28.7.18

O EQUILIBRIO ENTRE A RAIVA E O BEIJO


- Você é um otário. Um verdadeiro imbecil – ela gritou.
Ele não se mexeu. Ficou quieto, calado, acuado.
- Tem noção do que você fez sua anta? – ela prosseguiu – Ela “era” minha melhor amiga. Você é um idiota. Um tremendo idiota. Animal.
- Posso explicar – ele tentou falar antes de ser fulminado pelo olhar cáustico e odioso dela.
- Não, seu filho da puta. Não pode. Não tem o que explicar. Não tem. Simples assim.
- Mas...
- Mas é o caralho. Não é por estarmos na porra deste Clube Varsóvia que não posso te dizer o que você merece ouvir.
- Achei que fosse você – ele emendou.
- O quê? – ela respondeu.
- Achei que você fosse. As duas são ruivas e estão de preto. Lindas. Bebi muito e fiquei confuso. Quis fazer uma surpresa. Só isso. Surpresa de amor.
Ela o encarou com raiva e descontrole – Não acredito nesta porra de desculpa. Você é louco? Imbecil?
Ele não se mexeu. Ficou quieto, calado, acuado.
- Tem noção do que você fez?
- Tenho ele respondeu. Erros acontecem. Desculpa.
- Você é um otário – ela concluiu.
Mas era verdade.
E a tensão diminuiu.
E era verdade.
Ele era um otário, mas do bem.
Ela sabia disso.
E houve o equilíbrio entre a raiva e o beijo.
Apenas o equilíbrio.
Entre a raiva e um novo beijo.
Muitos novos beijos...



APENAS MAIS UMA TARDE... APENAS MAIS UMA TARDE...


Ela gostava de provocar e seduzir.
Ele não.
Não mesmo.
Odiava sentir-se provocado e seduzido.
Tédio e raiva.
Ainda mais aos sábados a tarde.
Ainda mais...
Mas a amava ainda assim.
Sabendo da maldade dela.
Mesmo sabendo da maldade dela.
Ela gostava de provocar e seduzir.
Ele não.
Não mesmo.
Ela se gabava de ler todos os seus textos e apontar erros, mas nunca o fazia.
Nunca.
E ele sabia disso.
Sabia.
Definitivamente.
Não havia leitura.
Nenhuma.
Nenhuma.
E ele não se incomodava.
Não mesmo.
Não importava mais.
Ela gostava de provocar e seduzir.
Ele não.
Não mesmo.
E sozinho naquele bar, tragando seu milésimo Marlboro ele percebeu que era apenas mais uma tarde.
Mais uma tarde.
Como todas as outras.
Como todas as outras tardes inúteis que ele sempre teve.
Todas as tardes de sábado.
E tocava Cólera no alto falante daquele boteco.
Ironia.
Pura ironia.
Mas ela não viria.
Definitivamente não.
Definitivamente não.
Nada demais.
Nada demais.
Apenas uma tarde comum.
Como ele conhecia muito bem.
Muito bem.



27.7.18

SORRISOS DE VELUDO (DEPOIS DOS AZULEJOS)


