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Mostrando postagens de 2008
PAPEL MOLHADO

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- Você vai? - ele perguntou.
- Talvez. E você? – ela devolveu, ansiosa.
- Não sei. Gosto da Lu e tals, mas ainda não sei.
- Vá! – ela pediu – Vou gostar disso.
- Devo? – ele perguntou.
- Claro. Acho que deve. Mas você decide.
- Bem, então ta. Nos falamos.
- Ok. Besos – ela respondeu e desligou o telefone.

A festa rolava demente no Clube Varsóvia. Pessoas de todo o tipo, cores, tamanhos e desejos comemoravam, bebiam, celebravam. Todos pelo aniversário da Lu.
Ela?
Ela aguardava ele.
Ele?
Não chegava.
Ela bebia vodka.
Ele ainda não chegava.
Ela fumava cigarros e maconha.
Ele?
Claro que não.
Ao final da noite, ela estava exausta. Bêbada e cansada. Exausta por esperar demais pessoas erradas. Cansada de errar. Errar tão fodidamente feio.
E ela decidiu ir embora do Clube Varsóvia.
Lá fora, a chuva estava infernal.
Imprudente, entrou no carro toda molhada e ensopou os bancos sujos. Tão de saco cheio, ela sequer percebeu o bilhete pardo dissolvendo-se no seu pára-brisa. Ligou o limpador f…
DESENHOS RASGADOS

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- Para mim? – ela perguntou, tímida.
- Sim – ele respondeu, sério.
- Abro agora? – ela perguntou novamente, segurando nervosamente o envelope em suas mãos.
- Não – ele respondeu, áspero.
- Não?
- Prefiro que não. Poupa constrangimentos, não?
- Ok. Faça-me um grande favor também. Abra o seu depois, tá? Em casa.
Ele concordou com a cabeça – Tá bem.
- Então ficamos assim? – ela perguntou.
- Sim. Ficamos assim – ele disse, evitando olhar para ela.
- Posso te dar um beijo?
- Claro – ele respondeu, abraçando e apertando os seus lábios contra os dela.
E o beijo acabou.
E ele virou e foi embora.
Sem olhar para trás.
Assim que ele saiu do apartamento, ela, trêmula, abriu o envelope.
O desenho era lindo.
Um coração partido sobre carvão e nanquim. Um coração devastado e partido. E uma frase curta: be happy | good luck.
Ela apertou o desenho contra o peito e chorou e chorou e chorou como se – definitivamente – não houvesse amanhã.
Assim que entrou no elevador, ele abriu o pequeno envelop…
CARVÃO | CLEPSIDRA (O TEMPO NUNCA SE PERDE)

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- Desenha algo para mim? Ela pediu, doce e tranqüila.
Ele sorriu lindo e disse – Claro. Desenho. O que a Senhorita deseja que eu rabisque?
- O que você quiser. O que te inspirar em mim. Qualquer coisa.
Ele pegou o carvão e começou a rabiscar um pedaço de papel verde que estava “largado” sobre a mesa.
Ela ficou em silêncio e olhou para ele. Acendeu um cigarro.
Ele desenhou por breves instantes, concentrado, e terminou. Abriu um sorriso imenso após jogar o carvão sobre a mesa.
- Pronto – ele disse.
- Pronto? Rápido assim?
- Exato. Rápido assim.
- Posso ver? - ela pediu, curiosa.
- Claro que pode. Mas daqui a pouco, daqui a pouco – respondeu.
- Quero um conhaque – ela pediu.
- Ótima idéia. Cigarros e conhaques combinam demais.
- E na companhia de moços lindos, combinam mais ainda – ela emendou, esperta.
- Moços lindos? – ele perguntou. Surpreso por ouvir algo assim da parte dela. Sempre tão cool, sempre tão alternativa.
Ela, por sua vez, sorriu como …

POSTCARDS

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Querida Nina,
Espero que você esteja bem. De verdade eu espero.
Espero que todos os seus sonhos, desejos, vontades, tesões, delírios, viagens, enfim, toda a sua VIDA esteja – definitivamente – da forma como você sempre quis, sempre sonhou, sempre imaginou. Como está o curso de fotografia? Bom? Ainda está fazendo? Você tinha talento para isso,sabe? Sempre soube disso, porém nunca disse diretamente a você. Nunca te disse o quanto você era boa em tirar fotografias, retratos, enfim, tudo o que se refere a isso. Talvez tenha sido medo de te perder para a vida (o que acabou rolando), talvez tenha sido mero despeito pelo fato de eu não ser bom em absolutamente porra nenhuma. Absolutamente porra nenhuma. Péssimo escritor, péssimo ator, péssimo músico, péssimo homem, péssimo estudante, péssimo caráter, péssimo ouvinte, péssimo companheiro, péssimo amigo, pés... tá, tá bom, posso escutar sua voz aguda dizendo “Pára com esta auto-comiseração, caralho. Você não é tão importante assim.…
MILAGRES E NOITES DE VERÃO

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- Lá vai – ela gritou enquanto arremessava a garrafa na parede, meio “bebinha”, meio “zonza”, toda alegre. Higher than the Sun. Breakfast Club.
Ele apenas sorriu.
- Mais uma, yeaaaahhh – ela gritou de novo, antes de arremessar a segunda garrafa long neck de cerveja na mesma parede.
- Deste jeito os vizinhos vão reclamar, chamar a polícia, nos bater, sei lá – ele disse. Disse só para registrar, pois, na verdade, ele pouco se importava com as conseqüências daquilo tudo.
Ela olhou para ele de uma forma divertida e adoravelmente negligente. A mesma forma divertida e negligente que ele estava tão acostumado a curtir ao longo daqueles mais de cinco anos de amizade e delírio.
– Quer saber? Quero que os vizinhos se fodam – gritou e caiu na gargalhada – Olhe para nós. Olhe. Bêbados como qualquer coisa, hein? Bêbados e sentados numa quebradinha de uma vila escura, enquanto todos estão lá dentro bebendo, dançando, fumando, amando. Enquanto a festa come solta na cas…
APAGUE A LUZ, POR FAVOR?

