Pular para o conteúdo principal
GIMME DANGER – GIMME PLEASURE – GIMME LIFE

Ela dançava e dançava e dançava. Sem parar. Como se o mundo fosse explodir e somente as lendas sobrevivessem ao caos.

E, no meio da pista, tudo o que ela mais queria era ser uma lenda. Sobrevivente do caos. Uma estória de fogo, sangue, sêmem, gozo, batom, rímel, tequila, noite, vampiros, lua, cigarros e canções de amor, canções de horror.

E ela dançava e dançava e dançava. Puro desejo. Teenage kicks. Cada passo uma despedida, uma dança solitária de amor e morte e noite. O seu habitat. O seu lugar. O seu mundo. O seu cenário.

- Você é linda – ele disse, tentando interrompê-la, apenas para fazer parte do seu transe insano e adorável.
Ela o olhou e disfarçou um sorriso, sem nada dizer.
- Posso insistir? Você é linda – ele disse, oferecendo um Marlboro e começando a dançar ao lado dela.
Ela pegou o cigarro com seus dedos finos e suaves, habituados a tantos ensaios inacabados de piano e agradeceu, meio tímida, meio sexy – Obrigado, mas não precisa mentir.
Ele sorriu – Mentir sobre?
- Minha beleza – ela respondeu.
- Mas você é linda mesmo. Nunca percebeu? – ele perguntou, cínico.
Sem parar de dançar, ela argumentou - Às vezes, me sinto como uma espécie de vampiro, sabe? Não me vejo no reflexo do espelho. Ela ficou em silêncio e completou - Na verdade, não quero me ver.
Ele sorriu e balançou a cabeça, discordando totalmente dela – Não, de forma alguma, pode acreditar em mim. Pode acreditar. Você não sabe o que está perdendo.
- Escolha uma canção – ela pediu, rápida.
- Gimme Danger – ele respondeu direto, sem pensar.
- Uau – ela gritou – Uma das minhas favoritas. Lê pensamentos?
- Sua camiseta – ele disse – Só isso.
Ela gargalhou da sua própria pergunta, enquanto lembrava da camiseta preta que vestia, com a estampa nua do Iggy Pop sob os dizeres Gimme Danger / Little Stranger.
- Eu também adoro prazeres com desconhecidos – arriscou.
- Quer tentar me transformar numa conhecida sua? Temos até o amanhecer para isso.
- Prefiro mais tempo. Que tal até a primavera? – sugeriu.
Ela sorriu feliz, dançando para ele uma de suas danças mais noturnas, mais sensuais. Uma dança de início. Início de lendas e estórias...


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

DISCOS DE VINIL NÃO SALVAM VIDAS? - Discos de vinil não salvam vidas - Bia sentenciou, profana e canalha Nanda abriu os olhos em choque - Não? Como não? - Não, porra. Definitivamente, discos de vinil ou fitas cassete ou ipods ou seja lá o diabo, não salvam vidas. Não. - Você enlouqueceu? - disse Nanda. Bia sorriu um sorriso sinistro, triste, inadequado à felicidade. Adequado ao seu momento. - Claro que salvam. Se você não desistir de se matar ao ouvir Marvin Gaye e Tammi Terrell juntos e cantando apaixonadamente, então não sei o que mais pode te ajudar. - Nhá. Isso é para você, ingênua e esperançosa. - Se eu me fodesse, não me afogaria em etanol barato. Me afogaria em lágrimas ao som de um bom soul dos 60s. Estaria salva. - Que patético. - Você precisa de um choque de realidade. Um choque de vida. Você precisa de cores. = Vai começar. Já te disse para parar - pediu Bia. - Parar nada. Você precisa mesmo. De vida, porra. - Pára de encher. Você está me irritando - disse Bia. - Eu precis
PAPEL MOLHADO Boomp3.com - Você vai? - ele perguntou. - Talvez. E você? – ela devolveu, ansiosa. - Não sei. Gosto da Lu e tals, mas ainda não sei. - Vá! – ela pediu – Vou gostar disso. - Devo? – ele perguntou. - Claro. Acho que deve. Mas você decide. - Bem, então ta. Nos falamos. - Ok. Besos – ela respondeu e desligou o telefone. A festa rolava demente no Clube Varsóvia. Pessoas de todo o tipo, cores, tamanhos e desejos comemoravam, bebiam, celebravam. Todos pelo aniversário da Lu. Ela? Ela aguardava ele. Ele? Não chegava. Ela bebia vodka. Ele ainda não chegava. Ela fumava cigarros e maconha. Ele? Claro que não. Ao final da noite, ela estava exausta. Bêbada e cansada. Exausta por esperar demais pessoas erradas. Cansada de errar. Errar tão fodidamente feio. E ela decidiu ir embora do Clube Varsóvia. Lá fora, a chuva estava infernal. Imprudente, entrou no carro toda molhada e ensopou os bancos sujos. Tão de saco cheio, ela sequer percebeu o bilhete pardo dissolvendo-se no seu pár

O QUE VEM DEPOIS DO RELÂMPAGO?

OUÇA: alexander biggs || low Assim, de repente, ela lembrou. ... Ela lembrou que choveu muito naquela tarde. Muito mesmo. Mais do que em qualquer outro dia da sua vida que não aquele. Cruel. Ela lembrou que o tempo estava bom até então, mas o céu, caprichoso, optou pela rebelião. O céu, assim de repente, tornou-se cinza. Absurdamente cinza. Cinza chumbo, quase noite. E choveu muito, mas muito mesmo naquela tarde. Como jamais ela pensou que poderia chover naquela época do ano ou em qualquer outra época, na verdade. Maldade. Ela recordou que estava no Parque Central, quieta, apenas pensando nas verdades que havia ouvido horas antes e arquitetando uma fuga mirabolante do viciado e repetitivo labirinto caótico em que a sua vida tinha se transformado. Lembrou-se, também, que não tinha feito tanto sol e nem tampouco estava abafado e, portanto, não havia razão para tantas nuvens no céu capazes de provocar aquela tempestade gigantesca que se formou. Não mesmo. Ironia. Mas, ainda assim, tudo ac