Pular para o conteúdo principal

VINIL


- O que é isso? – ela perguntou, enquanto desembrulhava o presente que ele havia lhe dado.

- Nunca viu? – ele perguntou incrédulo diante daquela garota linda – Você é o quê? Uma extraterrestre? Parece que mora em cidade pequena – sorriu – Uma ribeirinha – brincou.

Ela gargalhou ao perceber do que se tratava.

- Então? - ele disse – Gostou?

Ela abriu seus lábios vermelhos e deu um sorriso delicioso. Um sorriso lindo. De jasmim. Adorou. Adorou o presente. Típico dele - pensou.

- Então...? – ele insistiu.

- Adorei seu otário. Claro que adorei. E, ainda por cima, você acertou em cheio a banda. Amo Miles Davis e NÃO tinha este álbum em vinil. Só em um cd velho e pirata.

Ele sorriu pretensioso e disse – Claro que acertei. Conheço tudo sobre você. Não percebeu ainda? – provocou de uma forma sacana – tenho uns contatos íntimos com as entidades do além e elas me ajudam a te decifrar. Coisas de zodíaco, carmas, estas coisas. Coisas que você não entende – trolou.

- Imbecil – ela disse, antes de dar um beijo cinematográfico nos lábios dele. Dois apaixonados.

Dois apaixonados.

- Acho que você vai ter que dormir aqui comigo – ela disse com provocação.

- Posso saber a razão? – ele perguntou – Não quero te incomodar. Reservei um hotel barato aqui no Centro para te deixar mais á vontade. Para não te encher.

- Hotel? – ela perguntou.

Ele olhou com surpresa e timidez – É. Um hotel. Não sabia se me queria aqui. Simplesmente não sabia.

- Você está vendo a tempestade que está caindo lá fora? – ela perguntou brava, fingida, sedutora.

Ele deu de ombros e disse terno e suave – É. Está chovendo mesmo. E muito. Acho que o céu vai desabar. Mas não sabia se deveria dormir aqui. Não sabia se você queria. Por isto o hotel.

- Seu burro – ela disparou, abraçando seu pescoço e beijando os seus lábios gordos – Precisamos ouvir este álbum – ela disse com um sorriso e completou - Juntos. Bem juntos mesmo.

Ele sorriu como uma criança tímida. 

Ela sorriu como uma garota esperta.

A noite? Bem, a noite não terminou em hotel qualquer do Centro da cidade. A noite terminou ao som de Miles Davis, gemidos, sussurros, beijos, trovões e muita, mas muita coisa em comum... 






Comentários

Lorene. disse…
Lindo como um dia ensolarado de primavera. Lindíssimo, de arrancar lágrimas...

Postagens mais visitadas deste blog

FRIOS COMO O MAR

Frios. Apenas frios. Frios e distantes. Distantes e azuis. Muito. Muito azuis. Olhos azuis, longos e lindos. Mas frios. Frios como o mar. Lacônicos. Como o mar. Como o mar. E naquela mesa do Clube Varsóvia ele apenas percebia isto. Entre uma tragada e outra. Apenas os lindos olhos azuis e frios. Dando adeus. Apenas dando adeus. Apenas adeus. Frios. Olhos azuis, longos e lindos. Frios. Frios como o mar. Como o mar. Olhos azuis, longos e lindos. Mas frios. Frios como o mar. Um adeus. Apenas isso. Um adeus. Deve ser amor. E dor. Muita dor. Muita dor e muito adeus. Muito adeus...

MEDO? MUITO!

