Pular para o conteúdo principal
SOCOS E CINZEIROS SUJOS

A crueldade nunca lhe caiu bem. Quero dizer, a crueldade nunca lhe caiu bem, porque, na verdade, a crueldade não fazia parte dela. De modo algum. Porra, ela sempre foi uma pessoa incrível, uma ótima amiga, uma filha gentil, uma ouvinte atenciosa, uma namorada carinhosa, enfim, uma pessoa adorável. Sem vícios, sem defeitos, sem maldade. A crueldade nunca lhe caiu bem, com certeza, mas ela estava de saco cheio disso.

No fundo - ela me disse aquela noite – estou de saco cheio de ser vista como uma pessoa educada, sensível, gentil, o caralho. Quero que me vejam como sou, com meus defeitos, com meus erros, com meus problemas. Quero que saibam que eu fumo, que eu já tomei drogas, que eu bebo tequila de uma forma descompensada, que eu quero fazer uma tatuagem, que eu gosto de rock barulhento, cheio de guitarras e ruídos, que eu faço sexo constantemente, enfim, que eu sou apenas uma pessoa. Quero ser eu mesma. Apenas isso. Estou de saco cheio de ser boa e de as pessoas terem uma expectativa, sempre vulgar e tola e fútil, a meu respeito. Estou de saco cheio disso. E você, querido – disse irônica – definitivamente não faz parte disso. Do que eu quero. De tudo o que eu quero para mim.

A crueldade nunca lhe caiu bem. E, ao contrário, tomar socos na cara sempre foi a minha especialidade. Entre lágrimas, vodka e cinzeiros sujos.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

CAMILA´s KISSES boomp3.com O Clube Varsóvia! Lá estava ela, uma vez mais, entrando no Clube Varsóvia. Depois de todos estes anos. Depois de tanto tempo. E para sua surpresa, as cores, as luzes, as pessoas, a fumaça, os bartenders, a pista, as cadeiras, o globo colorido, os cinzeiros setentistas, o veludo das paredes, enfim, tudo, mas todo o cenário dos seus loucos anos estava exatamente como sempre foi. Como sempre esteve. Tudo no seu devido lugar. Tudo suspenso no tempo, no espaço, na vida. Mas não exatamente. Óbvio. Óbvio que não. Sempre é assim. As coisas mudam. Tudo o que demora demais para ser revisitado, para ser relembrado, para ser retomado, muda. E muda mesmo. Para valer. De modo implacável, cruel e até mesmo rude. Carrinho por trás com o jogador fora de jogo. Fratura exposta e corte na carne alheia. No player, no game. No entanto, o curioso, no caso dela, é que o Clube Varsóvia estava REALMENTE igual. Exatamente como sempre foi. Exatamente igual. O que mudou, meus caros, o qu...

MEDO? MUITO!

Sinto um breve sopro de medo e desespero a me corroer o peito. Um breve, porém profundo, sopro de medo e desespero. Medo. Medo de encarar a minha própria vida e todas as bobagens que dela fiz. Medo de encarar o espelho, de frente, e perceber que do alto de todos os meus anos vividos, não fui capaz de manter a verdade como a linha mestra dela. Como a guia. Como o farol a iluminar cada passo dado no escuro. Sinto um breve sopro de desespero a me corroer o peito. Aquele desespero que muito embora desperta uma vontade absurda de correr sem parar para qualquer lado, mas que, na verdade, te deixa apenas imobilizado, estático, congelado, sentindo o suor frio escorrer pela testa. Sinto medo e desespero com a mesma frequência com que respiro. Uso e abuso do álcool das drogas, do cigarro, da mentira. Subterfúgios e desculpas. Não consigo encarar os que amo. Sinto como se minha vida fosse uma fraude bem arquitetada pelo destino. Uma fraude bem arquitetada pelo tamanho, porém uma fraude grosseira...

QUANTOS ACORDES TEM UMA BALADA?

OUÇA:  fazerdaze || little uneasy - Você está tenso, né? – ela perguntou enquanto olhava para ele, todo encolhido no canto da sala, mexendo e brincando com o copo americano vazio nas suas mãos. Ele parou o que estava fazendo e a olhou com certa seriedade e balbuciou – Tenso? – perguntou e prosseguiu agora em alto som – Tenso? Tenso? Claro que não. Não há razão para isso. Ela sorriu e o compreendeu. Ficou em silêncio. Ele apoiou o copo vazio sobre a mesinha de canto ao seu lado e se levantou. Deu algumas voltas em círculo pela sala, esquecendo completamente o que ela havia dito anteriormente. Completamente longe. Distante demais. Ela apenas o observava em silêncio, quieta e paciente. Apenas esperando ele falar alguma coisa. Apenas esperando. - Então... – ele começou a falar, para na sequência emendar - Ah, esquece – concluiu, sem nada acrescentar. Após alguns segundos ela falou - Não te entendo, sabia? – disse, em tom extremamente doce. Ele parou e a encarou novamente e disse – O qu...

BOM ESCONDER O CHORO DEBAIXO DA CHUVA

Tempos difíceis. Tempos difíceis para caralho. Nada dava certo. Absolutamente nada dava certo para ele. Porra nenhuma. Por todos os caminhos e direções que ele tentou seguir as coisas iam mal e ele quebrou a cara. Tudo muito mal. Muito mal. Tudo errado como se fosse a porra de uma praga, como se ele, ateu, acreditasse nisso. Praga de alguma ex-namorada a quem ele fez muito mal e partiu o coração ou, simplesmente, azar puro mesmo. Puro azar. Contas, contas e mais contas. Brigas, pentelhações, idade, bebibda, vícios, chatice, enfim, tudo na direção contrária. Curioso, não? E ele, ainda assim, tentava acertar. Com uma mira de bêbado, com uma mira de um velho bêbado. Mas, pobre diabo, ele ainda tentava acertar. Sem grana para o aluguel, sem grana para a bebiba, para os cigarros, para a garota do outro Estado que ele curtia, para nada. Mas, imbecil, ele ainda assim tentava acertar. Inútil. Nada dava certo. Nada mesmo. Por todos os caminhos e direções que tentava seguir as coisas iam mal. M...

FRIOS COMO O MAR

Frios. Apenas frios. Frios e distantes. Distantes e azuis. Muito. Muito azuis. Olhos azuis, longos e lindos. Mas frios. Frios como o mar. Lacônicos. Como o mar. Como o mar. E naquela mesa do Clube Varsóvia ele apenas percebia isto. Entre uma tragada e outra. Apenas os lindos olhos azuis e frios. Dando adeus. Apenas dando adeus. Apenas adeus. Frios. Olhos azuis, longos e lindos. Frios. Frios como o mar. Como o mar. Olhos azuis, longos e lindos. Mas frios. Frios como o mar. Um adeus. Apenas isso. Um adeus. Deve ser amor. E dor. Muita dor. Muita dor e muito adeus. Muito adeus...