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Mostrando postagens de Outubro, 2020

O QUE VEM DEPOIS DO RELÂMPAGO?

OUÇA: alexander biggs || low Assim, de repente, ela lembrou. ... Ela lembrou que choveu muito naquela tarde. Muito mesmo. Mais do que em qualquer outro dia da sua vida que não aquele. Cruel. Ela lembrou que o tempo estava bom até então, mas o céu, caprichoso, optou pela rebelião. O céu, assim de repente, tornou-se cinza. Absurdamente cinza. Cinza chumbo, quase noite. E choveu muito, mas muito mesmo naquela tarde. Como jamais ela pensou que poderia chover naquela época do ano ou em qualquer outra época, na verdade. Maldade. Ela recordou que estava no Parque Central, quieta, apenas pensando nas verdades que havia ouvido horas antes e arquitetando uma fuga mirabolante do viciado e repetitivo labirinto caótico em que a sua vida tinha se transformado. Lembrou-se, também, que não tinha feito tanto sol e nem tampouco estava abafado e, portanto, não havia razão para tantas nuvens no céu capazes de provocar aquela tempestade gigantesca que se formou. Não mesmo. Ironia. Mas, ainda assim, tudo ac

LO(VE)NDON CALLING

OUÇA: gaba kulka || london calling O corpo dos dois parecia derreter. O corpo dos dois parecia derreter, tamanha a excitação, tesão, desejo e vontade que impregnava o ambiente naquele quarto. O suor transbor dava em cada poro de cada corpo. Cada poro. Cada corpo. Ele estava absolutamente enlouquecido e extasiado. Ela, por sua vez, estava em uma espécie de transe e delírio. Mãos e bocas e se ios e pernas e coxas e dedos e lábios e línguas e beijos e saliva se encontravam. Sem parar. Contínua e sofregamente. O aroma que pairava no ar era o de uma espécie de vinho raro. Beleza rara. Especial. Ela sentia o gosto dele na sua boca. Ele sentia o dela. Sutil e intenso. Integrado. Suor, paixão, delírio, toques e gemidos. Sexo ou amor, ou seja lá o que isso quer dizer. ... E, logo depois, eles deitaram e ficaram quietos, respirando o silêncio.  Por pouco tempo. Por pouco tempo. Ela, agitada como sempre, gargalhou brava e, abrupta, ligou o velho aparelho de som em decibéis altos. Bastante altos. 

A CERTEZA DO QUE NÃO SE VÊ

OUÇA: faye webster || better distractions Foi tudo muito rápido. Um relance e um instante. Um momento. Ele pegou um cigarro no bolso do casaco, acendeu-o rapidamente, deu uma tragada profunda e tentou olhar do outro lado da rua para ter certeza do que estava vendo. Não quis crer no que imaginou ter testemunhado acontecer do outro lado da rua. Um casal. Uma mulher e um homem. Juntos. Mãos dadas e aparentemente sorrindo. Aparentemente não, eles estavam mesmo sorrindo. Não. Acho que não – ele pensou enquanto tentava observar melhor aquela cena que o despertou. O Clube Varsóvia não estava muito cheio naquela quinta-feira, mas no meio da pequena multidão esperando para entrar, algo chamou a sua atenção. Algo que ele não queria ter visto e, no mesmo instante em que viu e se deu conta, desejou não ser realmente verdade. Ele ficou parado em frente ao bar do outro lado da rua do Clube Varsóvia, tragando o seu cigarro e tentando ter a certeza do que estava vendo. Pre

VARINHAS MÁGICAS DISFARÇADAS EM PINCÉIS

OUÇA: ludovico einaudi || nuvole bianche O suor escorria pela sua testa. Muito. Gotas grandes e pesadas. Gotas nervosas escorrendo sobre o seu belo rosto. A respiração? A respiração estava ofegante. Bastante. Sem inspiração. A tela à sua frente permanecia em branco. Branco o suficiente para lhe dar medo. Muito. Medo de não criar. Medo de não gritar ao mundo tudo o que queria. Medo de as pessoas não saberem o que ela tinha a dizer. E precisava dizer. Muito. E o suor? Bem, ele ainda estava lá. E ela imaginava que para pintar o que queria, deveria ter toda a técnica, disciplina e plasticidade que não teve ao longo de muito tempo. Ao longo dos últimos anos. Ao longo dos últimos anos em que se prendeu. O suor escorria pela sua testa. Muito. Gotas grandes e pesadas. E a respiração estava ainda mais ofegante. Muito mais. E a tela continuava em branco. Intocada. Como uma alma virgem a ser desvendada. Lágrimas? Bem, elas também estav