Pular para o conteúdo principal
CINEMA MUDO

Tensão.
Havia tensão no ar.
Definitivamente, havia muita tensão.

- Você precisa dizer as coisas sem pensar. Precisa fazer mais vezes isto - ela pediu, impaciente - Precisa ser mais seguro. precisa ser mais você.
- Preciso? - ele respondeu, pensando muitas vezes antes de responder - É que eu nunca sei quando você fala sério.
Ela encarou o teto, irritadíssima e disparou - Faça como quiser, seu porra pretensioso. Quem disse que é para você saber o que penso - Quem disse?
Ele nada disse. Pensou em dizer diversas coisas, óbvio, mas ficou em silêncio. Ficou em silêncio tentando achar a palavra perfeita, a frase certa, a entonação adequada, mas, ainda mais uma vez, ficou apenas em silêncio.
- Vou indo, então - ela falou - Estou com fome, preciso comer alguma coisa.
- Agora?
- É, agora, qual o problema?
- Nada, mas já são duas da manhã.
- E, por acaso, ninguém pode ter fome às duas da manhã?
- Não precisa ficar puta - ele pediu, sabendo que havia feito merda a noite toda.
Ela olhou novamente para o teto, talvez agora explodindo de raiva, talvez pedindo ajuda aos céus, talvez apenas com sono e tédio por aquele pateta diante dele - Eu não ESTOU puta. Estou apenas com fome e cansada.
Ele ficou em silêncio, enquanto sua cabeça paranóica pensava em mil coisas ao mesmo tempo. Mil coisas, porém nada que valhesse a pena ser dito. Não naquele momento.
- Tá bom, então?
- Bem, está. Tudo em ordem.
- Se eu ficar você vai dizer algo? - ela arriscou. Uma última tentativa. Vã.
Ele tentou ser rápido, mas o tempo voou. Os segundos foram muito mais velozes do que sua audácia, quer dizer, a sua "vontade" de ter audácia.
- Amanhã eu te vejo? - ele disse.
Ela bufou algum som incompreensível e respondeu, tentando manter a calma - Talvez.
- Talvez é melhor do que um não direto, não é mesmo?
Ela soltou um suspiro - Você é um idiota mesmo, mas creio que eu já te disse isso, não? - ela relaxou.
Ele sorriu, tímido, e esboçou um sorriso.
- Você é um tremendo idiota. Ah, como é - ela repetiu.
- Desculpa.
- PÁRA de pedir desculpa, caralho. Que chato.
- Descul... tá, ok - ele emendou.
- Vou indo, então. Estou morrendo de fome.
- Tá, nos vemos amanhã. Quero dizer. Talvez.
- E espero que arrependido pelo que NÃO fez - ela disse, cruel e ligeira.
Ele tentou evitar não transparecer que concordava. Em vão. Seu olhar o traiu, mas ela fingiu não perceber.
- Boa noite.
- Boa noite.
- Fica bem.
- Você também.

E enquanto ela sumia dos seus olhos, ele viajou longe em pensamentos. Ele foi longe, tentanto entender o que havia feito de errado. Tentanto entender o que NÃO havia feito.

E se antes ele não havia dito nada. Agora, com a boca seca, sua vontade era a de gritar.

Apenas gritar para o apartamento vazio.

Tensão.
Havia tensão no ar.
Definitivamente, havia muita tensão e silêncio naquele sábado á noite.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

FRIOS COMO O MAR

Frios. Apenas frios. Frios e distantes. Distantes e azuis. Muito. Muito azuis. Olhos azuis, longos e lindos. Mas frios. Frios como o mar. Lacônicos. Como o mar. Como o mar. E naquela mesa do Clube Varsóvia ele apenas percebia isto. Entre uma tragada e outra. Apenas os lindos olhos azuis e frios. Dando adeus. Apenas dando adeus. Apenas adeus. Frios. Olhos azuis, longos e lindos. Frios. Frios como o mar. Como o mar. Olhos azuis, longos e lindos. Mas frios. Frios como o mar. Um adeus. Apenas isso. Um adeus. Deve ser amor. E dor. Muita dor. Muita dor e muito adeus. Muito adeus...

MÚSICAS, CANÇÕES OU... TANTO FAZ...

