15.2.19

PONTEIO


E o gato dormia ao lado dela.
Na cômoda ao lado da cama.
Próximo.
Bem próximo.
Ronronando baixinho com um ronco fofo.
Um ronco fofo.
Um amigo próximo sem se importar com a fumaça do seu cigarro.
Com seu hálito de vodka barata.
Um gato.
Um amigo.
Lindo, peludo e gordo.
Mais gordo do que o necessário.
Mais pílulas do que o necessário.
Mais álcool do que o necessário.
Mais esperança do que o necessário.
Mais gato do que o necessário.
Mais fumaça do que era preciso.
Mais Edu Lobo na vitrola do que o necessário.
Mas nunca é demais.
Nunca.
Mais noite do que o necessário.
Mais noite.
Muito mais.
Menos lágrimas.
Não.
As lágrimas eram as mesmas.
Ela não esquecia.
Não.
Não esquecia e nem dormia.
E chovia.
E fumava.
E chorava.
Muito.
Muito.
Mas o gato não se importava.
Apenas dormia.
E os trovões?
Apenas um ponteio.
Apenas um ponteio.
Um novo começo?
Pode ser.
Pode ser.

“Ponteio
...
Colocar os dedos sobre as cordas de um instrumento musical para produzir o som...”

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