Pular para o conteúdo principal


PRIMEIRO NAMORADO

Eles estavam no quarto dela, felizes. Ele adorava estar no quarto dela. Na verdade, ele gostava muito mais de estar com ela, propriamente dita, do que estar em seu quarto, mas, enfim, a verdade é que estar juntos, de qualquer forma e em qualquer lugar, tornava-se motivo de felicidade, rara felicidade para ele. E, naquela tarde chuvosa e extremamente fria, eles estavam mais uma vez no seu recanto predileto. O quarto dela.

- Já ouviu esse disco? – ela perguntou, animada
- Que tipo de música é? – ele disse, enquanto tirava das mãos dela o álbum
Ela sorriu, tímida e disse – Romântica. Você não gosta? – perguntou com um sorriso.
- Você sabe que eu adoro qualquer música ao seu lado – ele mentiu, alegre.
- Deixa disso. Eu sei que você curte outro tipo de som, mas relaxa babe, isso pouco importa.
- Tem razão. O que importa somos nós, não?
Ela olhou para ele, nervosa, e disse – Como assim?
Ele respirou fundo e emendou – Adoro estar aqui, adoro estar com você, adoro isso tudo. Adoro você. Simples assim. Por que não ficarmos juntos, então?
Ela o fitou com um brilho diferente nos olhos e cantarolou - ... se você quer ser minha namorada, ai que linda namorada...
- Como? – ele perguntou, um tanto assustado, um tanto excitado.
- Nada, vem cá me dar um puta beijo, meu namorado, meu primeiro namorado...

ÚLTIMO...APENAS O ÚLTIMO...

Eles estavam no quarto dela, quase chorando. Deus, como ele já adorou estar no quarto dela. Na verdade, ele já gostou muito mais de estar com ela. A verdade é que estar juntos, de qualquer forma e em qualquer lugar, tornava-se motivo de angústia, muita angústia e desespero para eles. E, naquela tarde chuvosa e extremamente fria, eles estavam mais uma vez naquele antigo recanto. No quarto dela.

- Já ouviu esse disco? – ela perguntou, triste.
- Que tipo de música é? – ele disse, enquanto tirava das mãos dela o álbum.
Ela desviou os olhos e disse, amarga – Baladas tristes, apenas isso. Você costumava gostar.
- Você sabe que eu deixei de gostar de muita coisa nos últimos tempos. Em especial coisas tristes – ele retrucou, sem mentir.
- Agora isso pouco importa, você não acha?
- Tem razão. O que importa somos nós, não?
Ela olhou para ele, irritada, e disse – Tem razão. Vou me lembrar disso. Vou me lembrar.
Ele respirou fundo e emendou – Vou indo então. Creio que tudo o que havia a ser dito já foi, não acha?
Ela o fitou com um brilho indiferente nos olhos e nada respondeu, permanecendo apenas em silêncio.
- Já houve canções mais bonitas do que esse silêncio, não? – ele perguntou, um tanto cansado, na verdade, extremamente cansado.
- Com certeza. De todas as coisas que foram ditas nessa porra de quarto, talvez essa seja a mais verdadeira, a mais verdadeira...




Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

NÃO SÃO TEMPOS COMO QUAISQUER OUTROS

OUÇA:  spang sisters || king prawn the 1st Ela jogou o livro de lado irritada, ajeitou os cabelos tortos pela cama e levantou-se. Aflita. Ela estava aflita e sem paciência. Nenhuma paciência. Andou de um lado ao outro do quarto procurando algo para pensar, algo para tocar, algo para lembrar, algo para fazer. Não pensou em nada ou, infelizmente, pensou sim tão logo percebeu o baú cor de palha encostado junto a parede. Lembrou das dezenas de fotos e bilhetes e bobagens que estavam ali guardadas. Pensou em abri-lo e considerou que esta seria uma boa ideia. Aproximou-se do baú e percebeu o que estava prestes a fazer. Parou brusca e riu da própria tolice em achar que as velhas lembranças podiam ajudar, ainda que em desespero. Não, nada que lembrasse aquela pessoa poderia ser bom naquele momento - considerou. Culpou o tédio pela burrice. Voltou a si. Sorriu e agradeceu a sei lá quem por ter voltado ao seu juízo normal a tempo. Saiu do quarto. Foi em direção a

O RIDÍCULO CANSAÇO EM UM BALCÃO DE BAR.