- Você gosta de umas músicas estranhas – ela disse, sem crítica, sem censura, sem senso, apenas em um tom de constatação. Um tom realmente de constatação, tentando entender quem estava ao seu lado - Não é possível não estar amando o que o DJ está tocando esta noite. Ele está perfeito como a lua cheia. Romântico, divertido, sarcástico, alegre. Se, por acaso, fossem aquelas porras de bandas “chuvosas” da Escócia, você estaria vibrando. Mas como eu gosto né? Você fica aí bufando como um velho.
- Ele apenas sorriu e concordou com a cabeça, impressionado em como ela o conhecia.
- Você é bem estranho – ela brincou – Tenho medo de você. Não uma coisa “Jason Voorhes”, Sexta Feira Treze, mas tenho medo de você. Definitivamente.
Ele deu uma gargalhada sonora com a brincadeira e disse – Medo? Medo de mim? Sou tão puro e sinceramente inofensivo – ironizou – Ninguém consegue ter medo de mim. Ninguém pode ter medo de mim.
- Por isso mesmo o medo. Pessoas assim assustam. Freak boy. Medo de gostar mais de você do que já gosto – disse.
Ficaram em silêncio se observando por alguns instantes. Mãos trêmulas, tequila e vontade de fumar e beijar.
Fumar muito.
Beijar muito.
Um ao outro.
- Tá cheio demais o Clube Varsóvia hoje, não? – ela mudou de assunto, esperta, enquanto acendia um cigarro.
Ele tomou um gole grande de tequila antes de emendar - Muito. Gente demais neste Clube hoje. E gente demais me dá preguiça, você sabe. Prefiro muito menos seres humanos ao meu redor. Muita gente cansa e atrapalha.
Ela sorriu do jeito ranzinza dele. Já acostumada e adorando. Ranzinza e romântico com a lua em Libra estampada no seu mapa astral e atraente com o ascendente em Leão. Eterno geminiano.
- Trouxa – ela respondeu.
- Ué? Não entendi. Preciso gostar de pessoas agora?
- Porra, de vez em quando é bom né? Pode ser bom gostar de pessoas. Você será menos amargo.
- Gosto de algumas pessoas. Já não basta? – ele provocou.
- Não entendi – ela respondeu.
- Sonsa. Detesto quando finge não perceber as coisas.
Ela sorriu linda demais.
- Sorrisos de veludo – ele disse enigmático.
- Como? – ela perguntou sem entender.
- Eu queria não estar aqui agora com você– ele falou.
- Não? – ela respondeu.
- Eu queria estar era em uma sala com azulejos coloridos, só nós dois, totalmente nus e fazendo amor como se não houvesse amanhã. Não haveria mais ninguém e o som dos nossos gritos ficariam eternizados nas entranhas dos azulejos. Apenas para nós dois. Apenas para nós dois.
Ela engoliu em seco diante da declaração apaixonada daquele filho da puta e, corada como uma cereja virou um copo cheio de tequila e matou o resto do seu Marlboro – Vamos pedir a conta? – pediu, com um sorriso no rosto.
- Com toda a certeza – ele respondeu – Gente demais me dá preguiça. Prefiro poucas e boas pessoas ao meu lado. Prefiro poucas e boas, como as bandas nebulosas da Escócia, como as bandas nebulosas da Escócia...



26.7.18

JIMI HENDRIX E SEU VIOLONCELO


Ele queria estar em um réveillon de 1996 ou sei lá que ano.
1996?
Tempo para caralho.
Para caralho.
Melhor escolher outro ano.
Outro réveillon.
Outros desejos.
Outros sonhos.
Mais novos, mais reais, mais concretos, mais palpáveis, apesar de que sonhos nunca são novos, reais ou muito menos concretos ou palpáveis.
São apenas sonhos.
Apenas sonhos.
Ele queria estar em algum lugar naquela noite.
Qualquer lugar.
Menos no Clube Varsóvia.
Palco de tantas bobagens dele e dela.
Cigarros mal tragados.
Bebidas mal tomadas.
Bobagens sonoramente bem ditas.
Sempre.
Mas ele estava lá.
Sempre lá.
Sempre no Clube Varsóvia.
Como sempre.
Ele queria estar em um réveillon de 2001 ou sei lá que ano.
2001?
Tempo para caralho.
Para caralho.
Melhor escolher outro ano.
Outro réveillon.
Outros desejos.
Mas ele estava lá.
Clube Varsóvia.
Para não variar.
Cenário de tantas bobagens dele e dela.
Dos dois.
Cigarros mal tragados.
Bebidas mal tomadas.
Bobagens sonoramente bem ditas.
Sempre.
E ele estava lá.
No Clube Varsóvia.
Como sempre.
E como diz aquela letra daquele velho rock “raiva é uma energia”.
Muita energia.
E ninguém toca violoncelo a toa.
Ninguém.
Raiva é uma energia.
E os violoncelos também.
Outro réveillon.
Outros desejos.
Nenhum outro violoncelo.
Mas ele estava lá.
Clube Varsóvia.
Cenário de tantas bobagens dele e dela.
Dos dois.
Cigarros mal tragados.
Bebidas mal tomadas.
Bobagens bem ditas.
Acordes mal tocados.
Sempre.
E ele estava lá.
No Clube Varsóvia.
Como sempre.
E a chuva caindo lá fora.
E ele?
Bebendo vodka e querendo, na verdade, saber tocar guitarra, mas sem guarda chuva, as usual.
Sem guitarra e sem guarda chuva.
Sozinho como sempre.
Como sempre.




COMO NAMORAR UMA PIANISTA


Ela era cheia de dedos nas mãos.
Repleta deles.
Repleta.
Muito mais do os nossos dez dedos.
Muito mais.
Dedos que tocavam, que acariciavam, que deslizavam.
Arrepios.
Umidade.
Suor.
Arrepios.
E naquela cama fofa e velha do quarto do Hotel Varsóvia ela adorava sentir o seu perfume, o seu cabelo macio, a sua pele lisa.
Duas meninas lindas.
Lindas.
E Clara era cheia de dedos nas mãos.
Repleta deles.
Repleta.
E Carol era cheia de cordas no corpo.
Repleta delas.
Repleta.
E nem as surradas cortinas do Hotel Varsóvia ou o carpete velho ousavam corar.
Não ousavam.
De forma alguma.
Apenas assistiam e aplaudiam em silêncio.
A plenitude do amor.
A plenitude do gozo.
A plenitude de tudo.
Em forma de dedos, acordes, cordas e muito, mas muito amor.
Como namorar uma pianista não é difícil.
O que se deve é namorar a quem se ama.
A quem se ama de verdade.
De verdade.
Como uma sonata húngara do século XIX.
Apenas isso.
Apenas...




