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DUBLÊ DE CORPO


“...
Foi tanta força que eu fiz por nada
Para tanta gente eu me dei de graça
Só prá vc eu me poupei
...”

- Credo, como você é mórbido – ela disse sincera e assustada. Irritada. Muito.
- É? – ele perguntou irônico e com a dose certa de sarcasmo – Tem razão. Toda a razão. Ninguém pode usar uma música dos Heróis da Resistência como referência de vida. Falta de pudor total. Total. Minha penitência. Falha minha. Absoluta. Total.
Ela discordou com a cabeça, fechando os olhos azuis e balançando os seus lindos cabelos vermelhos – Não. Não é isso. É outra coisa.
Ele tomou mais uma dose da sua vodka e a olhou curioso. Perguntou – Não entendi. Como assim?
Ela acendeu mais um cigarro e disse sincera – Não sei. Simplesmente não sei. Você gosta de errar? Você gosta? Você insiste em errar? – perguntou.
Ele balançou a cabeça e nada disse.
- Vai, seu merda. Responde – ela insistiu – Você faz de propósito? Erra sempre e erra tanto, mas tanto assim de propósito? Para chamar a atenção? Para ser o bebê da mamãe? – provocou.
Ele nada disse. Apenas tomou mais um gole e acendeu um cigarro.
- Cigarros não vão te ajudar, seu babaca. Não vão. Definitivamente. Nem esta porra de vodka. Seu imbecil de merda – gritou, chamando a atenção do garçom do Clube Varsóvia e das mesas ao lado. – Pára de se fazer de vítima. Otário. Imbecil – esbravejou.
Ele começou a chorar. Pobre idiota.
Ela perdeu a paciência. Totalmente. Totalmente mesmo. Recolheu o seu celular e o que mais era dela em cima da mesa. Pegou a sua bolsa e vociferou com raiva – Vai à puta que o pariu. Quem tem pena de si mesmo é o PIOR dos otários para mim. Some da minha vida seu inútil. Imbecil.
E ele ficou lá, otário que sempre foi e sempre, mas SEMPRE será apenas vendo aquela bela menina de olhos azuis e cabelos vermelhos desaparecendo completamente da sua vida para sempre, no meio da pequena multidão do Clube Varsóvia.
Ele nada fez. Nada. Como sempre.
Apenas acendeu mais um cigarro.
Como sempre na sua vida.
Como sempre na sua vida...
Pobre imbecil. Pobre e muito imbecil.

“...
Eu não reconheço mais, olhando as fotos do passado
O habitante do meu corpo
Este estranho dublê de retratos...
...
Foi tanta força que eu fiz por nada
...”



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