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Então é assim que termina? – ele pensou, enquanto a chuva desabava sobre o seu corpo inerte. Ele estava só, parado em frente ao velho apartamento deles, no Centro Velho, apenas olhando o passado.
Acaba assim? Desta forma idiota? Eu aqui, parado como um imbecil na frente da minha ex-casa, debaixo de chuva torrencial e com uma mochila cheia de livros e fotos rasgadas?

- Quer ajuda, doutor? – perguntou o porteiro, sempre gentil - Está chovendo demais e o Senhor aí, parado na “trovoada”.
- Não, obrigado Carlos. Já estou indo – ele respondeu, seco – Já estou indo.

Ficou em silêncio por alguns instantes, apenas sentindo o sabor das lágrimas e da chuva. Após tentar acender um cigarro molhado, virou e foi embora de vez daquele lugar.

E foi embora para sempre do único lugar em que ele foi, por algum tempo, verdadeiramente feliz. O único lugar em que ele foi, por algum tempo, verdadeiramente apaixonado.

...

Mas, e como começa?

Começa com um toque, com um gesto, com um…
CAMILA´s KISSES

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O Clube Varsóvia!

Lá estava ela, uma vez mais, entrando no Clube Varsóvia.

Depois de todos estes anos. Depois de tanto tempo.

E para sua surpresa, as cores, as luzes, as pessoas, a fumaça, os bartenders, a pista, as cadeiras, o globo colorido, os cinzeiros setentistas, o veludo das paredes, enfim, tudo, mas todo o cenário dos seus loucos anos estava exatamente como sempre foi. Como sempre esteve.

Tudo no seu devido lugar. Tudo suspenso no tempo, no espaço, na vida.

Mas não exatamente.

Óbvio.

Óbvio que não.

Sempre é assim. As coisas mudam.

Tudo o que demora demais para ser revisitado, para ser relembrado, para ser retomado, muda.

E muda mesmo. Para valer.

De modo implacável, cruel e até mesmo rude.

Carrinho por trás com o jogador fora de jogo.

Fratura exposta e corte na carne alheia.

No player, no game.

No entanto, o curioso, no caso dela, é que o Clube Varsóvia estava REALMENTE igual. Exatamente como sempre foi.

Exatamente igual.

O que mudou, meus caros, o que realmente est…
O SAGUÃO DE PISO XADREZ

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- Tenso? - ela perguntou, divertida.
Ele sorriu, nervoso, mas permaneceu em silêncio.
- Tenso? - ela insistiu, com seu delicioso sotaque carioca, querendo “ouvir” dele, alguma reação.
- Claro que não - ele mentiu.
Ela deu uma risada alta, solta e deliciosa - Você mente mal, garoto, muito mal.
Ele olhou para o alto, como a buscar um auxílio divino de coragem que, definitivamente, não viria naquele momento.
- E você? - ele disse – Aonde está?
- Perto, muito perto - ela respondeu.
- Será? Será que não desistiu? Será que não decidiu nada diferente? – ele contra-atacou, querendo se sentir seguro.
- Você é tão tolo. Adoravelmente tolo e infantil.
- Infantil? Achei que não. Achei que fosse qualquer coisa, menos infantil.
- Pois é, as pessoas tem a mania de se enganar tão facilmente a seu próprio respeito
- Então, é isso? – ela perguntou – Você?
- Aonde?
- Atrás de você, rapaz.
Ela esqueceu o celular e pôde, finalmente, sentir a voz tão conhecida invadir de verdade o seu ouv…
DEDILHADO EM NOITE MOLHADA E FRIA
(não tão molhada e, também, não tão fria)

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A noite estava molhada e fria.
Não tão fria, para falar a verdade, e também nem tão molhada.
A impressão de umidade e gelo era menos real e mais fantástica.
Era conseqüência da chuva fina, porém intensa, que havia parado de desabar há pouco na cidade cinza.
O asfalto, palco, tornou-se brilhante, vivo e aceso. Um mosaico de cores e texturas. Um carrossel de delírios e reflexos.
Palco perfeito para putas, drug dealers, travestis, ingênuos, vividos, enfim, toda sorte de pessoas. Normais ou não.
O asfalto, ainda úmido, tornou-se espelho. Espelho de rostos desconhecidos, de desejos lascivos e impertinentes. Desejos típicos e comuns. Desejos devassos e sinceros.
Solidão e medo.
Medo da luz e do que se pode ver com ela.
Medo e desejo.
Enfim, a noite no centro velho da cidade cinza estava molhada e fria.
Não tão fria, para falar a verdade, e também nem tão mais molhada.
E ele, sozinho, da sacada pequena do seu apar…