Músicas? Canções? Tanto faz. Às vezes é uma coisa. Às vezes outra. O inverso. Mas, tanto faz. Tanto faz. Com erro de português ou não. Com lágrimas... ... ou não. E ela? O adorava. Muito. Mesmo sabendo do seu ridículo gosto por música pop. Música para um babaca dançar. Nada demais. Músicas? Canções? Tanto faz. Às vezes é uma coisa. Às vezes outra. Com lágrimas... ... Ou não. Ou não... - E você? – ela perguntou. Ele fez apenas uma cara de surpresa – Como? - respondeu. - E você? Já ouviu True? Ele a olhou com espanto e surpresa. - Spandau Ballet? Ela sorriu. Ele também. - Ouviu? – ela prosseguiu. - Idiota – ele respondeu de forma grossa. Ela apenas sorriu. Sabia quem era ele. Sabia mesmo. Mesmo depois de tantos e tantos anos. Tantos anos... Tantos anos...

BABIES

"Estou deixando a minha vida passar. Isto é grave. Bastante grave. Está passando rapidamente e tudo o que eu queria era poder ter paz. Não beber, não fumar, não fazer merda, enfim, deitar a cabeça no travesseiro de forma tranqüila e calma, e dormir o sono dos bons, o sono dos justos, o sono dos normais. Muito ao contrário, tudo em que me meto remete ao caos, ao desespero, aos problemas. Falta de bom senso, falta de critério, falta de razão, Falta de juízo, como costuma dizer os sábios mais velhos. Ok, ok, juízo também não é tudo na vida. Viver sem um pouquinho de imaturidade ou de risco não é exatamente viver. Mas a vida deve ser vivida de forma alegre e divertida e não necessariamente como um fio de nylon, no qual você tem que caminhar por quilômetros, tendo um abismo colossal abaixo. Não, a vida pode ser mais leve, como um copo de suco gelado, irrepreensível diante de tardes de calor insanas. A vida merece mais, não menos. A vida merece muito, não pouco. Cansei de errar e chora...
CAMILA´s KISSES boomp3.com O Clube Varsóvia! Lá estava ela, uma vez mais, entrando no Clube Varsóvia. Depois de todos estes anos. Depois de tanto tempo. E para sua surpresa, as cores, as luzes, as pessoas, a fumaça, os bartenders, a pista, as cadeiras, o globo colorido, os cinzeiros setentistas, o veludo das paredes, enfim, tudo, mas todo o cenário dos seus loucos anos estava exatamente como sempre foi. Como sempre esteve. Tudo no seu devido lugar. Tudo suspenso no tempo, no espaço, na vida. Mas não exatamente. Óbvio. Óbvio que não. Sempre é assim. As coisas mudam. Tudo o que demora demais para ser revisitado, para ser relembrado, para ser retomado, muda. E muda mesmo. Para valer. De modo implacável, cruel e até mesmo rude. Carrinho por trás com o jogador fora de jogo. Fratura exposta e corte na carne alheia. No player, no game. No entanto, o curioso, no caso dela, é que o Clube Varsóvia estava REALMENTE igual. Exatamente como sempre foi. Exatamente igual. O que mudou, meus caros, o qu...

A VOLTA

É difícil voltar. Difícil mesmo. É difícil voltar a escrever como antes. Muito difícil. Eu costumava escrever demais. Escrevia muito, muito, muito. Cheguei a postar contos quase diariamente durante algum período. Sim, durante algum período consegui esta façanha. E adorava fazer isto. Talvez a coisa mais importante da minha vida. A coisa mais realizadora. O ato mais feroz e feliz. Acontece que as coisas mudam, nós envelhecemos, e a vida passa a ser cada dia mais selvagem e cruel, absolutamente cruel. Pensei e pensei e pensei e cheguei a conclusão de que devia me afastar de tudo. Me afastar dos meus escritos, dos meus contos, do Clube Varsóvia, enfim. Nunca consegui deletar todo este blog, embora tenha tido vontade inúmeras vezes, desde que parei de escrever. Pensei, pensei e pensei muito de novo e cheguei a conclusão de que sou forte. Desatei alguns nós importantes e difíceis e voltei a ser leve e solto. Voltei a ser feliz com pequenos prazeres. Decidi voltar. E mais forte e melhor. ...