29.1.18

CÉU LÍQUIDO


Ele estava sentado com as pernas bem dobradas, encostado junto à parede.
Debaixo da esquadria da janela da sala daquele apartamento vagabundo em que ele morava.
Uma droga.
Uma porra de apartamento.
No escuro, sentado com as pernas bem dobradas, quase com câimbras que sequer sentia, ele apenas via a sombra noir dos relâmpagos que davam as caras lá fora, intermitentemente.
Acuado e assustado.
Acuado e assustado.
Bem, nada estranho.
Nada estranho vindo dele.
Acuado e assustado era apenas ele na sua melhor forma.
Na sua pior forma.
Na forma de sempre.
Tolo as usual.
E a chuva parecia ser despejada do céu pelos anjos – anjos? Que porra é essa? - através de enormes baldes. Enormes baldes, repletos de água doce e ao mesmo tempo amarga.
Água das nuvens, dos rios, dos Alpes, de lágrimas e de tudo o mais o que parecesse líquido.
Mas, ainda assim, o seu baseado insistia em permanecer aceso preso entre seus lábios.
Insistia amigavelmente.
Bom amigo.
Seu único confidente naquele momento.
E não havia luz no apartamento.
Nada.
Porra nenhuma.
Nem uma faísca de nada.
Mas... Ele não tinha medo do escuro.
Não.
Ele tinha medo dele mesmo.
Apenas isso.
Simples assim.
Não havia luz no apartamento.
Nada.
Porra nenhuma.
Nem uma faísca de nada.
Nada.
Mas... Ele não tinha medo do escuro.
Não.
Definitivamente não.
Ele tinha medo dele mesmo.
Escuro?
Corte de energia pelo não pagamento ou simples queda em razão da chuva? Ele nem tinha idéia e isso pouco importava aquela altura do campeonato, aquela altura dos acontecimentos.
Naquele momento pouco importava a porra da ausência de luz. Pouco importava.
Mesmo.
Ele já não tinha dinheiro, telefone, carro, água e a luz, diante de tal cenário de caos, era o menor dos seus problemas. O menor dos seus problemas.
O que restava era proteger seu baseado, o pouco da vodka barata que restava na cozinha e suas pílulas rosa.
Apenas isso.
Nada mais.
E a chuva parecia ser despejada do céu através de enormes baldes. Enormes baldes, repletos de água doce e amarga. Água das nuvens, dos rios, de lágrimas e de tudo o mais que fosse líquido.
E ele permanecia sentado com as pernas bem dobradas, ainda encostado junto à esquadria da parede da sala.
Debaixo da esquadria da janela.
Debaixo da porra da esquadria com a foto dela entre seus dedos e o baseado entre seus lábios.
Queimando seus lábios.
Queimando seus lábios.
E seus dedos?
Dedos longos, finos e bem cuidados. Dedos de pianista como dizia sua falecida avó.
Os seus dedos segurando a foto.
A foto deles.
No escuro, ele ainda continuava apenas a ver a sombra noir dos relâmpagos nas paredes e que davam as caras lá fora.
Acuado e assustado.
Acuado e assustado.
Mas ele não tinha medo do escuro.
Não.
Mas se deu conta da sua situação e chorou.
Ele chorou.
Como uma criança.
Totalmente infantil.
Totalmente ele.
E debaixo da janela com todo aquele céu líquido derretendo as estrelas e com a foto dela entre seus dedos e o baseado entre seus lábios ele apenas desejou uma coisa...
... que ela estivesse por perto.
Que ela ainda estivesse por perto.
E que o céu não tivesse a afogado.
Afogado e levado-a para longe dele, mesmo depois de todas as besteiras que ele fez.
E que não queria mais fazer.
E o que ele queria debaixo daquele céu líquido e cruel era que ela ainda estivesse por perto.
Não afogada e não muito longe.
Não muito longe...

Não muito longe...

EU DANÇARIA SINATRA COM VOCÊ


- Dançaria? – ele perguntou surpreso e extremamente animado – Dançaria mesmo Sinatra comigo?
Ela apenas sorriu e nada disse. Nem um contra argumento. Nada.
- Dançaria? Mesmo? Mas e o punk, o hard core, o rock e o caralho a quatro que você tanto gosta? Você dançaria mesmo? – repetiu.
Ela sorriu e respondeu – Claro que sim. Claro. Com você eu dançaria qualquer coisa. Até tango.
Ele pareceu um bobo.
- Me leve para a lua então.
- Como? – ela perguntou.
- A lua. Me leve até ela.

