17.2.20

E O QUE ACONTECE QUANDO A CÂMARA CRIOGÊNICA DEIXA DE FUNCIONAR?



Do nada.
E ela olhou novamente para a tela azul do seu laptop e respirou fundo. Muito fundo e sem acreditar no que viu.
Muito sem acreditar no que viu.
Assustou e quase derrubou o seu copo de vodka estrategicamente posto ao seu lado. Estremeceu brusca os seus joelhos dobrados e quase derrubou o laptop que estava confortavelmente apoiado em suas coxas até então relaxadas.
Até então.
Até então, relaxadas.
Agora? Não mais.
Respirou fundo e buscou com a sua mão esquerda ligeiramente ansiosa o maço de cigarros que estava caído ao seu lado por sobre o gasto tapete cor carmim.
Tateou por instantes e encontrou a bendita caixa, sem sequer olhar.
Com a direita, correu o touchpad para cima e para baixo, lendo e relendo os nomes que pulavam na sua caixa de entrada.
Não acreditava no que acabara de ler.
Não.
Não acreditava.
Um nome.
Apenas um nome.
Aquele nome.
Deixou a seta pousada sobre ele e decidiu esperar antes de clicar.
Esperar.
Esperar?
Como se fosse possível.
Procurou aflita a caixa de fósforos e, assim que a localizou, puxou veloz e sem cuidado um fósforo qualquer, deixando cair ao menos outros sete ou oito por sobre o puído tapete carmim.
Acendeu o cigarro.
Ainda fumava mentolados.
Deu uma puta tragada e soltou.
A fumaça nervosa e tensa espalhou no ambiente e fez coro ao aroma das velas asiáticas (asiáticas?) que estavam acesas de um modo espalhado e desorganizado pela pequena sala.
Esperou para abrir a mensagem.
Não acreditou que ele havia escrito.
Definitivamente não acreditou.
Sentiu um tremor em seus lábios e sentiu o gosto do batom de cereja que ainda resistia naquela altura da madrugada.
Batom de cereja com um sabor incrivelmente amargo naquele instante.
Demasiado amargo, porém gostoso.
Não acreditou que ele havia escrito.
Definitivamente não acreditou.
Deu uma tragada ainda mais forte em seu cigarro mentolado e levou a mão livre à cabeça.
Cabelos soltos.
Bagunçados.
Nervosos.
Sabia que, ao clicar naquele nome em negrito estampado na caixa postal à sua frente, estaria abrindo uma verdadeira mensagem de um náufrago. Uma verdadeira message in a bottle, absurdamente improvável nos dias atuais.
Improvável.
Definitivamente.
Sentiu-se em um filme de ficção barato dos anos cinquenta, com máquinas do tempo vagabundas, alienígenas freaks, cientistas loucos e câmaras de criogenia insensatas que insistem em manter congelados por anos, ou mesmo décadas, alguns miseráveis astronautas insensatos e aventureiros.
Uma máquina de criogenia.
Isso.
Uma câmara de criogenia.
A definição perfeita para aquela mensagem.
Uma câmara de criogenia, porém como quase tudo em sua vida, uma máquina quebrada.
Bastava abri-la para o astronauta acordar.
Bastava isso, destampar a garrafa ou abrir a máquina, como queira.
Ela?
Ela permaneceu sentada sobre o seu tapete carmim com o laptop apoiado em seus joelhos, tragando o seu cigarro e apreciando a sua vodka barata, simplesmente sem saber o que fazer.
Apenas sem saber o que fazer.
O clique?
O clique... bem... dependia dela.
Bastava apenas um clique...
A câmara já estava quebrada...






