Pular para o conteúdo principal

FESTA


- Posso te dizer uma coisa? – ele perguntou, cheio de charme vagabundo, barato, meio bêbado, todo chato.

- Sim – ela respondeu meio seca, toda dura, sem querer aproximação com ele. Não era o tipo de homem que ela queria. Nem de longe. Nem de longe, mesmo.

- Seus brincos são verdes e combinam com os seus olhos castanhos. Adorei a mistura – ele disse.

- Sério? – ela respondeu sem saco, sem a menor paciência – Tem um motivo para isso – completou.

- Não acredito – ele disse – Não acredito mesmo. Eu sabia que isso ainda iria acontecer comigo. Coisa de destino.

- Como? – ela perguntou sem entender porra nenhuma.

- Destino, química, paixão, atração. Estas coisas. Adoro brincos verdes e olhos castanhos. Você se produziu, sem saber, para mim. A vida é assim. Inexplicável. Destino. Noites de sábado.

Ela olhou para ele com desdém e respondeu seca e direta – Olha, não quero ser grossa então é melhor deixar para lá. Me esquece.

- Como? Você é linda. Adorei a produção. Toda para mim.

- Querido – ela respondeu, com um tom severo – Não é para você.

- Como? – ele insistiu.

- Esta “produção”, como você diz, é para outro alguém. Para outro alguém. Não para babacas otários e bêbados. Quer que eu desenhe ou você entendeu?

Ele a olhou com um misto de raiva e indignação – Sério? Então cadê ele? Se fosse tão importante estaria aqui. Você não estaria sozinha.

Ela riu e deu uma bela tragada no seu Marlboro. Depois, de forma direta disse – Ele está aqui seu imbecil. Dentro do meu coração. Apenas dentro do meu coração. Preciso desenhar ou apenas te dar um murro?
E a noite de sábado continuou. Feliz para uns. Triste para outros. Coisas de sábados á noite. Sorte de quem está longe. Sorte de quem está longe e confia...

Comentários

Anônimo disse…
Ai, esse é uma graça. Uma graça, simplesmente.=)

Postagens mais visitadas deste blog

O QUE VEM DEPOIS DO RELÂMPAGO?

OUÇA: alexander biggs || low Assim, de repente, ela lembrou. ... Ela lembrou que choveu muito naquela tarde. Muito mesmo. Mais do que em qualquer outro dia da sua vida que não aquele. Cruel. Ela lembrou que o tempo estava bom até então, mas o céu, caprichoso, optou pela rebelião. O céu, assim de repente, tornou-se cinza. Absurdamente cinza. Cinza chumbo, quase noite. E choveu muito, mas muito mesmo naquela tarde. Como jamais ela pensou que poderia chover naquela época do ano ou em qualquer outra época, na verdade. Maldade. Ela recordou que estava no Parque Central, quieta, apenas pensando nas verdades que havia ouvido horas antes e arquitetando uma fuga mirabolante do viciado e repetitivo labirinto caótico em que a sua vida tinha se transformado. Lembrou-se, também, que não tinha feito tanto sol e nem tampouco estava abafado e, portanto, não havia razão para tantas nuvens no céu capazes de provocar aquela tempestade gigantesca que se formou. Não mesmo. Ironia. Mas, ainda assim, tudo ac

TIJOLOS APARENTES

OUÇA:  kate bollinger || candy - Então? – ela perguntou com um olhar indisfarçável de carinho e cuidado, antes de abrir a porta para ele sair. Ele sorriu, meneou a cabeça e não soube responder de primeira. - Então? – ela insistiu e continuou – Não vai me dizer nada? Nada? Ele levantou a cabeça e a olhou com a maior ternura do mundo e respondeu – Eu adorei. Simplesmente adorei. Ela não escondeu um sorriso genuíno e disse – Fico contente. Você nem imagina o quanto. Nem imagina. - Imagino sim. Imagino sim. - Do que mais gostou? – ela prosseguiu em sua suave inquisição. Doce inquisição. - Do que mais gostei? – ele repetiu. Ela assentiu com a cabeça e disse – Sim. Não vou deixá-lo ir embora sem me responder. Não posso. Você ficou aqui a tarde toda comigo e eu apenas adoraria saber. Ele a olhou com carinho e ternura. Disse, divertido – Do que mais gostei? Bem, além de você servir um adorável capuccino ? Ela sorriu e emendou – Deixa de ser bobo. Não foi capuccino nenhum. Fale. Eu sinto no se
DISCOS DE VINIL NÃO SALVAM VIDAS? - Discos de vinil não salvam vidas - Bia sentenciou, profana e canalha Nanda abriu os olhos em choque - Não? Como não? - Não, porra. Definitivamente, discos de vinil ou fitas cassete ou ipods ou seja lá o diabo, não salvam vidas. Não. - Você enlouqueceu? - disse Nanda. Bia sorriu um sorriso sinistro, triste, inadequado à felicidade. Adequado ao seu momento. - Claro que salvam. Se você não desistir de se matar ao ouvir Marvin Gaye e Tammi Terrell juntos e cantando apaixonadamente, então não sei o que mais pode te ajudar. - Nhá. Isso é para você, ingênua e esperançosa. - Se eu me fodesse, não me afogaria em etanol barato. Me afogaria em lágrimas ao som de um bom soul dos 60s. Estaria salva. - Que patético. - Você precisa de um choque de realidade. Um choque de vida. Você precisa de cores. = Vai começar. Já te disse para parar - pediu Bia. - Parar nada. Você precisa mesmo. De vida, porra. - Pára de encher. Você está me irritando - disse Bia. - Eu precis