FLY ME TO THE MOON

Fly me to the moon and let me play among the stars
Let me see what spring is like on Jupiter and Mars
In other words
Hold my hand
In other words darling, kiss me
Fill my heart with song
And let me sing forever more
You are all I long for
All I worship and adore
In other words
Please be true
In other words
I love you
Fly me to the moon
Jupiter and Mars
Fly me to the moon
Jupiter and Mars
Fly me to the moon
Fly me to the moon
Fly me to the moon
Fly me
…”

E a noite acabou perfeita.

Lua, drinques e tudo mais.


Tudo mais....


DEE DEE


- Você não gosta de Sinatra? – ele perguntou surpreso.
Ela sorriu seu sorriso mais lindo, mais fofo, mais terno e amplo e deu mais um gole da sua vodka.
Ele pareceu surpreso – Mas que tipo de pessoa não gosta de Sinatra? Não entendo – Mafioso, bonito, cantor, cool, enfim, tudo de bom. E usava uns ternos e chapéus lindos. Grafite. Fora as mulheres com quem saiu.
- Bonitão você é cego ou não me conhece? – ela respondeu – Está vendo a minha camiseta surrada aqui?
Ele sorriu.
- É, está bem surrada mesmo.
- Muito uso, otário.
Ele sorriu, sem graça.
- O que está escrito nela? – ela perguntou cínica.
Ele sorriu como um bobo e respondeu tímido – Dee Dee Ramone. Sou um idiota mesmo.
Ela sorriu – Não é não. Apenas deixa as pessoas levarem a sua vida e gosta de Frank Sinatra e dos Ramones também. Sujeito difícil você. Muito difícil.
Ele assentiu com a cabeça e disse – Sou mesmo, mas sabe de uma coisa?
Ela negou com a cabeça e esperou a resposta dele.
- Fly me to the Moon – ele disse – Esta canção é linda. Adoraria dança-lá com você.
Ela sorriu desajeitada e disse - Eu não gosto.
- Mas gosta de dançar certo? – ele provocou – E adoraria meu perfume no seu colo.
- Sim – ela respondeu sem graça.
- Depois dançamos um punk. Você vai ser minha punk rocker.
E caíram nos risos.
Lindos e jovens.
Jovens?
Nem tanto, mas sempre aos sorrisos.
Sempre.


JURANDO MENTIRAS


- Você o quê? – ele perguntou visivelmente irritado.
Muito irritado.
Ela deu de ombros, tomou um gole da sua bebida e deu um trago de seu cigarro.
O décimo nono da noite de muitos outros que ainda viriam.
- Repete porra – ele falou em um tom mais alto, mas não desrespeitoso.
Ela ignorou. Apenas ignorou.
- Não vai dizer nada? – ele perguntou.
Ela deu um discreto sorriso e respondeu – Não. Nada. Não tenho nada para te falar além do que já disse. E falei demais, por sinal – emendou.
- Ah, uma letra de música dos anos setenta que nem minha avó lembra mais.
Ela sorriu cínica e mais uma vez tomou um gole da sua bebida e deu um trago no seu cigarro.
O vigésimo da noite.
- Você me jurou mentiras? – ele perguntou de forma aflita – É isso? Mentiras? Perguntou – Mentiras? - Insistiu.
Ela parou e o encarou direto antes de dizer – Sim. Jurei o que podia e o que não podia. Mas, agora estou livre. Sigo sozinha, assumindo meus pecados, se é que eles existam. Se é que existam nos meus caminhos tortos. Se é que existam pecados. E como diziam na canção que nem “sua avó” se lembra eu “... Rompi tratados / Traí os ritos / Quebrei a lança / Lancei no espaço / Um grito, um desabafo” e foda-se você. Sou mais eu – disse ao acender o vigésimo primeiro cigarro da noite e beber a quinta dose da sua bebibda preferida.
E quanto à noite?
Acabou.
E a chuva começou a cair.
E ninguém precisa jurar mentiras.
Nunca.
Bem... só as necessárias.

Só as necessárias.

