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Mostrando postagens de Maio, 2004
PERFUMES QUE ESCAPAM (QUANDO SEUS VIDROS SE QUEBRAM) O bar estava lotado. Bem, na verdade ele estava mais do que lotado, ele estava no limite do suportável. No limite tênue do suportável. Cheio de pessoas, risadas, sorrisos, bebidas, cigarros, sonhos, mentiras, verdades, desejos, frustrações, energias, música, perfumes, perfumes, perfumes, perfumes... Ele estava encostado no balcão, tomando uma cerveja qualquer. Não era, com certeza, o dia mais feliz da sua vida. Ele estava sozinho e cansado de pensar em todas as besteiras e bobagens que disse e ouviu dela. Todas as besteiras e bobagens que ambos fizeram. Cúmplices num amor descuidado, cheio de rastros, lágrimas, decepções, mas muitos, muitos sorrisos. Ele olhava a multidão e não sabia direito, a razão de estar encostado no balcão daquela espelunca de bar. Melhor do que ouvir baladas tristes no aparelho de som da sala – ele pensou, sem firmeza. De repente, em meio a toda aquela vida que girava ao seu redor, ele sentiu um
HOTEL VARSÓVIA Vitória abriu os seus pequenos olhos cinzas e viu o que mais parecia ser um sonho. Um delicioso sonho de inverno. Um delicioso sonho. Adorável e apaixonante. Isabela estava com o seu corpo esguio e lindo totalmente nu, em pé, ao lado da pequena janela daquele vermelho quarto de hotel, segurando um Gitannes com a mão direita e um copo de vodka com a esquerda, no qual dava suaves e lentos goles com os seus lábios grandes, firmes e vivos, enquanto apreciava Varsóvia. Vitória abriu os seus pequenos olhos cinzas e mal acreditou no que estava acontecendo. O que ela via diante da janela daquele quarto de hotel vermelho era o vulto suave e frágil de uma garota linda. Linda. Linda de verdade. Não podia ter essa sorte, pensava, pois Vitória era, de fato, apenas simpática, o que, convenhamos, é um adjetivo bastante peculiar e ingrato, utilizado apenas para evitar o constrangimento da utilização da palavra “feia”. Mas isso em nada impedia o seu sonho e pouco impor
VOLÚPIA (AINDA EXISTE ESSA PALAVRA?) - Você viu? - ela perguntou, apontando para o céu. - O quê? - ele disse, curioso. - Uma estrela cadente. Ele procurou pelo céu, mas não viu nada. - Já sumiu, seu bobo - ela disse. - Fez um pedido? - ele perguntou. Ela sorriu e lhe deu um beijo enorme, molhado, cheio de paixão e excitação e volúpia (como se ainda estivesse em uso tal palavra) - Fiz sim. - Será que vai ser atendida? - ele provocou. - Depende de mim - ela retrucou e sorriu e lhe deu um outro beijo enorme, ainda mais molhado, mais cheio de paixão e excitação e volúpia (como se ainda estivesse em uso tal palavra)...
RISCANDO CALENDÁRIOS VELHOS, GRUDADOS COM DUREX EM PAREDES ENGORDURADAS DE COZINHAS SUJAS Ele estava furioso. Furioso como ninguém nunca o viu antes. Furioso como nem ele próprio acreditava que pudesse ficar. Furioso com todas as merdas que havia feito. Furioso com a falta de cigarros em casa. Furioso com a falta de dinheiro no bolso. Furioso com a tequila barata que restava no fundo da garrafa. Furioso com o maldito cheiro do incenso que invadia as suas narinas, vindo do pardieiro em que sua vizinha morava. Furioso com a falta de perspectivas. Furioso com a falta de emprego. Furioso com o tédio. Furioso com sua idade avançada. Furioso com todos os seus fracassos. Furioso com a ausência dela. Furioso com ele. E, assim, de repente, ele deixou de lado toda aquela “fúria”, apenas para sentar no chão sujo da sua casa e sussurrar baixinho uma canção de amor. Love Kills . Canção de bêbados e de vagabundos e de notívagos sorrateiros, que amam mais do que podem suportar. Sussurrar a
ANA/RAFA - Tomei uma decisão – ela disse, feliz, encarando-o com seus olhos claros e com seus sorrisos todos. - Qual? – ele arriscou, com medo. - Te beijar – ela disse, deixando todo o medo de lado e fazendo o que mais queria, desde aquele dia.
ANALGÉSICOS PARA... QUALQUER TIPO DE DOR - Você acredita em Deus? – Olívia perguntou à Sofia. - Deveria? – a amiga respondeu. - Não sei. Não sei mesmo. Não sei se esse tipo de coisa resolve nesse momento. Não mesmo. Aliás, não sei e nem tenho a mínima idéia do que pode ser analgésico nessas horas. Sofia encarou Olívia e disparou, rápida – Talvez o barulho das ondas do mar. Que pensa? - Agora, querida? – Olívia perguntou. - Já! - Então... ...e saíram daquele quarto fechado, deixando para trás cigarros apagados, fotos rasgadas e memórias embaraçadas. Memórias de amores impossíveis, de garrafas quebradas e de assuntos de meninas.
CORES (AZUL, AMARELO, VERMELHO, VERDE...) A sensação de calor e tédio predominava naquela sala de aula. Calor insano. Tédio insano. Noite insana. As palavras da pessoa em pé diante de todos aqueles alunos soavam como nada aos seus ouvidos. Soavam tão interessantes quanto nada. A sensação de calor e tédio que predominava naquela sala de aula era insana e desumana. Mas ela estava lá. Como sempre, como todos os dias. Ela observava, curiosa, aquele garoto lindo de morrer que estava sentado próximo a ela, na última fila. Ela observava com muita curiosidade o movimento das suas mãos. Eram mãos firmes, jovens, lindas, rápidas, que faziam a caneta deslizar por sobre o caderno velho, como se fosse Fred Astaire. Ele desenhava a paixão. Ele desenhava o amor. Ele desenhava como se fosse possível uma caneta dançar uma linda canção de amor. Ela não imaginava o que ele estava desenhando. Não, ela não imaginava. Mas estava curiosa. Muito curiosa. Seus olhos não desgrudavam daquelas mãos
DEPRESSA, DEPRESSA Ela estava tão entretida, pedalando a sua bicicleta amarela, e também, distraída e distante e longe com os seus pensamentos e com os seus delírios habituais, que sequer teve como perceber o céu se tornar repleto de nuvens. Nuvens pesadas, de cor grafite, cinzas, distorcidas, lentas e prontas para desabar. Prontas para derramar toda a dor dos anjos. Ela estava tão entretida na sua própria tristeza. Quando as primeiras gotas começaram a cair sobre os seus longos cabelos ruivos, só então ela percebeu a tempestade. Inútil, pois já estava completamente ensopada, ela procurou um abrigo. A cidade estava deserta, como em uma espécie de delírio psicotrópico e, portanto, não foi difícil se ajeitar sob uma velha cabine telefônica, no melhor estilo Audrey Hepburn. Ela sorriu da própria ironia. Parada em frente a um telefone, sem ter para onde ir, sem ter para quem ligar. Pensou nele com muita tristeza. Sabia o número de cor. Sabia o maldito número de cor e saltea
lampejos de criatividade lágrimas lascas de cinzas caídas no blusão chuva lampejos provocados pelos raios raios provocados pela raiva raiva provocada pelas lágrimas lágrimas provocadas pela dor quem dera fosse eu o Todo-Poderoso para brecar a dor... quem dera... e o papel? continua em branco