E SE EU NÃO SENTIR SAUDADES FAÇO O QUE?


Ela não sentia mais saudades.
Nenhuma.
Nenhuma saudade.
Do que viu, do que ouviu, do que viveu, enfim, dele.
Apenas sem mais saudade.
Principalmente dele.
Do que ele foi.
Do que ela foi.
Do que eles foram.
Beijos bem grudados.
Roupas bem arrancadas.
Palavras mal sussurradas.
Sem saudades.
Sem saudades do que eles foram.
E ainda eram.
Mas, na verdade, ela ainda tinha uma saudade escondida.
Saudades dela mesma.
A menina charmosa de cabelo colorido e repleta de esperança que ela sempre foi.
Que ela sempre foi.
Antes de o coração se destroçar.
Sem saudades?
Fazer o quê?
Tomar uma bebida e fumar um bom cigarro.
Ainda mais numa noite de chuva no Clube Varsóvia.
Ainda mais assim.
Numa cinzenta noite de chuva no Clube Varsóvia.
Apenas sem saudades...
Sem saudades...
E enquanto isso as meias coloridas voam janela abaixo.
...
Janela abaixo.


19.7.18

E SE EU SENTIR SAUDADES FAÇO O QUE?


Ela sentia saudades.
Muitas.
Muitas saudades.
Saudades do que viu, saudades do que ouviu, saudades do que viveu, saudades dele.
Apenas saudades.
Saudades dele.
Do que ele foi.
Do que ela foi.
Do que eles foram.
Saudades de beijos bem grudados.
Saudades de tirar a roupa sem nem contar até dez.
Saudades.
Mas, na verdade, ela tinha saudade era dela mesma.
A menina charmosa e repleta de esperança que ela sempre foi.
Que ela sempre foi.
Antes de ele a destroçar.
E se sentir saudades?
Fazer o quê?
Ligar ou escrever para quem sempre te admira.
Sempre e sempre te admira.
Ainda mais numa noite de chuva no Clube Varsóvia.
Ainda mais assim.
Numa cinzenta noite de chuva no Clube Varsóvia.
Apenas saudades...
Saudades...



16.7.18

CHRISTINE DISSE. APENAS DISSE


Christine...
E ela lia com encanto aqueles pequenos contos. Aquelas pequenas bobagens.
Por muito tempo.
Muito tempo.
Religiosamente.
Desde quando era solteira e vivia em seu quarto repleto de pelúcias e computadores lentos e velhos.
Velhos mesmo.
Outro mundo.
Outro universo.
Sonhos, namorados, desilusões, ânsia de viver, ou seja, tudo...
Tudo.
Mas a vida muda.
Muito.
E hoje... ela é feliz.
Muito feliz pelas escolhas que fez, pelo filho, casamento o cacete a quatro.
Ele?
Um velho bobo que ainda fumava e bebia no Clube Varsóvia madrugada adentro tentando entender a razão de ter perdido o email de Christine.
Ter perdido o seu email.
E Christine disse, apenas disse, que sonhos não ficam muito velhos, apenas mudam.
Mas... a vida é assim.
Ela?
Adorável.
E muito gentil
Ele?
Um bobo que ainda escrevia em pequenos pedaços de guardanapos no Clube Varsóvia ao som de sabe lá que banda.
Adorável desencontro.
Mas muito triste desencontro.
Muito.
Mas ele traga um cigarro com um sorriso no canto do rosto.
Um grande sorriso.


FRIOS COMO O MAR


Frios.
Apenas frios.
Frios e distantes.
Distantes e azuis.
Muito.
Muito azuis.
Olhos azuis, longos e lindos.
Mas frios.
Frios como o mar.
Lacônicos.
Como o mar.
Como o mar.
E naquela mesa do Clube Varsóvia ele apenas percebia isto.
Entre uma tragada e outra.
Apenas os lindos olhos azuis e frios.
Dando adeus.
Apenas dando adeus.
Apenas adeus.
Frios.
Olhos azuis, longos e lindos.
Frios.
Frios como o mar.
Como o mar.
Olhos azuis, longos e lindos.
Mas frios.
Frios como o mar.
Um adeus.
Apenas isso.
Um adeus.
Deve ser amor.
E dor.
Muita dor.
Muita dor e muito adeus.
Muito adeus...



