12.8.20

NÃO HÁ MAIS O SUOR NAS MÃOS

 baseball game || woman

Silêncio.
O piano estava lá.
O piano estava lá posicionado à sua frente.
As mãos?
Quentes.
Ela estava com as mãos aquecidas como nunca.
Sensação agradável de calor.
Naquele instante, não havia nada em sua mente além de paz.
Muita paz.
Ela estava feliz e contente como há tempos desejava estar.
Há tempos.
Ela pensou em como havia lutado, brigado, gritado, escalado, desenhado, pintado, composto enfim, como havia feito tudo o que fez para estar lá naquela sala e naquele momento.
Para estar lá naquela sala, exatamente naquele instante e naquele momento à frente do seu piano.
O seu piano e a sua vida.
Muita desconstrução e, ainda mais necessária, muita reconstrução.
Ela deu um suspiro de alívio e sorriu de leve ao lembrar por um breve instante de tudo.
Um relance do passado.
Mas era passado.
Algo que não existia mais.
O presente, sim.
O presente é importante.
Sempre presente e, a partir da aquele instante, à sua frente.
Ao seu alcance.
Ela sorriu sem perceber e caminhou lenta em direção ao instrumento.
O reflexo na tampa das cordas do piano causado pela iluminação natural das velas espalhadas pelo ambiente era uma cena adorável.
Adoravelmente bela e emocionante a quem quer que a testemunhasse.
E ela não chorou.
Não.
Sentou-se ao piano, respirou em uma espécie de breve transe particular e pousou com delicadeza os seus dedos finos e longos nas teclas brancas e pretas do instrumento.
Os dedos começaram a correr.
Os pés descalços lentamente acompanharam o movimento das mãos e iniciaram uma dança junto aos pedais.
E ela tocou.
Tocou e tocou e tocou.
Muito.
E à medida em que mergulhou no som gritado e desabafado pelas cordas do piano, o seu corpo, em transe, produziu um espetáculo.
Belíssimo.
Ela dançou uma dança bonita, em que pés, mãos, cabelos e olhos fechados formaram uma coreografia de beleza e prazer.
Uma verdadeira celebração da vida.
Uma celebração do romance e do amor próprio.
Celebração da arte singular em que a sua vida se transformou.
E ela tocou.
Tocou e tocou e tocou.
Muito.
Quanto tempo durou?
Tempo?
E quem se importa?
O “agora” contido naquele momento era suficiente.
Muito mais do que o suficiente.
Muito mais.




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5.8.20

QUANTOS ACORDES TEM UMA BALADA?

