Ele tinha medo dela. Muito medo. Na verdade, ele tinha medo,
porém não medo dela propriamente dita. Ele tinha medo dele mesmo. Medo de fazer
as mesmas besteiras que fez no passado, medo de cometer os mesmos erros que
cometeu no passado, medo de ela perceber o quão babaca ele era, medo de ela
realmente perceber o que ele era. Um idiota. Um verdadeiro idiota e um estúpido
sem autoestima. Um bobo inseguro. Ele tinha medo dela percebê-lo. Medo de falar
com ela. Medo de ela perceber, no seu tom de voz, a sua insegurança. Medo de
ela perceber, no seu tom de voz, sua falta de coragem. Ele tinha medo de falar
com ela. Deus, ele era mais velho. Como uma menina, tâo mais jovem, tão menos
vivida, porém não menos experiente, podia desorientá-lo assim? Ele não sabia.
Apenas ficava ainda mais inseguro. Sentia apenas medo. Muito medo. E o suor
frio, sempre, escorria da sua testa durante as madrugadas quentes de verão. Imbecil insone. Imbecil ínsone...
E ela voltou a tocar piano. Depois de anos e anos e anos. Linda, divina e soberana. Uma diva. Depois de muitos e muitos anos parada. Depois de muitos e muitos anos sem praticar. Sem estudar. Sem treinar. Sem ouvir. Sem nada. Tocava como... apenas ela. Nem das batidinhas na mão, quando errava, com um bastão de madeira da sua antiga e adorada professora ela lembrava. Nem disso. Nem disso. Nem dessas malditas e deliciosamente adoráveis lembranças em sua mente. Ela não lembrava. Apenas queria tocar. Apenas queria tocar. E sempre e sempre e sempre. Um eterno looping de amor e satisfação. E muita. Muita satisfação. E todas as teclas estavam lá. Todas. Todas as teclas. Pretas, brancas, de qualquer cor. Isso era o que menos importava. Pouco Importava. Ela apenas queria tocar. Tocar e tocar e tocar. E um dia, após a aula, ela tocou. Sozinha. E tocou e tocou e tocou. Todas a...
Comentários