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Mostrando postagens de 2014

DUBLÊ DE CORPO

“... Foi tanta força que eu fiz por nada Para tanta gente eu me dei de graça Só prá vc eu me poupei ...” - Credo, como você é mórbido – ela disse sincera e assustada. Irritada. Muito. - É? – ele perguntou irônico e com a dose certa de sarcasmo – Tem razão. Toda a razão. Ninguém pode usar uma música dos Heróis da Resistência como referência de vida. Falta de pudor total. Total. Minha penitência. Falha minha. Absoluta. Total. Ela discordou com a cabeça, fechando os olhos azuis e balançando os seus lindos cabelos vermelhos – Não. Não é isso. É outra coisa. Ele tomou mais uma dose da sua vodka e a olhou curioso. Perguntou – Não entendi. Como assim? Ela acendeu mais um cigarro e disse sincera – Não sei. Simplesmente não sei. Você gosta de errar? Você gosta? Você insiste em errar? – perguntou. Ele balançou a cabeça e nada disse. - Vai, seu merda. Responde – ela insistiu – Você faz de propósito? Erra sempre e erra tanto, mas tanto assim de propósito? Para chamar

PERVERSAMENTE LINDA

Linda. Absolutamente linda. Cabelos castanhos meio grandes, meio finos, muito bagunçados. Muito organizados. Dependendo do vento. E ele? Ele amava. Simplesmente amava. Muito. Um quadro único e sem igual. Único. A beleza é perversa e ele amava aquele quadro. Amava. Apenas isso. Com todas as suas forças. Com todas as suas forças. Linda. Absolutamente linda. Cabelos castanhos meio grandes, meio finos, muito bagunçados, muito organizados. Vento. Este filho da puta. Este tremendo filho de uma puta. - Você vai ficar comigo? – ele perguntou – Ainda dá? - insistiu. Ela sorriu com desdém e troça. A troça de quem sabe que tem o poder. De quem pode. Tomou um gole da sua cerveja e não respondeu. Apenas acendeu um Marlboro. - Vai? – ele insistiu em súplica, em desespero, em paixão e amor. Ela se manteve e não respondeu. Apenas ajeitou os tais cabelos castanhos completamente desgrenhados pelo vento da mesa de bar ao ar livre. Tomou mais um gole da maldita cerveja. Nada disse. Ficou q

CANSAÇO

- Cansado? – ela perguntou com muito carinho, alisando com suave paixão os longos cabelos dele que encobriam boa parte do seu rosto. A boa parte do seu rosto. Ele nada disse. Nada. Resignou-se e tomou um gole largo da sua cerveja. Um longo gole. Repleto de satisfação e frustração. Lágrimas gordas formaram-se em seus olhos azuis. Os seus lindos olhos azuis. Não pôde evitar. Preferiu o silêncio. Ela não aceitou - Ah, querido. Pára. Não fique assim. As coisas mudam. Melhoram. Pode apostar – prosseguiu. Ele a encarou com desespero e ira - Melhoram? – respondeu com certa raiva, muita indignação, toneladas de desprezo – Melhoram? Tem certeza? O silêncio se fez. Ela abaixou a cabeça e desviou o olhar. Sabia que não sentia a verdade nas suas próprias palavras. Flagrada na mentira. Muito flagrada na mentira. Sabia que estava mentindo a pior das mentiras. A mentira para si própria. Ficaram em silêncio. Ele com sua cerveja. Ela com seu cigarro. Ao fundo? O Clube Varsóvia e seu ca

PRETÉRITO

pretérito  pre.té.ri.to adj ( lat praeteritu ) Que passou; passado. sm Gram Tempo verbal que exprime ação passada ou estado anterior; passado. P. imperfeito: tempo que indica uma ação passada, em relação ao presente, e que estava se exercendo quando outra se realizou: Estudava, quando ele entrou. P.-mais-que-perfeito: tempo que exprime ação anterior a outra, que já é passada no momento em que se fala: Ele partira, quando eu cheguei. P. perfeito: tempo que exprime ação passada e liquidada: Ele viajou. Futuro do p.: tempo que substituiu o antigo "condicional", e em que o processo indicado como posterior a um momento do passado é anterior ao momento em que se fala. Refere-se comumente a processos que não chegaram a realizar-se: Morreria se não viesses . (MICHAELIS: Dicionário Língua Portuguesa) Pretérito. Em poucas e rasas linhas, o “pretérito” é apenas o “ tempo do verbo que determina estado ou ação anterior ”, conforme ela leu em algum lugar por aí. Sem se

PERDENDO O PENÂLTI... CHUTANDO NA PUTA QUE O PARIU...

