21.2.20

COMO SE FOSSE FÁCIL ALIMENTAR CAVALOS-MARINHOS COM AS MÃOS


Ela ligou o som em volume adequado.
Uma música eletrônica e instrumental.
Desligou as torneiras e experimentou a água na banheira.
Tocou de leve a superfície com os seus dedos finos e longos e constatou que estava na temperatura pretendida.
Quente. Extremamente quente.
Com alguns fósforos acendeu poucas velas azuis e laranjas sobre a pia e sobre as bordas da banheira.
Deitou os fósforos de lado e olhou ao redor.
Ficou satisfeita com seu velho banheiro.
Ficou satisfeita com o ambiente.
Deixou cair sua camiseta larga no chão e entrou devagar na banheira, prontamente sentindo o calor percorrer o seu corpo de baixo ao alto.
Uma pastilha efervescente de sais de banho.
Recostou e relaxou percebendo o vapor que lentamente preenchia a atmosfera.
Ficou em paz por um instante.
Sozinha.
Enfim, só.
Respirou fundo e observou as velas coloridas acesas sobre o tampo da pia.
Cromoterapia barata e particular. Uma terapia que nos últimos dias em nada a serviu.
No entanto, ainda assim ela insistia.
Encostou a cabeça e acendeu um cigarro. Mais um naquela madrugada. Mais um naquela vida.
Tragou fundo e lentamente soltou a fumaça.
Respirou devagar e começou a fazer o que menos queria. O que ela menos desejava naquele instante.
Ela começou a pensar.
Começou a pensar e pensar e pensar e repassar todas as bobagens que havia dito nos últimos dias, nas últimas horas. Todas as cenas que causou e foi protagonista.
Começou a pensar nele e no que não devia ter dito.
Mais uma vez ela pôs tudo a perder e não conseguia suportar a lembrança das lágrimas dele.
Definitivamente não.
Ela foi cruel e má. E a perversidade deveria ter um limite na natureza humana, mas não. Para ela não. Não conseguia evitar, por mais que sofresse depois. Sofresse demais depois.
Minutos passados da sessão de autoflagelo deflagrada por seus pensamentos inevitáveis, acendeu ainda mais um cigarro e observou as suas velas coloridas ainda acesas, já quase alcançando as suas respectivas metades.
Suspirou.
Cromoterapia barata e falível.
Nada dos sentimentos de alegria e sucesso atrelados á cor laranja, tampouco nada de tranquilidade e harmonia atribuídos á cor azul.
Nada.
Apenas mais um cigarro e mais pensamentos.
Mais pensamentos.
Antes ela cometia os mesmos erros, mas conseguia enganá-los com suas pílulas e a contemplação aos seus imaginários azulejos de veludo.
Agora, não mais.
Agora não havia mais pílulas e tampouco azulejos de veludo, imaginários ou não.
Havia apenas os erros.
Erros que ainda se repetiam.
Ainda.
E ela estava exausta de errar. Bastante cansada.
Estava exausta de sempre tentar e errar a interpretação dos sinais que a bombardeavam a todo o instante. 
Começou a pensar nele e nos seus olhos lindos e escuros e a remoer o que não devia ter dito.
Palavras que nunca deveriam ter sido ditas.
Lágrimas que nunca deveriam ser causadas.
Sentiu-se mal.
Sentiu-se má.
Impotente e incapaz.
Ainda mais uma vez em sua vida.
Ainda mais uma vez.
Como se fosse fácil evitar.
Como se fosse fácil entender o que se sente.
Como se fosse fácil alimentar cavalos-marinhos com as mãos.







17.2.20

E O QUE ACONTECE QUANDO A CÂMARA CRIOGÊNICA DEIXA DE FUNCIONAR?



Do nada.
E ela olhou novamente para a tela azul do seu laptop e respirou fundo. Muito fundo e sem acreditar no que viu.
Muito sem acreditar no que viu.
Assustou e quase derrubou o seu copo de vodka estrategicamente posto ao seu lado. Estremeceu brusca os seus joelhos dobrados e quase derrubou o laptop que estava confortavelmente apoiado em suas coxas até então relaxadas.
Até então.
Até então, relaxadas.
Agora? Não mais.
Respirou fundo e buscou com a sua mão esquerda ligeiramente ansiosa o maço de cigarros que estava caído ao seu lado por sobre o gasto tapete cor carmim.
Tateou por instantes e encontrou a bendita caixa, sem sequer olhar.
Com a direita, correu o touchpad para cima e para baixo, lendo e relendo os nomes que pulavam na sua caixa de entrada.
Não acreditava no que acabara de ler.
Não.
Não acreditava.
Um nome.
Apenas um nome.
Aquele nome.
Deixou a seta pousada sobre ele e decidiu esperar antes de clicar.
Esperar.
Esperar?
Como se fosse possível.
Procurou aflita a caixa de fósforos e, assim que a localizou, puxou veloz e sem cuidado um fósforo qualquer, deixando cair ao menos outros sete ou oito por sobre o puído tapete carmim.
Acendeu o cigarro.
Ainda fumava mentolados.
Deu uma puta tragada e soltou.
A fumaça nervosa e tensa espalhou no ambiente e fez coro ao aroma das velas asiáticas (asiáticas?) que estavam acesas de um modo espalhado e desorganizado pela pequena sala.
Esperou para abrir a mensagem.
Não acreditou que ele havia escrito.
Definitivamente não acreditou.
Sentiu um tremor em seus lábios e sentiu o gosto do batom de cereja que ainda resistia naquela altura da madrugada.
Batom de cereja com um sabor incrivelmente amargo naquele instante.
Demasiado amargo, porém gostoso.
Não acreditou que ele havia escrito.
Definitivamente não acreditou.
Deu uma tragada ainda mais forte em seu cigarro mentolado e levou a mão livre à cabeça.
Cabelos soltos.
Bagunçados.
Nervosos.
Sabia que, ao clicar naquele nome em negrito estampado na caixa postal à sua frente, estaria abrindo uma verdadeira mensagem de um náufrago. Uma verdadeira message in a bottle, absurdamente improvável nos dias atuais.
Improvável.
Definitivamente.
Sentiu-se em um filme de ficção barato dos anos cinquenta, com máquinas do tempo vagabundas, alienígenas freaks, cientistas loucos e câmaras de criogenia insensatas que insistem em manter congelados por anos, ou mesmo décadas, alguns miseráveis astronautas insensatos e aventureiros.
Uma máquina de criogenia.
Isso.
Uma câmara de criogenia.
A definição perfeita para aquela mensagem.
Uma câmara de criogenia, porém como quase tudo em sua vida, uma máquina quebrada.
Bastava abri-la para o astronauta acordar.
Bastava isso, destampar a garrafa ou abrir a máquina, como queira.
Ela?
Ela permaneceu sentada sobre o seu tapete carmim com o laptop apoiado em seus joelhos, tragando o seu cigarro e apreciando a sua vodka barata, simplesmente sem saber o que fazer.
Apenas sem saber o que fazer.
O clique?
O clique... bem... dependia dela.
Bastava apenas um clique...
A câmara já estava quebrada...