 fazerdaze || little uneasy

- Você está tenso, né? – ela perguntou enquanto olhava para ele, todo encolhido no canto da sala, mexendo e brincando com o copo americano vazio nas suas mãos.
Ele parou o que estava fazendo e a olhou com certa seriedade e balbuciou – Tenso? – perguntou e prosseguiu agora em alto som – Tenso? Tenso? Claro que não. Não há razão para isso.
Ela sorriu e o compreendeu. Ficou em silêncio.
Ele apoiou o copo vazio sobre a mesinha de canto ao seu lado e se levantou.
Deu algumas voltas em círculo pela sala, esquecendo completamente o que ela havia dito anteriormente.
Completamente longe.
Distante demais.
Ela apenas o observava em silêncio, quieta e paciente.
Apenas esperando ele falar alguma coisa.
Apenas esperando.
- Então... – ele começou a falar, para na sequência emendar - Ah, esquece – concluiu, sem nada acrescentar.
Após alguns segundos ela falou - Não te entendo, sabia? – disse, em tom extremamente doce.
Ele parou e a encarou novamente e disse – O quê? O que não entende?
Ela sorriu e disse – Você.
Ele a olhou com surpresa – Eu? Você não me entende? – perguntou aflito.
Ela balançou a cabeça e foi taxativa – Não. Não te entendo.
- Posso saber a razão, senhorita que sabe de tudo? – ele perguntou com notável rispidez.
- Você não passou tempos, dias, meses e anos, me falando que queria fugir e fugir e fugir e mudar e ir para a Finlândia, Islândia, Groenlândia, cacetelândia, sei lá que porra de “lândia” para recomeçar? Não me enchia o saco com isso? Então? Agora que aparece a oportunidade, que te respondem da bolsa, que você vai ganhar uma grana e que não vai ter que lavar pratos para sobreviver, você não quer ir? Por medo? Simples assim? – ela concluiu com satisfação por ter acertado o ponto.
Ele a olhou quase com raiva por perceber como ela o conhecia, o entendia, o decifrava.
Como ela o conhecia tão bem.
- Na verdade é outra coisa – ele disse – Outra coisa. Não medo.
- É? – ela perguntou incrédula – O que é então, tão importante, que te impede de simplesmente pegar as suas coisas e ir embora. Cuidar da sua vida. Você que sempre quis isso. Não eu. Não eu! – ela quase gritou.
Ele a olhou tentando disfarçar as lágrimas gordas que começaram a formar em seu rosto e disse – Eu não posso te deixar aqui e ir sozinho.
- Não? – ela perguntou menos irritada.
- Não – ele completou – Não posso. Você ainda não toca Angie dos Stones no violão. Eu preciso te ensinar direito. Só saio daqui depois disso – disse firme, enquanto a envolvia em seus braços em um forte e tão carinhoso abraço.
Abraçada por ele, ela ignorou as próprias lágrimas que queriam nascer e esboçou um discreto sorriso ao lembrar, muito feliz, que teria tempo. Todo o tempo do mundo.
Ao lembrar, muito feliz, que até aquele momento jamais havia tocado um acorde sequer em qualquer violão em toda a sua vida.
Um acorde sequer.


