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Mostrando postagens de Abril, 2003
O TELEFONE MUDO EM CIMA DA CÔMODA BORDÔ Ela sentou em frente ao telefone e esperou, esperou e esperou...nenhuma idéia surgiu. Nenhuma. Ela levantou e foi para o aparelho de som. Ligou uma música, mas logo mudou de idéia, uma vez que estava sem a menor paciência para ouvir qualquer coisa. Voltou para o telefone. Esperou que a idéia surgisse. Começou a roer as unhas. Desistiu quando percebeu que havia se ferido e cortado a pele de uma delas até o sangue aparecer. Acendeu um cigarro. Apagou na sequência. Esqueceu que havia parado de fumar. Deu um "foda-se" e acendeu outro. Meu pulmão é o meu menor problema - pensou. Estava cansada de tudo aquilo. De toda aquela angústia. Quis gritar, correr, chorar, mas não conseguiu. Pegou o telefone novamente. Discou os números. Uma voz masculina atendeu. A velha voz masculina que tanto ela conhecia. Desligou sem falar nada. Desligou sem falar que aceitava as suas desculpas. Desistiu dele. Desistiu do amor. E começou a chorar... Porqu
SOMENTE O DESCONTROLE... Assim que entrou no pequeno apartamento em que morava, no centro antigo da cidade, ele jogou as chaves da porta de entrada sobre a mesa com duas cadeiras que enfeitava a sua ridícula sala. Fez a mesma coisa com o seu blusão sujo, porém, ainda que se tratasse de uma roupa, ele sequer tomou cuidado de jogá-lo sobre algum aparador. Deixou-o caído no carpete marrom, empoeirado e velho. Foi direto para a cozinha. Acendeu a luz e abriu o armário. Pegou um copo tipo americano, quebrado nas bordas, e deixou sobre a pia. Abriu uma outra porta do mesmo velho armário da cozinha e sacou uma garrafa de conhaque. Conhaque de última categoria. Conhaque de padaria. Conhaque de esquina. Encheu o copo até a borda e, sem se preocupar com as bordas quebradas, virou o líquido vermelho escuro de uma só vez. Encheu novamente o copo, mas desta vez não virou. Deu apenas um pequeno gole. Tateou dentro de alguma gaveta e achou uma caixa de fósforos, engordurada e pegajosa. Não se
USE OS HEADPHONES SUMMER´S GONE - PLACEBO - Hey, hoje não é o último dia do verão? – ela perguntou, enquanto observava o sol se pôr pela janela. Precisamos celebrar. - Que dia é hoje? – ele perguntou. - Dia 20 – ela respondeu, enquanto deixava a paisagem do pôr do sol para lá e se concentrava em um casal de velhinhos fantásticos que andavam de mãos dadas na rua. - Não. Amanhã é o último dia do verão, então – ele disse, com um sorriso adorável, indo em sua direção. - Eu detesto quando o verão termina. Eu simplesmente detesto quando as coisas, no geral, terminam. Eu não gosto disso. Não gosto do fim das coisas, não gosto de encerramentos. Não gosto de términos. Eu sempre choro nas cerimônias de encerramento das olimpíadas – disse, com um sorriso. Lindo, por sinal, e prosseguiu – Veja aquele casal na rua. Não é lindo? É lindo perceber que o amor existe em pessoas tão vividas. É uma prova de que o amor pode resistir a tudo, quer dizer, a quase tudo, já que certamente um deles
hey...oi... E eu pensei em acabar com tudo isso...férias involuntárias...férias de idéias...confusão...tudo bem agora...voltem sempre. Estarei aqui...pelo menos por ora... ...ao menos atualizei minha relação de links...
Hey, eu queria aproveitar e desejar BOA PÁSCOA A TODOS... Bom feriado...talvez novidades apareçam por aqui no período...let´s wait...