Sinto um breve sopro de medo e desespero a me corroer o peito. Um breve, porém profundo, sopro de medo e desespero. Medo. Medo de encarar a minha própria vida e todas as bobagens que dela fiz. Medo de encarar o espelho, de frente, e perceber que do alto de todos os meus anos vividos, não fui capaz de manter a verdade como a linha mestra dela. Como a guia. Como o farol a iluminar cada passo dado no escuro. Sinto um breve sopro de desespero a me corroer o peito. Aquele desespero que muito embora desperta uma vontade absurda de correr sem parar para qualquer lado, mas que, na verdade, te deixa apenas imobilizado, estático, congelado, sentindo o suor frio escorrer pela testa. Sinto medo e desespero com a mesma frequência com que respiro. Uso e abuso do álcool das drogas, do cigarro, da mentira. Subterfúgios e desculpas. Não consigo encarar os que amo. Sinto como se minha vida fosse uma fraude bem arquitetada pelo destino. Uma fraude bem arquitetada pelo tamanho, porém uma fraude grosseira...
CAMILA´s KISSES boomp3.com O Clube Varsóvia! Lá estava ela, uma vez mais, entrando no Clube Varsóvia. Depois de todos estes anos. Depois de tanto tempo. E para sua surpresa, as cores, as luzes, as pessoas, a fumaça, os bartenders, a pista, as cadeiras, o globo colorido, os cinzeiros setentistas, o veludo das paredes, enfim, tudo, mas todo o cenário dos seus loucos anos estava exatamente como sempre foi. Como sempre esteve. Tudo no seu devido lugar. Tudo suspenso no tempo, no espaço, na vida. Mas não exatamente. Óbvio. Óbvio que não. Sempre é assim. As coisas mudam. Tudo o que demora demais para ser revisitado, para ser relembrado, para ser retomado, muda. E muda mesmo. Para valer. De modo implacável, cruel e até mesmo rude. Carrinho por trás com o jogador fora de jogo. Fratura exposta e corte na carne alheia. No player, no game. No entanto, o curioso, no caso dela, é que o Clube Varsóvia estava REALMENTE igual. Exatamente como sempre foi. Exatamente igual. O que mudou, meus caros, o qu...

BABIES

"Estou deixando a minha vida passar. Isto é grave. Bastante grave. Está passando rapidamente e tudo o que eu queria era poder ter paz. Não beber, não fumar, não fazer merda, enfim, deitar a cabeça no travesseiro de forma tranqüila e calma, e dormir o sono dos bons, o sono dos justos, o sono dos normais. Muito ao contrário, tudo em que me meto remete ao caos, ao desespero, aos problemas. Falta de bom senso, falta de critério, falta de razão, Falta de juízo, como costuma dizer os sábios mais velhos. Ok, ok, juízo também não é tudo na vida. Viver sem um pouquinho de imaturidade ou de risco não é exatamente viver. Mas a vida deve ser vivida de forma alegre e divertida e não necessariamente como um fio de nylon, no qual você tem que caminhar por quilômetros, tendo um abismo colossal abaixo. Não, a vida pode ser mais leve, como um copo de suco gelado, irrepreensível diante de tardes de calor insanas. A vida merece mais, não menos. A vida merece muito, não pouco. Cansei de errar e chora...

A VOLTA

É difícil voltar. Difícil mesmo. É difícil voltar a escrever como antes. Muito difícil. Eu costumava escrever demais. Escrevia muito, muito, muito. Cheguei a postar contos quase diariamente durante algum período. Sim, durante algum período consegui esta façanha. E adorava fazer isto. Talvez a coisa mais importante da minha vida. A coisa mais realizadora. O ato mais feroz e feliz. Acontece que as coisas mudam, nós envelhecemos, e a vida passa a ser cada dia mais selvagem e cruel, absolutamente cruel. Pensei e pensei e pensei e cheguei a conclusão de que devia me afastar de tudo. Me afastar dos meus escritos, dos meus contos, do Clube Varsóvia, enfim. Nunca consegui deletar todo este blog, embora tenha tido vontade inúmeras vezes, desde que parei de escrever. Pensei, pensei e pensei muito de novo e cheguei a conclusão de que sou forte. Desatei alguns nós importantes e difíceis e voltei a ser leve e solto. Voltei a ser feliz com pequenos prazeres. Decidi voltar. E mais forte e melhor. ...