9.7.18

RETRATOS ANTIGOS ou BRIGADEIROS E BLOGS


Brigadeiro Tradicional
Ingredientes:
1 lata leite condensado
1 colher de margarina
2 colheres de chocolate em pó
Modo
de preparo:
Misturar tudo, levar ao fogo e ir mexendo até aparecer o fundo da panela. Pronto!
Depois de frio, é só enrolar e passar no chocolate granulado.


...

Ela tinha várias paixões na vida. Os brigadeiros, as suas músicas, os seus contos e muito mais.

Muito mais.

Mais do que qualquer outra coisa, comer doces, beber e escrever era o que realmente a fazia feliz, satisfeita, alegre, enfim, viva, numa espécie de delicioso alive and kicking particular.

Os brigadeiros ela amava desde que se entendia por gente. De qualquer tipo ou forma, cor ou recheio. Tais doces serviam como uma espécie de inspiração ao que ela escrevia. Preparava os seus próprios conforme receita de Letícia, amiga do colégio, cuja mãe trabalhava em uma doceira perto de onde estudavam. Era uma fórmula simples. Fabulosa. Até ela, uma completa nula na arte culinária, era capaz de prepará-los, sem maiores dificuldades.

Os contos, bem, os contos eram o seu mundo, a sua real vida, a sua forma mais peculiar de expressão. Não conseguia demonstrar os seus sentimentos de forma tão segura que não escrevendo. Talvez essa fosse a principal razão dos seus incontáveis fracassos amorosos. Um após o outro. Um após o outro. Desencontros de informação.

As canções?

Ela amava. Guitarras altas e acordes desafinados. Baterias tresloucadas.

Ela sempre pensava como é curioso ninguém ter uma fórmula para sexo e relacionamentos, assim como existem fórmulas e mais fórmulas para se fazer brigadeiros e música, por exemplo.

E era sempre assim.

- Porque está me convidando? Eu mal te conheço – ele perguntou surpreso, na sempre lotada cantina da faculdade.
- Ora, vamos. O show será bom. Você não me é tão desconhecido assim. Estudamos na mesma turma. Sei o seu nome, sei que adora café com creme e sei que esta é uma das suas bandas prediletas. É um bom começo, não é? – ela perguntou ainda incrédula com a sua inédita iniciativa.
- Tem razão. É que eu não estou mesmo acostumado com tamanha gentileza – respondeu com um sorriso, tentando não parecer arrogante.
- Na pior das hipóteses – ela completou – se o show não for bom, podemos tomar uma bebida depois. Nem tudo pode ser perdido
- Está bem. Encontramos aonde?
- Tem uma padaria na esquina do lugar e podemos nos encontrar lá meia hora antes do show, que tal? - ela sugeriu, torcendo para que ele não percebesse o nada ligeiro tremor no canto de sua boca.
- Certíssimo - ele concordou.
- Perfeito. A gente se vê, então.
- Até mais.

Despediram-se com um leve beijo no rosto. Quando ele não estava mais ao alcance do seu olhar ela quase chorou. Estava absolutamente feliz por ter, depois de um milhão de planejamentos, tido a coragem de se aproximar e convidá-lo sem parecer muito idiota.

Meia hora antes do show, lá estava ela sentada junto ao balcão daquela apertada padaria, linda, maquiada e com os cabelos levemente desarrumados, fumando um cigarro após o outro e tomando goles descompassados de uma cerveja barata qualquer. Sentia-se como o próprio Lou Reed à espera do seu homem.

Só que ele não veio. Dez, vinte, vinte e cinco, trinta, quarenta, cinquenta, oitenta minutos se passaram e ele, simplesmente, não veio. A padaria já estava completamentre vazia. Todas as poucas pessoas já haviam entrado no show que, a esta altura, já deveria estar na sua metade.

Ela pagou pelas cervejas e entrou direto no primeiro táxi que encontrou. Riu como uma insana, apesar dos olhos profundos, quando percebeu que o taxista estava com o rádio ligado ouvindo Heaven Knows I´m Miserable Now, dos Smiths. Achou a situação tão inimaginável que se pôs a rir e a rir e a rir.

In my life, why do I give valuable time, to people who don´t care if I live or die...

Assim que entrou em casa foi direto em encontro a geladeira. Ela já sabia que iria escrever muito durante a noite. Muito mesmo. Pegou vários doces. Preferia ficar em silêncio, escrevendo e se inspirando, com seus brigadeiros e seus blogs. Somente com seus brigadeiros e seus blogs.

E os retratos?

Apenas guardados.

Apenas guardados e na memória dela.

Bem guardados.

Bem guardados ...