COMO DIZIA A MINHA AVÓ (OU O MAIOR CEGO É AQUELE QUE NÃO SABE AMAR) Ainda não havia começado a tempestade. O céu, no entanto, resolveu discordar do sol e daquele calor abafado e sufocante e se tornou totalmente negro. Negro como a noite. Cinza e profundo como os maiores medos. E ela estudava canto lírico. E não queria deixar o conservatório sob a ameaça daquela tempestade. Ela não queria se molhar. Não queria perder a voz, ainda mais uma vez. Resolveu então, esperar. Apenas isso. E enquanto esperava, ele se aproximou e perguntou, de modo simpático. - Talvez o mundo acabe hoje – ele disse, com um sorriso. Ela olhou em sua direção e mal acreditou que ele havia, pela segunda vez em uma mesma semana, iniciado uma conversa com ela – Tem razão. Se chover todo esse cinza, aí estamos afogados. Literalmente. Ele sorriu novamente, um sorriso ainda mais bonito do que o primeiro e perguntou - Vai esperar a chuva? Talvez ela demore a chegar e a ir embora. - Vou esperar sim. Com certez
TODA VIAGEM TEM UM FIM? Nada. Ele não podia fazer nada. Ele não podia fazer nada, muito embora desejasse fazer tudo, inclusive dar a sua própria vida a ela. Mas isso já era demais. Ele apenas podia olhar para aquela garota deitada em sua cama e pensar porque raios ela havia chegado àquele estado. Ela estava lá, literalmente desacordada em sua cama. Desmaiada como se estivesse praticamente morta. Mas não estava. Estava viva. Estava nua. Mas isso não era bom. Nada bom. Não era mais agradável ver o seu corpo nu. As marcas agora ficavam visíveis e visíveis e visíveis e isso era um inferno para ele. As marcas roxas no braço. O pus. O sangue batido. As marcas da borracha no antebraço. As marcas das picadas por todo o lado. A palidez mórbida do seu torso. A palidez mórbida da sua face. O sangue seco grudado em seus lábios. As unhas sujas dos pés e das mãos. O cabelo mal cortado, mal cuidado, mal lavado. Sujo. Feia. Ela estava feia. Feia demais. Feia como nunca ele imaginou que ela pud
Por Favor, Use os Headphones "Dead Leaves And The Dirty Ground" (The White Stripes) Ele pegou, sem o menor cuidado, todas as suas roupas daquela porra de armário velho. As velhas camisetas de banda, as velhas bermudas rasgadas, os jeans já quase brancos e castigados pelo uso absurdo, enfim, tudo o que costumava vestir. Jogou tudo de uma vez dentro da pequena mala com cheiro de naftalina e excesso de pó acumulado pelo pouco uso. Abriu uma gaveta e sacou uma pilha de revistas antigas. Pegou seus livros, pegou parte dos cd´s. Pelo menos os que sei que são meus – pensou. Parou próximo a porta e jogou a mala com raiva no chão. Havia esquecido as fotos. Abriu um baú antigo, e procurou por alguns álbuns antigos. Olhou algumas fotos e fechou a porra do baú com força. Desistiu de levar qualquer foto. Queria simplesmente apagar qualquer foto dos últimos três anos. - Você vai mesmo? – ela perguntou, aborrecida e visivelmente entediada. - Posso? – ele respondeu, ríspido.
ABSOLUTE BEGGINERS Ela estava linda. Não. Ela era linda... essa é a verdade... Tinha cabelos totalmente pretos e ligeiramente ondulados, que brigavam, de modo violento, com os seus olhos verdes pela atenção de quem a observava. E não eram poucos os que faziam isso. Definitivamente não eram poucos. Ela sempre ia ao Clube Varsóvia e ficava lá, a noite toda, dançando e bebendo e fumando e dançando e bebendo e fumando, numa espécie de misterioso ritual de celebração, numa espécie de misterioso ritual particular. Ritual habitual. Nunca a vi conversar com alguém, apesar de ir quase todos os finais de semana ao Clube. Seus olhos não demonstravam qualquer simpatia ou antipatia em relação a nenhum dos demais freqüentadores do local. Ela apenas ia para se divertir, e deixava bem claro isso. Bem claro. E assim eram todos os dias. Exceto aquele... Naquele dia, em especial, ela estava lá, no Clube Varsóvia, linda como sempre. Tinha as unhas pintadas de preto. A maquiagem pesad
MANHÃS DE VODKA, BEIJOS E ESTÓRIAS DE AMOR Ele acordou de repente e olhou para o relógio, lento. Verificou que já era quase cinco e meia da manhã. Pôde ouvir as gotas da chuva pesada que explodiam na janela, como querendo transformá-la em um oceano de estilhaços. Resolveu que já era hora de levantar. O fez sem muito barulho. Foi até o banheiro e na volta ficou parado, em pé, observando aquela mulher linda que dormia profundamente na sua cama. Ela era realmente muito bonita. Tinha os cabelos pretos como um show do Bauhaus. Seu corpo nu era espetacular. A tatuagem estilizada nas costas era tímida e de impacto. De alto impacto. Muito boa – ele pensou. Continuou lá, parado, observando aquela mulher dormindo e mal podia acreditar que, depois de muito tempo, ele finalmente acordava feliz. Muito feliz. Pensou que esse era um bom motivo para uma comemoração. Mais um dos inúmeros brindes solitários que ele adorava dar. Foi até a cozinha e sacou a garrafa de vodka do congelador. Que se