- O que você me disse? – ela perguntou incrédula, mal acreditando no que havia acabado de ouvir, porém desejando ardentemente que fosse verdade. A mais pura verdade. Ele a olhou com surpresa e com os olhos vermelhos e bêbados. Nada disse. Preferiu o silêncio. O cruel e malvado silêncio. - Vai, diz. Repete – ela insisitiu querendo muito ouvir novamente o que ele havia acabado de dizer, confessa porra – insistiu. Ele disfarçou apenas e disse com a voz trôpega e confusa – Não estou entendendo nada querida. Nada. Absolutamente nada. O excesso de vodka, além do barulho infernal deste Clube Varsóvia não deixa meu cérebro funcionar em paz. Não estou entendendo mais nada. O que você quer? Um cigarro? Tenho aqui, mas apenas aqueles mentolados que você odeia – disfarçou – Caso queira eu te arrumo “cigarros” mais fortes – emendou de forma imbecil, infantil, idiota. Um verdadeiro imbecil. Ela o encarou sem paciência. Sem a menor paciência e apenas disparou – Você sabe muito bem trouxa. I

LUZ, CÂMERA E...

Você é linda. Linda demais – Bia pensou ainda mais uma vez enquanto ouvia o interminável monólogo de culpas e desculpas discorrido por Estela. Linda demais para ser tão cega – completou. - Então... – prosseguiu Estela – ... Ele veio e disse que queria muito ficar comigo. Vibrei Bia. Vibrei muito. Mal acredito que aquele “lerdo” tomou ou demonstrou alguma iniciativa. Porra, depois de todo este tempo. - Eu também não – respondeu Bia, tentando disfarçar o desânimo. Apenas tentando disfarçar o seu desânimo. Apesar de não... - Não é maravilhoso? – perguntou Estela, quase feito uma adolescente. Uma adorável e apaixonada adolescente apesar dos seus trinta e poucos anos. - Sem dúvida. Sem dúvida alguma. Uma maravilha – murmurou sem força - É uma maravilha que ele deixou a “lerdeza” de lado e demonstrou interesse por você. Finalmente. Finalmente demonstrou interesse além do seu próprio pau. Espero por isso há anos – respondeu Bia, quase sem disfarçar o seu constrangimento. - El
QUANDO O REFLEXO NA JANELA DE UM ÔNIBUS VELHO E SUJO REVELA A SUA VIDA SEM VOCÊ DESEJAR. SEM VOCÊ DESEJAR... Manhã de segunda feira de julho em São Paulo. Maldita manhã de segunda feira em São Paulo. Em qualquer lugar do mundo. Maldita manhã de segunda feira em qualquer grande cidade de qualquer lugar do mundo. Manhã de segunda feira cinza, chuvosa e fria. Muito fria. Fria demais. Ninguém, mas ninguém no mundo merece uma segunda feira de manhã cinza, fria e chuvosa demais. De verdade. Do fundo do meu coração não desejo isso a ninguém. E, de bobeira, em um ato de verdadeira idiotice, percebi o reflexo do meu próprio rosto na janela do ônibus em que eu estava e que rasgava insano, em alta velocidade, aos trancos e barrancos e sem medo, a Avenida Francisco Matarazzo, zona oeste de São Paulo. E fiquei perplexo com a pequenez do que vi. Perplexo. Perplexo demais com tamanha pequenez. O que vi não ajudou em nada a minha vida, a minha esperança, a minha perspectiva de um f

O AMOR SÓ É BOM SE DOER?