31.1.20

BANDA DESENHADA À LUZ DE VELAS



Não havia luz.
Não.
Nada de luz.
E, ainda assim, ele permanecia esparramado no sofá, olhando atento para a fraca luz azul que saía da tela do seu celular, apenas a observar as barras indicativas do status da bateria do aparelho, diminuírem.
Diminuírem rapidamente.
Diminuírem de forma inadequada e veloz. De modo incrivelmente injusto.
Ao menos naquela noite.
Ao menos naquela madrugada.
E ele, ainda assim, apenas observava e aguardava – sem paciência - algum pop-up explodir na porra da tela de seu celular e anunciar uma nova mensagem dela.
Apenas observava, enquanto ouvia o som dos trovões que explodiam sem parar naquela noite.
Não havia luz elétrica no apartamento.
Havia apenas a luminosidade dançante provocada pelas velas vagabundas que formavam figuras disformes e incríveis na parede descascada do seu apartamento.
Pequeno apartamento à luz de velas.
Não havia energia e nem previsão de retorno da eletricidade.
Chuva implacável.
Verão infernal com suas tempestades surpresas.
Ao menos fosse inverno, porra – ele pensou egoísta como sempre.
Mas era verão e a tempestade estava lá fora.
Cruel.
E a luz não estava dentro do seu apartamento.
Não. Nada de luz.
Maldita companhia de energia.
Inoportuna tempestade.
E logo naquela noite, ele lamentou ao acender (mais) um cigarro.
Logo naquela noite.
Logo naquela noite em que ele finalmente havia a reencontrado depois de tanto tempo.
Quase uma era do gelo de tempo.
Ele, definitivamente, não acertava uma.
Deixou o cigarro sobre o cinzeiro sujo ao seu lado e levou as mãos à cabeça quando a luz azul finalmente morreu.
Acabou a bateria, acabou a conversa.
Não havia mais celular.
Não havia mais contato.
Ao menos até que a luz voltasse
Ao menos até a luz voltasse (e se voltasse).
Ele prestou ainda mais atenção à chuva desabando demente lá fora e pegou alguns amassados papéis em branco jogados ao lado do cinzeiro na mesinha de lado.
Pensou em uma banda desenhada.
Pensou em criar e desenhar uma história em quadrinhos para retratar a situação.
Deu mais uma profunda tragada em seu cigarro e sorriu como um tolo com aquele monte de papéis na mão esquerda.
Sorriu como um idiota ao lembrar que não sabia sequer segurar um lápis, um pincel, um carvão, uma caneta, enfim, o que quer que fosse necessário para retratar o momento.
Não sabia desenhar nada e, tampouco, desenhar aquele momento.
A banda desenhada à luz de velas não lhe foi possível criar.
Ele sorriu mais uma vez e fez o que conseguia fazer.
Tomou um gole do seu conhaque barato, deu uma tragada em seu cigarro e começou a escrever.
Apenas começou a escrever.
Escrever com um sorriso esperando a luz voltar.
E ela voltaria.







5.1.20

TREMA? NÃO EXISTE MAIS


Apenas um sinal.
Apenas um sinal ortográfico que existiu um dia.
Um sinalzinho indicativo da pronúncia, não tônica, da letra U antecedida da letra Q ou da letra G, seguido pelas letras E ou I, superficialmente explicando.
Para escrever palavras como tranquilo, sequência, eloquência, sequela, e tantas outras da língua portuguesa, a trema deveria ser usada.
Há tempos, não mais.
Não.
Sinal desnecessário.
Inútil.
Irrelevante.
Obsoleto.
Desusado.
Superado.
Envelhecido.
Ultrapassado.
Esquecido.
Simples assim.
Assim como o sentimento deles.
Assim como o amor deles.
Assim como eles.
O amor acabou.
E como consequência, tudo mudou.
E a trema deveria ser utilizada.
Há tempos, não mais.
E aquele sorriso delicioso e lindo daquela garota estampado naquele retrato antigo ficou como trema.
Lindo e esquecido.
Belo e inútil.
Superado.
Distante.
E agora, onde você vê beleza eu vejo uma grande bobagem.
Trema?
Não existe mais e já faz tempo.
Apenas não existe mais.
Como tantas outras coisas, tantas outras coisas.





