Ele tinha medo dela. Muito medo. Na verdade, ele tinha medo,
porém não medo dela propriamente dita. Ele tinha medo dele mesmo. Medo de fazer
as mesmas besteiras que fez no passado, medo de cometer os mesmos erros que
cometeu no passado, medo de ela perceber o quão babaca ele era, medo de ela
realmente perceber o que ele era. Um idiota. Um verdadeiro idiota e um estúpido
sem autoestima. Um bobo inseguro. Ele tinha medo dela percebê-lo. Medo de falar
com ela. Medo de ela perceber, no seu tom de voz, a sua insegurança. Medo de
ela perceber, no seu tom de voz, sua falta de coragem. Ele tinha medo de falar
com ela. Deus, ele era mais velho. Como uma menina, tâo mais jovem, tão menos
vivida, porém não menos experiente, podia desorientá-lo assim? Ele não sabia.
Apenas ficava ainda mais inseguro. Sentia apenas medo. Muito medo. E o suor
frio, sempre, escorria da sua testa durante as madrugadas quentes de verão. Imbecil insone. Imbecil ínsone...
Alta madrugada. Chovia demais. Muito mesmo e ele, bem, ele estava em um bar qualquer no centro velho da cidade. Sozinho para variar. Sozinho naquela alta madrugada. Sozinho, como sempre. Sozinho como nos últimos dias, nos últimos tempos, nas últimas noites. E chovia muito lá fora e ele apenas deixava o tempo passar observando a xícara lascada à sua frente com um café vagabundo, morno e rarefeito que ele conseguia engolir apenas pelo vício inexplicável em cafeína. Cafeína e cigarros. Sem mais álcool ou qualquer outra forma diferente de fugir. Apenas cafeína e cigarros. Foi o que restou. E ele estava em um bar qualquer no centro da cidade. Insônia pesada e ele, tolo, apenas AINDA insistia em pensar no que fazer, para onde ir, como conseguir consertar as coisas que quebrou ao longo do tempo. Bobagens cotidianas que não pagam as contas (muitas, aliás) e não resolvem porcaria nenhuma na vida de um sujeito normal. Sérias bobagens cotidianas. Falar em sair do buraco é fácil. Difícil é realm...
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