- Como assim? – ele perguntou surpreso. Ela o olhou com dó, com pena, com compaixão, com sinceridade. Sentimentos à parte. Não respondeu. Nada. Melhor assim. - Como assim? – ele insistiu. - Como assim o quê? – ela perguntou, tentando disfarçar o indisfarçável. Tentando evitar o inevitável. - Como assim, porra? Como? – ele perguntou novamente, agora visivelmente bravo. - Assim. Simples assim. - Assim? – ele insistiu incrédulo – Assim? Você não me quer mais e diz isto desta forma. De cara seca e lavada. Simples assim? Ela tomou um gole do seu copo de vodka e apenas o encarou. Preferiu o silêncio. - Assim? – ele disse surpreso. - Assim. Simples assim. Apenas isto. Agora vamos ter uma conversa normal ou você prefere ficar neste diálogo insano e infantil? – perguntou ela após “matar” o resto da vodka em seu copo americano. Ele suspirou e disse com fina ironia – Você é engraçada. Engraçada demais eu diria. Engraçada demais. Ela o olhou com um misto de curiosidade e pe

SORTE OU AZAR?

Sorte? Azar? Erros? Acertos? Signos? Crenças? Nada disso. A vida dela era um eterno confronto entre o bem e o mal. Entre a sorte e o azar. Entre erros e acertos. Entre o lado ruim e o lado bom. Dualidades. A vida dela. O resumo da vida dela. Um breve e apertado resumo. Sorte? Azar? Erros? Acertos? Signos? Crenças? Nada disso. A vida dela era um eterno confronto entre ela e ela mesmo. Apenas isto. Nada demais. Nada demais. Nada do que já não se viu por aí. Aos montes. Aos montes. - Qual o seu signo? – ela perguntou temendo ser tola ao cubo. - Câncer – ele respondeu acreditando na sua tolice ao cubo – Isto faz alguma diferença? – provocou. Ela sorriu e disse – Claro que não. Claro que não. Adoro homens de câncer – mentiu. - É? – ele perguntou incrédulo – E quais as qualidades deles? Dos homens deste signo? Ela sorriu sem graça e respondeu direta e reta – Nenhuma. Nenhuma. Precisa ter alguma? – perguntou – As qualidades aparecem – finalizou. Ele apenas

CAFÉ RALO

Alta madrugada. Chovia demais. Muito mesmo e ele, bem, ele estava em um bar qualquer no centro velho da cidade. Sozinho para variar. Sozinho naquela alta madrugada. Sozinho, como sempre. Sozinho como nos últimos dias, nos últimos tempos, nas últimas noites. E chovia muito lá fora e ele apenas deixava o tempo passar observando a xícara lascada à sua frente com um café vagabundo, morno e rarefeito que ele conseguia engolir apenas pelo vício inexplicável em cafeína. Cafeína e cigarros. Sem mais álcool ou qualquer outra forma diferente de fugir. Apenas cafeína e cigarros. Foi o que restou. E ele estava em um bar qualquer no centro da cidade. Insônia pesada e ele, tolo, apenas AINDA insistia em pensar no que fazer, para onde ir, como conseguir consertar as coisas que quebrou ao longo do tempo. Bobagens cotidianas que não pagam as contas (muitas, aliás) e não resolvem porcaria nenhuma na vida de um sujeito normal. Sérias bobagens cotidianas. Falar em sair do buraco é fácil. Difícil é realm

SURPRESAS... SURPRESAS...

Ela estava triste. Muito triste. E cá para nós, ninguém pode se permitir ser triste no verão. Não no verão. Você pode ser triste em dias cor cinza, em dias chuvosos, em dias solitários, em dias cruéis, mas não no verão. Nunca. Nunca no verão. Mas ela, coitada, estava triste. Muito triste. Mesmo em pleno verão. Até o telefone tocar. - Alô – atendeu sem a menor vontade, sem o menor saco, sem a menor amizade, achando ser, mais uma vez, algum representante do seu banco cobrando o cheque especial já estouradíssimo antes de o mês começar. - Leca? – perguntou a suavemente rouca e doce voz feminina do outro lado da linha. Leca suspirou sem paciência e respondeu rude – Você que me ligou. Com quem quer falar? - Oi Leca, sempre a mesma, hein? A aspereza em forma de mulher. Sempre armada – brincou a voz doce do outro lado antes de dizer – Sou eu, a Bia. Esqueceu da minha voz? Um arrepio atravessou as costelas de Leca. Um arrepio intenso e devastador. Como ela não havia reconhecido