30.7.20

ERA O QUE FARIA LOU REED



Clube Varsóvia, duas e meia da madrugada.
Mais uma noite.
Mais um cigarro.
Mais um chato chegando perto.
- Oi – o garoto loiro disse, com aquela voz quase bêbada e mole, derretendo as sílabas.
A moça alta de preto nem o olhou e ficou em silêncio. Aproveitou e brincou com o seu cigarro entre os seus longos e espessos dedos antes de dar mais uma tragada naquele Marlboro.
- Oi – ele insistiu – E aí? Tudo bem?
Ela pensou um instante, desistiu do cigarro, pegou o copo cheio de gim à sua frente e tomou mais um gole.
Ausência de resposta em retorno. “Ainda bem que há um DJ no local” – ela agradeceu em pensamento.
- Ah, fala alguma coisa – ele pediu – Você é bonita, sabe? Bastante bonita.
Ela tomou ainda mais um gole, deixou o copo no balcão e se virou na direção do garoto loiro.
Depois de alguns momentos o observando, disse – Oi. Está tudo bem sim. Exceto o incômodo.
- É, realmente. Um incômodo. Também acho que o volume está muito alto hoje. O DJ devia perceber isso.
Ela não acreditou e deduziu que só podia ser a bebida.
Impossível falta de percepção.
- É. Tem razão – ela completou condescendente – O som está alto hoje – disse reparando um pouco mais no garoto loiro à sua frente, meio bêbado, quase derretido.
- Sabe de uma coisa? Eu já te vi por aqui no Varsóvia outras tantas vezes. Já percebi você sim.
- É? – ela perguntou curiosa – E...?
Ele gostou da curiosidade que supostamente havia provocado nela e respondeu – Você está sempre de preto. Sempre de preto e sempre bonita. Eu gosto.
Ela sorriu e perguntou – Gosta? Fico feliz. Às vezes não percebemos, porém gostamos do que não conhecemos. Melhor, do que ainda não conhecemos.
Ele a observou mais de perto e ofereceu mais uma bebida.
Ela recusou.
Ele insistiu.
Ela foi firme.
Ele desistiu e decidiu beber sozinho.
Prosseguiu - Enfim, você é diferente. Bastante diferente. É alta, atraente, cabelos longos e bonitos, usa sempre preto, tem os olhos verdes brilhantes, tem as unhas adoravelmente pintadas e gosta de gim – ele definiu.
- E tem a voz rouca. Isso você não disse. Já esperava? – ela perguntou com um tom insinuante. Blue velvet.
Ele tomou um gole da sua bebida e respondeu – Gosto sim. Gosto sim. Eu, sinceramente imaginava. Pela sua altura sabe. Quero dizer, por tudo. Imaginei uma voz diferente, forte, sei lá, uma voz...
- ...baixo ou contralto? – ela interrompeu, divertida.
Ele a olhou com surpresa e nada disse.
- Então? Voz em tom baixo ou tom contralto? – repetiu.
Desconcertado ele disse – Não entendi. Baixo? Contralto?
- Deixa para lá, ela respondeu com um sorriso leve e provocante – A bebida, a música, enfim, deixa para lá.
- Não, pode dizer – ele insistiu - Fale.
Ela pegou mais um cigarro e o acendeu e deu uma tragada para só depois o encarar detida e suavemente e dizer – Veja, nem sempre se conhece uma pessoa pela altura, pela sua beleza, pelos seus cabelos, pelos seus olhos “verdes brilhantes”, pelas suas unhas cuidadas, pela sua roupa preta ou pelo seu gosto etílico. Nós precisamos conhecer a voz. A voz – finalizou com um sorriso.
Ele a olhou confuso, tentando interpretar aquele tom e o que estava acontecendo ali. Não entendeu nada, mas começou a perceber e duvidar.
- Então, agora, ouça mais do que fale. Pode ser útil quando nos encontrarmos aqui no Varsóvia de novo. E espero que nos encontremos de novo, mas sóbrios. Assim continuamos daqui – completou – Sem culpar a bebida pelos futuros acontecimentos – disse, dando um delicado beijo na testa do garoto loiro antes de deixar o balcão e ir em direção à saída do Clube Varsóvia.
Partiu com um sorriso de satisfação plena pela confusão. Divertindo-se pela dúvida e pelo que provocou.
Ele a olhou surpreso deixando o Clube Varsóvia. Olhou sem saber exatamente o que sentir, o que pensar, o que fazer, além de pedir mais uma dose de bebida e um cigarro enquanto ecoava em sua mente em uma espécie de looping excitante e desconhecido a frase “nem sempre se conhece uma pessoa pela altura, pela sua beleza, pelos seus cabelos, pelos seus olhos verdes brilhantes, pelas suas unhas cuidadas, pela sua roupa preta ou pelo seu gosto etílico. Nós precisamos conhecer a voz. A voz”.
Às vezes não percebemos, porém gostamos do que não conhecemos.
Melhor, gostamos do que ainda não conhecemos.
Ele?
Confuso.
Ela?
Ele?
Pura diversão em seduzir.

Era o que faria Lou Reed.


