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OS PEQUENOS MILAGRES DE SÃO JORGE. PEQUENOS?




- Lembra? - ela perguntou, com um sorriso feliz.
- Do que, exatamente? Ando bebendo tanto que minha memória dissolveu de vez - ele retrucou, divertido.
- De quando nos conhecemos? Lembra?
Ele sorriu por um tempão e ficou olhando para aquela garota linda, ao seu lado. Simplesmente a sua melhor amiga.A pessoa com quem ele mais se importava.
- Lembra ou não, porra? - ela perguntou ríspida, exibindo a total falta de paciência. Típica.
- Claro que lembro - ele respondeu - Claro que lembro. Clube Varsóvia e o Edu nos apresentou.
- Sei.
- Claro que sabe, você queria dar para ele.
- Tonto.
- Queria sim.
- Imbecil.
- Deixa isso para lá. O que você quer saber exatamente, tirando o porra do Edu? - ele perguntou, curioso com a pergunta.
- Estávamos no Varsóvia e você me disse algo que achei tão curioso para o lugar, para o momento, para tudo o que acontecia naquela hora.
- O quê? - ele perguntou - O que eu disse de tão formidável e extraordinário assim?
- Falávamos sobre alguma coisa do meu "trampo", alguma reclamação minha usual e você, lívido e cara de pau com uma desconhecida, simplesmente disse que a culpa era toda minha. Exclusivamente minha. Isso sem nem me conhecer.
- Sempre é - ele sorriu contente, lembrando exatamente de cada momento e de cada detalhe daquela cena. Podia jurar ainda sentir, mesmo depois de tanto tempo, o perfume doce dela lutando contra a fumaça ostensiva e predominante do Varsóvia.
- Você disse - ela prosseguiu - "Culpa sua. Devia fazer como eu e acender uma vela para São Jorge todas as manhãs. Uma pequena vela azul. Aroma de alcaçuz. Eu faço isso todos os dias, de verdade, e me sinto aliviado e protegido. Pequeno ritual particular. Pequeno e sagrado ritual particular. Veneno anti-reclamações".
- Lembro que fiquei espantada e perguntei a razão de São Jorge. Você foi simples e direto, cantarolando uma canção - "Para que meus inimigos tenham mãos e não me toquem, para que meus inimigos tenham olhos e não me vejam, para que meus inimigos tenham pés e não me alcancem..." Ela prosseguiu - Eu confesso que achei você meio estranho e acreditei que todo este papo era apenas o resultado das cavalares doses de Jack Daniels e Coca que você ingeriu aquela noite. Não dei muita atenção, na verdade.
- E...? - ele perguntou, achando estranho o rumo que a conversa havia tomado e aquela lembrança tão antiga sobre santos e rituais e proteção em pleno Clube Varsóvia.
- Então. Não dei atenção, mas fiquei encanada. Nunca te disse nada, mas resolvi experimentar e faço o mesmo desde aquele dia.
- Faz o quê? Bebe Jack Daniels com Coca? - ele perguntou, brincando.
- Não, otário. Eu acendo uma velinha no altar ao lado da minha geladeira, saca?
- Sei - ele respondeu.
- Acendo uma velinha azul ou rosa, de aroma gostoso, e peço proteção e benção e que chegue bem ao final do dia. O meu ritual particular. Ritual de lo habitual.
- Por que nunca me disse, isso? - ele perguntou, surpreso e feliz.
- Porque guardo estas coisas comigo. Bons exemplos eu os guardo, os maus, exteriorizo - sorriu.
- Bem, mas está funcionando? - ele perguntou.
- Chegamos ao ponto que eu queria comentar - ela disse e continuou - Há alguns dias, eu fui tomar uma das famosas pílulas de sorriso que você tanto odeia.
- Ah não - ele retrucou bravo. Odiava aqueles anti-depressivos que ela insistia em tomar.
- Não, espera, espera - ela disse - Fui tomar uma das famosas cápsulas de risadas e sabe o que aconteceu?
- O quê? Que porra aconteceu que te fez lembrar tudo isso.
- Assim que coloquei o remédio na boca, olhei para o meu santo guerreiro no altarzinho. Lembrei de você naquela exata noite, me dizendo que tudo era sempre e simplesmente culpa minha. Sempre.
- E...? - ele perguntou, ansioso pela resposta.
- Ao mesmo tempo que eu pensava tudo isso, começou a tocar no mp3 a nossa canção, como mágica.
- A nossa canção?
- Isso. Aquela.
- Caralho.
- Também fiquei impressionada.
- É, eu também ficaria. Todos os pensamentos ao mesmo tempo. Tudo ao mesmo tempo. Canções surgindo do nada. Pô.
- Então joguei fora a porra das cápsulas. Tudo. Absolutamente tudo.
Ele abriu um sorriso lindo. Delicioso e lindo.
Ela continuou - Joguei tudo fora. E não tomo mais as porras das pílulas desde aquele dia. Mais de mês, já. Graças a você.
- Graças a São Jorge - ele corrigiu.
- Graças a amizade.

E eles se abraçaram como somente duas crianças felizes podem abraçar. Um dando conforto ao outro. Um confiando no outro.

E, diante de tal cena, quem será capaz de dizer que milagres não existem? Quem?

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