QUANDO AS PÍLULAS ROSAS JÁ NÃO FAZEM MAIS EFEITO Ela tomou o primeiro táxi que apareceu. Absolutamente transtornada. Seus olhos estavam vermelhos e borrados, muito borrados, dando uma clara demonstração de que aquela tarde não tinha sido fácil para ela. Nada fácil. O taxista percebeu todo o desespero naquela moça bonita, de cabelos vermelhos, totalmente despenteados, olhos azuis como a tristeza e pele branca, branca como alguma espécie de sonho. Ela pediu, respirando com dificuldade, que ele a levasse até a Consolação. Ele nada disse e pôs-se a observar, pelo espelho retrovisor, todo o desespero daquela moça. - Quer que eu ligue o rádio? – o taxista perguntou, em voz baixa, sem querer incomodá-la – Às vezes distrai. - Como quiser. Posso fumar? – ela retrucou. - Claro. Fique à vontade. Enquanto observava pelo retrovisor aquela moça de unhas pintadas com esmalte preto acender o seu cigarro, o homem ligou o velho rádio do seu carro e sintonizou a primeira emissora que en
MENTIR É FÁCIL DEMAIS - Você sabia que o Jim Morrison, vocal do The Doors, cantava de costas para a platéia no início da carreira? – ele perguntou a ela, com um olhar divertido. - Não creio. Qual o motivo? – ela disse, interessada. - Timidez. Você acredita? Um sujeito daquele, vocalista de uma banda bacana, cantando de costas para a platéia por causa de timidez...inacreditável. - Oras, timidez independe de beleza, de sexo, de qualquer coisa – ela questionou. - Eu sei. - Veja você, por exemplo – ela disse, acendendo um cigarro – Você É tímido. Desde os tempos mais remotos da primeira série, quando eu te conheci, até hoje, você sempre foi tímido. Ele ficou desconfortável – Mas isso nunca me impediu de conseguir as coisas que eu quero. - Nunca? – ela perguntou, desafiadora. - Nunca – ele retrucou, enfático. - Tá. E a Marcinha, aquela do inglês, ela era completamente louca por você e você por ela, mas você nunca foi lá e disse que queria ficar com ela. - Você está complet
PALAVRAS ALHEIAS (...OU QUEM NÃO VIVEU ISSO?) Existe algo de errado em ser solitário, em sentir solidão. Mas nem sempre é assim, pode ser sustentável e coerente sentir-se só as vezes. Ela sempre tinha sido uma garota muito popular, cheia de amigos legais que iam a lugares legais. Vivia rodeada de pessoas, todos sempre queriam sua companhia, afinal, ela era divertida, e era mestre em arrancar risadas e sorrisos de quem estivesse ao seu lado. O tempo foi passando, e ela ficando menos feliz, e menos sorridente. Tinha razões para isso. Mas não queria falar. Dividiu sua aflição com um amigo, o mais querido de todos, que apesar de ter entendido seu problema não tinha como solucioná-lo. Mas poderia ajudá-la, sem dúvida. Não se esforçou muito para amenizar as dores da amiga. Mal sabia, que um simples convite para um cinema, uma volta no shopping qualquer banalidade, a faria sentir mais viva, e importante. Engraçado, qdo ela não estava em condições de divertir as pessoas, elas se foram.
QUANDO CAMINHAR SOB A CHUVA MOLHA ALGO MAIS DO QUE OS PÉS Você é uma inútil. Você não sabe nada da vida. Pensa que tudo vai acontecer do jeito que você imagina? Do jeito que você quer? Da maneira que você pensa que pode suportar? A vida, mocinha, é muito diferente do que você imagina. Você nunca viveu. Você não sabe o que é isso. Você acha que sabe tudo, mas não passa de uma criancinha mimada, sem a menor noção do mundo ao seu redor. Idiotinha presunçosa. Caminhando sob a chuva as palavras não saíam da sua mente. Ela ficava repetindo-as, repetindo-as, repetindo-as, como um efeito fade away em alguma guitarra distorcida. Aliás, sua vida tinha virado uma guitarra distorcida. Um som nada uniforme, nada melódico, nada bom. Sua vida tinha desabado. E lá estava ela, caminhando sob a chuva e carregando aquela maldita mala pesada, com parte dos seus dezoito anos de vida dentro dela. E as palavras iam e vinham, porém não abandonavam a sua mente. Não me diga que sabe o que quer, n
MEDO DO ESCURO Ela só vestia roupas pretas e coturnos encardidos e maquiagem escura. Adorava ser soturna. Adorava ficar por horas e horas cultuando o amor, a morte, as suas tatuagens de caveira, a sua música de sonhos, a chuva, o cair da noite. Adorava todas as coisas não convencionais. Rimbaud, Baudelaire, Masoch. Poemas sobre inquietação, amor, suicídio, sangue e morte. Adorava tudo isso até o dia de hoje. Hoje ela foi surpreendida. Ele disse que não queria mais vê-la, não queria mais saber de tudo aquilo, que precisava ficar sozinho. Ela não dormiu bem. Foi a primeira vez que teve medo do escuro.
PRIMEIRO DE ABRIL - Hey? – ela chamou a sua atenção. - Fale – ele respondeu, sem tirar os olhos da capa do cd que estava em suas mãos. - Você me ama? – ela perguntou. - Não – ele respondeu, tranqüilo, acendendo um cigarro e sem olhar em seus olhos. - Não? – ela disse, surpresa. - Não – ele confirmou – Pelo menos não hoje que é o dia primeiro de abril. - Idiota – ela disse, abraçando-o e desejando que o tempo congelasse, apenas para que ela pudesse ter, para sempre, aquele momento de felicidade.