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11.7.20

FAZENDO VÁRIOS NADAS


worry club || in my ear

Anoiteceu e ela se deu conta de que estava exausta.
Exausta.
Enfim, ela reconheceu que estava exausta de tédio e sequer olhou o relógio naquele fim de tarde, começo de noite.
Não, ela definitivamente não queria nem saber as horas.
Não.
Nem saber.
Não queria saber quanto tempo havia passado desde que começou a sua maratona de fazer vários “nadas”.
Sua atividade exclusiva naquele dia.
Vários “nadas”.
Vários.
Perdeu tempo?
Não.
Definitivamente.
Acordou e saiu da cama amassada; tomou seu café preto e amargo; leu o que o jornal previa para o signo de Touro; aproveitou e viu o de Leão e o de Gêmeos; abriu o notebook; entrou na internet; saiu do notebook; pegou o celular e mandou mensagens sobre vários “nadas” para sua melhor amiga e fez fofoca e quis saber as novidades com ela; tentou estudar; não estudou; tentou concentrar e desconcentrou; cozinhou bobagens e comeu alguma coisa; bebeu algo gelado; ouviu música; desistiu; ligou a televisão; ligou o spotify; desligou o spotify; assistiu a um filme; um seriado; deu comida pros seus pets; tirou uma selfie solitária; pensou no recente namoro desfeito; odiou ter estado com aquele idiota; lembrou; esqueceu; enfim, muitos e vários “nadas” ao longo do dia.
Uma infinidade de “nadas”.
Até respirar fundo e decidir abrir o armário.
Sim, a porra do armário.
Afastou as roupas e resolveu revirar a caixa quadriculada que ficava escondida lá no fundo do armário.
A pequena caixa quadriculada repleta de detalhes.
Memorabilia da sua própria vida.
Fotos, várias Polaroids, duas fitas cassetes antigas, uma pétala de flor seca, alguns desenhos espalhados, ingressos para shows, entradas de cinema e cartas, várias cartas, mas uma, apenas uma, muito especial, ainda no envelope violeta.
Segurou em suas delicadas mãos o papel antigo e quebradiço e sentiu o aroma do perfume de quem a escreveu como se realmente estivesse ao seu lado.
Abriu pela enésima vez...

Oi,
Ou tchau ou até breve. Nunca se sabe. Nunca. E não sei exatamente o que escrever neste papel. Não. Realmente eu não sei. Quero que saiba que não estou feliz pela forma como tudo aconteceu e terminou entre a gente. Não, eu não estou nada feliz. Sei que devia ter falado com você e não apenas ter deixado esta carta antes de ir, mas, você sabe, eu não podia mais insistir. Não, eu não podia insistir mais. Você fez o certo e decidiu o que tinha que decidir. Julgou e tentou evitar que algo entre nós terminasse da forma que foi. Eu estava errado, fiz muita besteira e falei muitas coisas que jamais devem ser ditas. Eu sei. Mas insistir seria ainda mais errado. Foi muita bobagem ter te perdido lá atrás. Muita. E, realmente, o que tive foi medo e creio que nunca te achei na verdade. Não se perde o que não se teve de verdade. Quer dizer, de verdade, porque para mim você sempre foi minha e sempre será. Esteja onde eu estiver. Londres, como é o caso, ou Estocolmo, Edimburgo, Paris, Bruxelas, o que seja. Qualquer lugar. Qualquer lugar. Agora? Bem, agora você está feliz com ele e espero que assim seja. Espero mesmo. Eu não queria ter brigado com nenhum dos dois. Não. Mas não achei que fosse terminar assim. Não achei que devia ter falado tudo quando fiquei bêbado naquela noite. Não. Devia ter ficado em silêncio como tantas outras vezes. Mas você também não demonstrou nada quando eu falei da viagem. Não falou. Devia ter falado, assim como eu também devia ter dito tudo antes. Bem antes. Antes de ser tarde demais, de ter te ferido tanto assim e antes de este avião partir. Principalmente antes de este avião partir. Parece e é, na verdade, uma cena patética de um filme romântico de uma sessão da tarde qualquer, mas é real. Esta carta e esta despedida são reais. Real e eu não quero mais chorar na sua frente. Não. Não quero. E por favor, me perdoe por tudo o que fiz e disse. Esconda ou destrua esta carta, pois se alguém a achar e ler o seu conteúdo daqui a alguns anos, sinceramente vai ter a certeza de quem a escreveu ou é um idiota ou trata-se de um roteiro de uma comédia romântica de quinta categoria escrita por um babaca. Mas, os babacas amam por mais ridículo que possa parecer. Enfim, fica este cassete também que eu gravei para você. São aquelas canções que você ouvia enquanto eu te ensinava a dirigir, lembra? Séculos atrás. Bem, cuide-se. Não vou te escrever de Londres e muito provavelmente nunca mais nos veremos ou você não irá querer. Enfim, quem sabe? Quem sabe. Quem sabe. Fica bem. Eu te amo e sempre vou te amar e me perdoe por nunca mais te procurar. Tenho certeza que vai ficar bem Certeza. 
Ass: você bem sabe quem”.

Ela levou e apertou o papel junto ao seu peito, com cuidado para não molhar, pois as lágrimas estavam todas fugindo daqueles olhos verdes e grandes, rolando através do seu rosto sem qualquer pudor.
Sem qualquer pudor.
Ela sorriu da profecia dele e lembrou a última vez que o viu, há alguns anos, atravessando a rua, acompanhado.
Ela o viu.
Ele não.
Ela lamentou não ter gritado um oi.
Um último oi poderia ser uma primeira palavra, mas ela não fez nada.
Nada.
Ela apenas pensou como de costume, em fazer vários “nadas”.
Mas não fez.
Não.
Mas amar é coisa de adolescentes tolos, ela considerou enquanto fechava a caixa e a colocava de volta em seu lugar, o fundo do armário.
De volta ao fundo do armário a caixa quadriculada repleta de retratos e de vários “nadas”.
Vários “tudos”.
Ou quase.
Basta ter coragem e fazer.



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