S A N D R A _ N O I R by Dimitry Kasp [ dmitrykasp.deviantart.com ] @DeviantArt

4.12.19

PICTURE THIS


- Ei? Aqui. Olhe aqui, garoto triste – ela disse de um jeito abrupto, porém carinhoso e suave – Olhe aqui – insistiu com um sorriso entre os lábios, um sorriso amigável e amável.
Doce, terrivelmente doce.
Típico dela.
Ele virou o seu corpo de súbito e a olhou rapidamente.
Pego de surpresa por ela, ainda mais uma vez.
- Bah – resmungou e virou o rosto ao perceber a câmera - Deixa disso, porra – disse contrariado e irritado, mais pela situação e menos por odiar ser fotografado por ela.
Ela?
Ela adorava fotografar.
Adorava fotografar tudo o que fosse possível.
Tudo.
Ela adorava fotografar cenários, paisagens, flores, praias, enfim, qualquer coisa interessante ou não, atraente ou não. Ela adorava fotografias e, dentre todas as coisas, o que ela mais adorava eram as fotografias de pessoas.
Exato, pessoas.
Gente de verdade.
Pessoas com sorrisos, lágrimas e tudo mais.
Gente. Somente isso.
Porém, nunca através de celulares idiotas.
Não. Nunca.
Ela adorava fotografar de verdade.
Era uma das coisas que fazia de melhor.
- Vira, vai – ela insistiu na tentativa de amenizar o que não podia, porém ele permaneceu com o rosto virado, fora do foco.
Fora de foco.
Fora do alcance da lente dela.
Ela pôs a câmera de lado e se aproximou com cuidado.
Tocou de leve nos ombros dele e fez um carinho breve em seu cabelo quase longo e todo solto.
Percebeu nele as lágrimas que não podia ver e a respiração contida que podia ouvir.
Sabia o que havia.
Sabia exatamente o que estava acontecendo naquele saguão de aeroporto tão impessoal e repleto de gente.
Ela entrelaçou os seus braços finos e tatuados a partir das costas largas dele e encostou com carinho, podendo sentir o perfume adorável flutuando do seu cabelo e de sua nuca.
O perfume dele.
E prometeu a si mesma nunca esquecer aquele aroma e aquela noite e aquele saguão de aeroporto tão bipolar, cheio de alegria para uns e melancolia para outros.
- Você vai mesmo, certo? – ele perguntou sem realmente querer saber a resposta e continuou - Sem fotos, por favor. Depois você me manda as suas de lá, se quiser. Mas agora não quero fotos de nada – disse com ela colada às suas costas, ambos em silêncio.
- Você precisa ir – ele concluiu.
Ela nada disse e apenas o abraçou ainda mais.
Não insistiu em nada e ele permaneceu com o rosto virado, afogado em lágrimas contidas e desesperadas em não serem vistas.
Fora de foco.
Fora do alcance da lente dela.
Fora do alcance dela.
Fora do alcance dele.
Apenas um retrato para quem via de fora.
Apenas a vida deles sentida por dentro.
O que não é quase nada para muitos, mas muito para eles.
Apenas a vida deles.





22.11.19

E COMO FUGIMOS DAS SOMBRAS?


jye || a shitty love song

E o que eu faço porra?” – ele pensou em desespero, atônito e surpreso ao se dar conta do que ela tinha acabado de presenciar. “Como eu fujo daqui? Como eu fujo da minha própria sombra?” – continuou em pensamento. Suando demais. Suando muito, porém muito mais em razão do desespero do que das doses que havia bebido e das danças que havia dançado.
Não sabia o que fazer. Definitivamente não sabia o que fazer.
Na verdade não havia o que fazer.
Não havia.
Simples assim.
O erro já havia sido cometido. O erro já estava pronto e acabado.
Um delicado e especial presente, gentilmente embrulhado em papel de seda colorida em rosa e violeta, entregue a ele por Blodeuwedd, a irresistível deusa galesa.
Um presente.
Rosa e violeta.
Um presente.
Um erro.
Mais um erro, mais um.
Irremediável?
Talvez.
Inconsequente?
Com certeza.
Típico?
Típico, sim.
Típico dele.
Ela?
Considerando a velocidade em que ele a viu pelas costas deixando a pista em direção à saída, com certeza a esta altura ela já havia alcançado a porra do bar em frente ao Clube Varsóvia e pedido algumas doses daquele conhaque vagabundo que a ridícula grana dela podia comprar.
Havia luzes no Clube Varsóvia.
Muitas luzes, muito som, muita gente e ele. Perdido no espaço. Suspenso no tempo e espaço.
E a rosa e a violeta?
Bem, a rosa é vermelha e a violeta é azul e nada, nada vai mudar isso. Nada.
Ao menos até o sol nascer e as sombras voltarem para deixa-lo simplesmente sem ter como e nem para onde fugir.


Blodeuwedd. A definição mais direta que encontrei: 
Blodeuwedd, a Deusa galesa, foi dada em casamento ao Deus do Sol Llew Llaw Gyffes (Lugh) no solstício de verão de Lughnassah. Seu nome foi associado à traição porque ela enganou o marido fazendo-o encarar o complicado caminho para a corte: banhar-se embaixo de um telhado de sapê num caldeirão na margem de um rio, em pé, com uma perna tocando um cervo. Então ela o matou com a ajuda do amante”.
Daqui... Deusa que Dança