Chovia. Muito. Madrugada alta. Chovia para caralho e eles estavam lá. Tolos, sentados, entediados, apenas bebendo e esperando a chuva passar. Amigos. Muito amigos. Cúmplices. Muito mais que isso. - Cansado? – ela perguntou suave e gentil, sabendo da exaustão dele. Exaustão física e psicológica. Exaustão. Física e psicológica. Apenas exaustão. Muita. Muita exaustão. Ele apenas consentiu com cabeça enquanto tomava mais um gole da sua vodka e tragava seu cigarro mentolado. Ficou em silêncio. Ela sabia o que ele queria dizer. O que queria responder. - Você não está bem, certo? – ela insistiu, afirmando e concordando. Sabia que era isso. Tinha certeza do que falava. Conhecia ele há "séculos". - Sim. Muito cansado. Saco cheio. – ele respondeu sem energia - De saco cheio e muito, mas muito cansado mesmo. De tudo – ele emendou. Ela ficou com a expressão triste. Nada disse. O silêncio é fundamental em certos mo

A SAÍDA É LOGO ALI

OUÇA: casino || ponte Ela pensou que seria possível esquecer os seus problemas. Todos os seus problemas. Todos. Ela realmente acreditou e pensou que seria fácil. Simples como tomar um destilado forte, bebericar um café sem açúcar ou descolar uma anfetamina qualquer. Acreditou que pudesse esquecer tudo e, para tanto, apenas alguns trocados no bolso e um carro bastaria. Um carro que a levasse para longe dali e pudesse fazê-la seguir em frente e rasgar todas as estradas possíveis, todos os caminhos reais ou mesmo imaginários. E assim ela fez. Em uma sexta-feira úmida e cinza - como os seus olhos aliás - ela acordou bem cedo. Era madrugada, quase manhã. Encheu a sua mochila gasta de tantas viagens com uma porção de maços de cigarro, alguns pendrives com as suas músicas prediletas, livros de poesia barata e, claro, fotos antigas. Fotos suas e de seus amigos. Fotos que ela adoraria ver, caso sentisse saudade. Ela detestava ver fotos digitais e aquele conjunto de fotos impressas era um tesour

TO THE END

- O que vc quer de mim? – ela perguntou, aos gritos – Que porra você quer de mim?. Ele olhou para o chão, triste. Não queria responder, não sabia responder. Preferiu o silêncio. - Vai responder, seu filho da puta? Vai? – ela gritou, enquanto dava socos no peito dele. Socos não fortes, porém socos repletos de raiva, desespero e dor. Ele ficou em silêncio. Ficou em total e absoluto silêncio, sem ter nada a dizer. Ela ter visto aquele beijo já era o suficiente. - Seu idiota. Seu completo e estúpido idiota. Sai daqui. Agora! – ela gritou. E ele saiu do pequeno apartamento e foi embora, descendo as curtas escadas daquele prédio tão antigo. E enquanto descia, podia ouvir, com desespero, o choro e a dor daquela garota tão especial, outrora o grande amor da sua vida. E caiu em choro e lamento. Pobre diabo...

Olhos Verdes

leia e ouça: ride || polar bear “ ... she knew she could fly like a bird  but when she said ‘please raise the roof higher' nobody heard they never noticed a word the light bulbs burn,  her fingers will learn … ” E, do fundo do armário, como mágica, aquele pedaço de papel surgiu no meio de meias ímpares e roupas amassadas. Simplesmente surgiu. E, ela, surpresa e de primeira, conseguiu conter as lágrimas ao segurar aquele pequeno pedaço de papel verde água em suas mãos pequenas e delicadas.  Frágeis. Suadas.  Geladas.  Aflitas. Nervosas. Tristes. Ela, sim, conteve as lágrimas e lembrou do exato momento em que tocou pela primeira vez aquele pedaço de papel. A tristeza passou por UM segundo e ela sorriu da beleza daquele momento. Esqueceu o tremor das mãos e, firme, segurou o papel para seus olhos esmeralda dançarem  e dançarem e dançarem novamente por toda a extensão daquele pedacinho de papel. Correu e correu os olhos pelo desenho de palavras à sua frente. Linda combinação de vogais,