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DEPRESSA, DEPRESSA

Ela estava tão entretida, pedalando a sua bicicleta amarela, e também, distraída e distante e longe com os seus pensamentos e com os seus delírios habituais, que sequer teve como perceber o céu se tornar repleto de nuvens. Nuvens pesadas, de cor grafite, cinzas, distorcidas, lentas e prontas para desabar. Prontas para derramar toda a dor dos anjos.

Ela estava tão entretida na sua própria tristeza.

Quando as primeiras gotas começaram a cair sobre os seus longos cabelos ruivos, só então ela percebeu a tempestade.

Inútil, pois já estava completamente ensopada, ela procurou um abrigo. A cidade estava deserta, como em uma espécie de delírio psicotrópico e, portanto, não foi difícil se ajeitar sob uma velha cabine telefônica, no melhor estilo Audrey Hepburn.

Ela sorriu da própria ironia. Parada em frente a um telefone, sem ter para onde ir, sem ter para quem ligar. Pensou nele com muita tristeza. Sabia o número de cor. Sabia o maldito número de cor e salteado. Olhou para o céu negro como a noite e sentiu as gotas enormes da chuva desabarem em seus olhos pretos e lindos “agora não são mais lágrimas, é apenas chuva” – pensou, confusa no seu próprio medo.

Decidiu que não faria a ligação. De maneira alguma. Ele não teria mais a sua submissão. “amar e perdoar tanto assim é ser submissa?” – ela pensou, inquieta.

Subiu em sua bicicleta rapidamente e decidiu sair daquela cabine telefônica o mais depressa possível. Não queria pensar e nem tomar mais decisões na sua vida e tampouco chorar por quem não a queria (não?).

Correu o mais depressa que pôde com a sua bicicleta, enquanto chorava como nunca jamais chorou.

Por mais depressa que fosse, ela não conseguia ser mais rápida do que a tempestade.

E algum maldito consegue ser?


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