7.10.19

BILLIARDS


flower crown || bender szn

E o amor não passava de um grande jogo para ela. Um grande, divertido e arriscado jogo.
Perigoso e excitante.
Nada mais do que isso.
Nada mais do que isso.
O amor.
Um jogo.
Um jogo, porém um jogo que não era para ser.
Um jogo, uma espécie de sinuca perigosa e arriscada que ela adorava experimentar e manipular vorazmente.
Dia após dia, de forma cada vez mais intensa.
Dado viciado.
Arma fatal.
O amor.
Um jogo.
Um jogo, porém um jogo que não era para ser.
A maldição da beleza.
Seduzir e destruir.
A maldição da beleza que exalava do seu olhar azul e penetrante, dos seus cabelos soltos e longos, do seu perfume inebriante, do seu doce veneno. Um falso brilhante. Um diabólico conjunto da obra.
A arma fatal.
Uma roleta russa desvairada.
Um jogo.
O amor não passava disto.
Um jogo.
Um jogo, porém um jogo que não era para ser.
E ela costumava ganhar.
Estava mais do que acostumada a ganhar.
Muito mais.
Rotina.
Sempre.
Sempre?
Sempre. Ao menos até ele chegar.
Até acontecer.
Até ele chegar e devastar o seu coração, os seus sentimentos, os seus desejos e as suas vontades.
E o jogo inverteu.
Ela não controlava mais.
Não podia ganhar.
Nem de forma desonesta ou manipulável.
Nem de forma qualquer.
Ele?
A alma gêmea que ela inoportunamente encontrou.
O amor.
Um jogo.
Um jogo, porém um jogo que não era para ser.
O sentimento que ela tanto debochou de tantos outros.
Pobres miseráveis vulneráveis. Idiotas e tolos – costumava pensar.
Miserável.
Vulnerável.
O que ela se tornou.
Estava mais do que acostumada a ganhar.
Mais do que acostumada a vencer.
Sempre.
Quase sempre.
Até ele surgir e o inédito acontecer.
Até a alma gêmea finalmente aparecer e colidir de frente com ela.
O inédito que não era para ser.
A alma gêmea que não era para ser.
E o jogo?
Bem, o jogo agora estava definitivamente perdido.
Definitivamente perdido.





Photo by Anatoly Lebedeff from FreeImages


28.9.19

VOCÊ ME AVISA QUANDO PARAR DE CHOVER?


sorcha richardson || honey

- O amor acaba? Provavelmente o amor não acaba. Pode se transformar em outro sentimento. Raiva, ódio, carinho, desprezo, indiferença ou sei lá. Credo, puta filosofia barata e vagabunda para fazer perder o nosso tempo aqui na praia. Praia esta ainda que totalmente cinza e quase sob a chuva que logo vem por aí – disse Pedro, sentado de modo relaxado sobre um montinho de areia, com a cabeça baixa enquanto os seus dedos longos desenhavam algo ainda sem forma naquela tela tão natural e tão fofa.
Luisa estava sentada próxima a ele e apenas o observou com carinho através dos seus olhos tristes e úmidos. Nada comentou. Somente admirou ainda mais uma vez os longos e descuidados cabelos claros de Pedro. Amigo de longa data. Amigo de tantas coisas. Muito boas e muito ruins. Testemunha ocular dos seus sucessos, insucessos, conquistas, fracassos e perdas.
Ele levantou a cabeça e perguntou – O amor acabou?
Luisa ouviu aquela pergunta tão direta e resolveu observar o céu. Observar aquele céu tão cinza naquele fim de tarde. Um céu tão escuro e tão cheio de nuvens pesadas que em nada combinava com aquele cenário de praia, mas sim com o que ela estava sentindo.
Areias escaldantes?
Definitivamente não.
Nuvens chumbo?
Definitivamente sim.
Chuva?
Em instantes.
Pedro pôs-se de pé e rapidamente sacudiu a areia grudada nos pelos das suas coxas e pernas. Sacudiu as mãos. Estendeu-as limpas em direção à Luisa que o encarou com um olhar sincero de carinho. Muito carinho. Esticou os braços e segurou as mãos fortes de Pedro com as suas tão pequenas e frágeis. Pôs-se de pé e para abraça-lo com bastante força.
Ele retribuiu e ainda completou com um carinho suave nos cabelos da amiga.
Ela começou a chorar.
Ele a abraçou com mais ternura ainda e beijou de leve seu rosto.
- Pedro? – ela perguntou baixinho em um sussurro.
- Diz – ele respondeu.
- Vai começar a chover, não?
- Sim. O céu está muito cinza e o vento está ficando cada vez mais forte. E nem vou falar sobre as bravas ondas do mar – tentou ser suave.
Após uma breve pausa, Luisa emendou - Ele não vai voltar não é?
Pedro fechou os olhos e apenas respirou fundo. Ficou em silêncio.
- Posso te pedir uma coisa? – Luísa disse.
- Claro meu amor. Certamente você pode pedir o que quiser.
Luisa olhou para o mar bravio sobre os ombros de Pedro e disse – Você me avisa quando parar de chover? Por favor? Você me avisa?

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