3.1.18

OUVINDO CORES


- O que você pretende? – Tina perguntou de forma apressada para Lia – O que pretende? Investir em nada? Nada? Em quem nem quer saber de você? – disse de forma cruel.
Lia abaixou a cabeça e nada disse.
Limitou-se ao seu baseado vagabundo e sua vodka de quinta categoria.
- Não adianta Lia, porra. A caixa postal do seu celular ordinário jamais vai receber uma mensagem dela. Ela te deu um foda-se, entende? Entende?
Lia olhou-a trêmula, esperando apoio, apenas apoio – Talvez não. Talvez não. Talvez ela não tenha conseguido ligar. Apenas isso. Apenas não tenha conseguido ligar.
Tina olhou para o alto sem a menor paciência. A menor paciência. Ficou em silêncio.
- Sabe de uma coisa? – pergunntou Lia.
Tina respondeu seca, porém com afeto – Nem tenho idéia, Lia. Nem tenho idéia, ainda mais vindo de você. Nem tenho idéia.
- Eu gosto de ouvir cores – disse Lia direta.
Tina a olhou com espanto e disse – Ouvir cores? Tem certeza que, ao menos desta vez você comrpou um baseado não malhado? Não creio.
Lia sorriu e respondeu – Não. Eu gosto de ouvir cores. Ainda mais quando estou triste. Ainda mais quando estou triste.
Tina sorriu com um carinho imenso. Amava aquela menina. Simplesmente amava.
- Eu costumo, desde pequena, associor as cores aos sentimentos e adoro imaginar que elas estão por aí, soltas no ar, e que posso pegá-las e transformar no som que quero. Melodias tristes ou felizes. Apenas isso. Depende de mim. Apenas do que sinto.
Tina a encarou com carinho e perguntou – E que cor você está ouvindo agora?
Após um longo silêncio Lia respondeu – Duas.
- Duas? Tina perguntou.
- Sim. Duas.
- Posso saber quais? – Tina perguntou curiosa.
Lia sorriu seu sorriso mais triste e mais apaixonado e disse em tom baixo – Cinza pela ausência de respostas e Azul pela companhia de uma pessoa especial que às vezes não me dou conta de que está perto e muito, mas muito perto mesmo do meu coração. E ás vezes nem percebo.
Tina sorriu com as lágrimas quase escorrendo.
Lia também.
E afinal de contas, as cores não são para sempre serem ouvidas?
Sempre ouvidas?




BEIJOS MAIS DO QUE PROVÁVEIS


- E ainda alguém beija ouvindo The Smiths? – ele perguntou a ela do seu jeito totalmente desastrado, totalmente desastrado, sentado a uma mesa do Cube Varsóvia com ela naquela noite de sexta feira, a linda garota ruiva.
Ela apenas sorriu e tomou mais um gole de seu gim. Mais um gole do seu gim, repleto de limão e gelo.
- Ainda? Ainda alguém com menos de “duzentos anos” beija? – ele insistiu com o seu melhor tom de voz canalha.
Ela apenas sorriu.
Silêncio.
Nada respondeu.
Ele deu de ombros e acendeu um novo cigarro antes de dizer – Mas também, ninguém mais toca The Smiths, certo? – perguntou.
Ela deu um suspiro e olhou para o alto antes de, finalmente, responder – Depende.
Ele a olhou com surpresa.
- Depende? – perguntou.
Ela deu mais um gole do seu gim e disse firme – Sim. Depende.
Ele a olhou em desafio e perguntou novamente – Depende do que?
Ela o encarou com ternura e muito amor e pouca paciência e respondeu – Depende de quem você quer conquistar, de quem você quer ficar, da quantidade de gim que você bebeu e, finalmente, da sua amizade com o DJ do Clube em que você está com o otário que você quer beijar.
E, a um simples sinal dos seus cabelos ruivos, a música mudou e The Smiths começou a tocar ao sorriso lindo dela e para a surpresa dele.
Os olhos de ambos brilharam.
Ele deu mais um trago de seu cigarro.
Ela deu mais um trago de seu gim.
E olhos?
Brilharam ainda mais.
Beijos?
E os beijos?
Ainda que desastrados e de forma inusitada, aconteceram.
Especiais e típicos de tudo o que o Clube Varsóvia já viu.
Densos, tensos e deliciosos.
Inusitados.
Típicos.
Típicos, de quem ama e usa subterfúgios para ser feliz.
Baratos vulgares e deliciosos.
Um jogo de gatos e ratos.
Apenas eles.
Ainda que ao som do velho The Smiths numa noite de sexta no Clube Varsóvia os beijos sempre podem acontecer.
Sempre podem acontecer.