? Ele pediu, doce e inseguro.

Ela sorriu linda e disse o encarando com seus olhos verdes, grandes e intensos – Oras, não sei desenhar. Você sabe disso. Não sei rabiscar nadinha. Tenho outras habilidades, mas não o desenho.

Ele devolveu o sorriso, sorriso agora ainda mais intenso e respondeu - Ah, por favor, tente desenhar qualquer coisa. Qualquer rabisco.

Ela o encarou divina com seu olhar esmeralda e respondeu decidida - Claro. Desenho. O que o senhor sedutor em pedidos impossíveis gostaria que eu rabisque?

Ele a olhou feliz por vários instantes e disse - O que você quiser. O que te inspira. Qualquer coisa. Qualquer coisa…. desenhe o meu amor por você… - disse, e essa afirmação última em um tom quase inaudível.

Ela percebeu o som das palavras quase não ditas, o encarou e nada comentou. Pegou um pedaço de lápis que estava sobre o móvel de centro, abaixou a cabeça e começou a rabiscar um pedaço de papel verde mar que estava largado sobre a mesa.

Ela suspirou e olhou para ele por vários e longos minutos antes de abaixar a sua cabeça repleta de seus bagunçados cabelos escuros e deitar os olhos sobre o pedaço de papel verde água à sua frente. Sorriu.

Ele a olhou em transe. Dançou com seus olhos por todo o corpo daquela mulher sentada próxima a ele, em seu cenário. Adorava ver como os cabelos curtos e deliciosamente desgrenhados dela dançavam enquanto fazia qualquer movimento. Qualquer movimento.

E, apesar de parecer um universo infinito de tempo, ela desenhou e foi breve. O tempo real durou curtos, porém intensos instantes Concentrada, rápida, determinada, ela logo terminou. Levantou a cabeça, mexeu seus cabelos, abriu um sorriso sereno, jogou o resto de lápis sobre a mesa de centro da sala e disse segurando o papel verde amassado - Pronto. Aqui.

- Pronto? Rápido assim? - ele perguntou.

- Exato. Rápido assim.

- Posso ver? - ele pediu, curioso.

- Claro que pode. Mas daqui a pouco, daqui a pouco – respondeu e emendou: Quero um chá antes – pediu.

- Ótima ideia. Pode ser hortelã? Combina com seus olhos - ele brincou.

Ela sorriu ciente do que seus olhos provocavam nele e respondeu quase em sussurro -E, na companhia do amor da vida, eles brilham e combinam mais ainda. Pode apostar... – completou.

Ele a olhou encantado e surpreso - Amor da vida? – ele perguntou repetindo o que havia pensado ter acabado de ouvir. Surpreso por ouvir algo assim da parte dela. Sempre tão discreta, sempre tão suave. sempre tão ela.

Ela, por sua vez, sorriu como boba. Não sabia ser tão explícita. Não estava acostumada a ser tão visível. E era exatamente o caso naquele instante.

- Não – ela respondeu – Apenas quero um chá de hortelã. Apenas isso.

Ele se levantou e foi até a cozinha e depois de um tempo que pareceu uma vida inteira voltou. Entregou a ela uma caneca com a bebida quente e esfumaçante e falou, tranquilo – Adorei. Simplesmente, eu adorei.

- O quê? – ela perguntou, aceitando o copo repleto de bebida quente.

Direto, ele respondeu - Ser amado. Não sei o que é isso. Não sei. Mas, simplesmente adorei.

- Não? – ela perguntou, acesa.

Ele franziu o rosto charmoso, como se estivesse fazendo uma gigantesca força para lembrar de alguma situação e disse – Para não dizer nenhuma. Não gosto de admitir assim, de primeira, minha total inaptidão em romances e relacionamentos. Insegurança. Medo. Eu.

- Discordo – ela respondeu – Seja você. Seja sempre, sempre você.

- Você é apenas gentil. Apenas isso. Mas, o que desenhou, afinal? – perguntou, tentando mudar o assunto.

Ela ficou em silêncio alguns segundos e disparou – Desenhei sua doçura.

Ele virou o copo de café que segurava antes de dizer – Doçura? Como assim?

- Desenhei algo que – para mim – retrata um bocadinho de você. Seu toque, seu perfume, sua gentileza, beleza, seu talento, todas as coisas boas que você me traz, enfim, desenhei mais ou menos isso. O toque que você consegue alcançar em meu coração.

Ela entregou o papel verde rabiscado a ele.

- Eu te amo - ela disse.

Ele olhou para o papel e ficou surpresa e com lágrimas nos olhos. Muitas. Muitas lágrimas. O desenho era claro e direto. Era apenas o desenho da sua própria grande mão direita, com todos os seus anéis e dedos longos e grossos e unhas tão, tão, tão curtas. A sua própria mão direita.

Ela não esperou por qualquer comentário dele e disparou – Eu te amo e sei que você me ama. Seja você, seja maior, seja o que você é. Hoje em dia, nestes tempos de ira e fúria, nada me parece tão suave quanto a sua gigantesca mão. Nada. O seu toque no meu corpo, nos meus cabelos, no meu braço, rosto, nos meus lábios, enfim, tudo. Tudo dentro de mim entorpece ao seu toque. Até a alma e o meu coração, que você não os toca, mas alcança. Alcança com suas mãos e com o seu olhar, tão preciso e precioso para mim.

Os olhos dele encheram-se ainda mais de lágrimas absolutamente gordas. Um dilúvio de sentidos explodiu. Começou a chorar. Cry Baby Cry - EU TE AMO - ele disse quase sem conseguir - Eu te amo - repetiu.

Ela sorriu sabendo exatamente o que ele sentia por ela e com um sorriso que apenas moças lindas e mulheres gigantes costumam sorrir. Abraçou ele e aquele seu corpo largo, tão cheio de marcas e medos por dentro e apertou com força, com muita força, como se pudesse engoli-lo.

E, neste instante, a lua cheia e amarela tinha certeza de estar testemunhando uma das cenas de amor mais intensas e lindas, desde sempre. Uma cena de amor repleta de beijos, carinhos, toques, desenhos, pinturas, chás de hortelã e verdades. Uma cena de amor entre duas pessoas tão sinceras. Tão intensas. Tão verdadeiras.

E, horas depois, quando o sol insistiu em nascer, sobre o piso de tacos novos, o desenho em carvão de lápis da grande mão do homem inseguro repousava suave em cima do tapete.

Eles? Dois corpos cansados e ainda grudados que descansavam felizes. Corpos felizes e exaustos. Corações simplesmente apaixonados. Surpreendentemente em amor intenso.

E o mundo lá fora?

O mundo fazendo sentido.

O mundo fazendo sentido de vez, pela primeira vez para eles.

Pela primeira vez…

E lá ficaram os dois deitados na sala de estar da casa dela.

Dois.

Os dois.

Sempre os dois.

Amor.

Eles…

Photo By Imogen Cunningham





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