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O AVESSO DO DESEJO

Ela estava quieta apenas observando o mar, cenário tão raro em sua vida.

Suas mãos deslizavam sobre a areia e seus dedos finos, pequenos, brancos como a neve, deixavam rastros confusos e sem sentido naquele lençol de desejo.

Quadro a quadro. Detalhe a detalhe. Romance (feliz ou não). O filme era lindo. Lindo. A cor azul do mar sempre combinou com a cor do céu em estado paranóico. A cor chumbo, cinza, urbana.

Ela não percebia ninguém ao redor. Ninguém. Nem alma, nem sombra, nem morte. Estava tão vazia a praia. Tão vazia.

Assim como meu coração – ela pensou, inquieta e desconfortável. E pensar que ele já esteve tão cheio – continuou - Tão lotado e preenchido de amor e desejo e paixão e descontrole e passividade e agressividade e carinho e fúria e masoquismo e horror.

E hoje? Bem, hoje não.

E seus dedos finos e pequenos e brancos como a neve que ela jamais viu ou tocou, continuavam a deixar rastros sobre a areia. Porém, não mais sentido, não mais sem função. Seus rastros eram como um desenho. O corpo de um menino lindo. Um menino incrível. Um menino adorável. Um menino distante. Um menino familiar. Um menino que não (mais) a amava.

Um menino cruel. Muito cruel.

Ela imaginou a razão daquilo tudo.

Não conseguiu qualquer resposta.

O amor ainda era maior do que qualquer outro sentimento, exceto o desejo.

O desejo de sorrir, o desejo de viver, o desejo de amar, o desejo de esquecer, o desejo de lembrar, o desejo de trepar, o desejo de beijar, o desejo de sofrer, o desejo de ver o mar, o desejo de se embriagar, o desejo de navegar, o desejo de voar, o desejo de ser ativa, o desejo de ser passiva, o desejo de ser gentil, o desejo de ser agressiva, o desejo de estar, pelo resto da vida, com ele ao seu lado.

cada desejo tem seu avesso. questão de tempo até a menina descobrir. questão de tempo...


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