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30.7.20

ERA O QUE FARIA LOU REED



Clube Varsóvia, duas e meia da madrugada.
Mais uma noite.
Mais um cigarro.
Mais um chato chegando perto.
- Oi – o garoto loiro disse, com aquela voz quase bêbada e mole, derretendo as sílabas.
A moça alta de preto nem o olhou e ficou em silêncio. Aproveitou e brincou com o seu cigarro entre os seus longos e espessos dedos antes de dar mais uma tragada naquele Marlboro.
- Oi – ele insistiu – E aí? Tudo bem?
Ela pensou um instante, desistiu do cigarro, pegou o copo cheio de gim à sua frente e tomou mais um gole.
Ausência de resposta em retorno. “Ainda bem que há um DJ no local” – ela agradeceu em pensamento.
- Ah, fala alguma coisa – ele pediu – Você é bonita, sabe? Bastante bonita.
Ela tomou ainda mais um gole, deixou o copo no balcão e se virou na direção do garoto loiro.
Depois de alguns momentos o observando, disse – Oi. Está tudo bem sim. Exceto o incômodo.
- É, realmente. Um incômodo. Também acho que o volume está muito alto hoje. O DJ devia perceber isso.
Ela não acreditou e deduziu que só podia ser a bebida.
Impossível falta de percepção.
- É. Tem razão – ela completou condescendente – O som está alto hoje – disse reparando um pouco mais no garoto loiro à sua frente, meio bêbado, quase derretido.
- Sabe de uma coisa? Eu já te vi por aqui no Varsóvia outras tantas vezes. Já percebi você sim.
- É? – ela perguntou curiosa – E...?
Ele gostou da curiosidade que supostamente havia provocado nela e respondeu – Você está sempre de preto. Sempre de preto e sempre bonita. Eu gosto.
Ela sorriu e perguntou – Gosta? Fico feliz. Às vezes não percebemos, porém gostamos do que não conhecemos. Melhor, do que ainda não conhecemos.
Ele a observou mais de perto e ofereceu mais uma bebida.
Ela recusou.
Ele insistiu.
Ela foi firme.
Ele desistiu e decidiu beber sozinho.
Prosseguiu - Enfim, você é diferente. Bastante diferente. É alta, atraente, cabelos longos e bonitos, usa sempre preto, tem os olhos verdes brilhantes, tem as unhas adoravelmente pintadas e gosta de gim – ele definiu.
- E tem a voz rouca. Isso você não disse. Já esperava? – ela perguntou com um tom insinuante. Blue velvet.
Ele tomou um gole da sua bebida e respondeu – Gosto sim. Gosto sim. Eu, sinceramente imaginava. Pela sua altura sabe. Quero dizer, por tudo. Imaginei uma voz diferente, forte, sei lá, uma voz...
- ...baixo ou contralto? – ela interrompeu, divertida.
Ele a olhou com surpresa e nada disse.
- Então? Voz em tom baixo ou tom contralto? – repetiu.
Desconcertado ele disse – Não entendi. Baixo? Contralto?
- Deixa para lá, ela respondeu com um sorriso leve e provocante – A bebida, a música, enfim, deixa para lá.
- Não, pode dizer – ele insistiu - Fale.
Ela pegou mais um cigarro e o acendeu e deu uma tragada para só depois o encarar detida e suavemente e dizer – Veja, nem sempre se conhece uma pessoa pela altura, pela sua beleza, pelos seus cabelos, pelos seus olhos “verdes brilhantes”, pelas suas unhas cuidadas, pela sua roupa preta ou pelo seu gosto etílico. Nós precisamos conhecer a voz. A voz – finalizou com um sorriso.
Ele a olhou confuso, tentando interpretar aquele tom e o que estava acontecendo ali. Não entendeu nada, mas começou a perceber e duvidar.
- Então, agora, ouça mais do que fale. Pode ser útil quando nos encontrarmos aqui no Varsóvia de novo. E espero que nos encontremos de novo, mas sóbrios. Assim continuamos daqui – completou – Sem culpar a bebida pelos futuros acontecimentos – disse, dando um delicado beijo na testa do garoto loiro antes de deixar o balcão e ir em direção à saída do Clube Varsóvia.
Partiu com um sorriso de satisfação plena pela confusão. Divertindo-se pela dúvida e pelo que provocou.
Ele a olhou surpreso deixando o Clube Varsóvia. Olhou sem saber exatamente o que sentir, o que pensar, o que fazer, além de pedir mais uma dose de bebida e um cigarro enquanto ecoava em sua mente em uma espécie de looping excitante e desconhecido a frase “nem sempre se conhece uma pessoa pela altura, pela sua beleza, pelos seus cabelos, pelos seus olhos verdes brilhantes, pelas suas unhas cuidadas, pela sua roupa preta ou pelo seu gosto etílico. Nós precisamos conhecer a voz. A voz”.
Às vezes não percebemos, porém gostamos do que não conhecemos.
Melhor, gostamos do que ainda não conhecemos.
Ele?
Confuso.
Ela?
Ele?
Pura diversão em seduzir.

Era o que faria Lou Reed.


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11.7.20

FAZENDO VÁRIOS NADAS


worry club || in my ear

Anoiteceu e ela se deu conta de que estava exausta.
Exausta.
Enfim, ela reconheceu que estava exausta de tédio e sequer olhou o relógio naquele fim de tarde, começo de noite.
Não, ela definitivamente não queria nem saber as horas.
Não.
Nem saber.
Não queria saber quanto tempo havia passado desde que começou a sua maratona de fazer vários “nadas”.
Sua atividade exclusiva naquele dia.
Vários “nadas”.
Vários.
Perdeu tempo?
Não.
Definitivamente.
Acordou e saiu da cama amassada; tomou seu café preto e amargo; leu o que o jornal previa para o signo de Touro; aproveitou e viu o de Leão e o de Gêmeos; abriu o notebook; entrou na internet; saiu do notebook; pegou o celular e mandou mensagens sobre vários “nadas” para sua melhor amiga e fez fofoca e quis saber as novidades com ela; tentou estudar; não estudou; tentou concentrar e desconcentrou; cozinhou bobagens e comeu alguma coisa; bebeu algo gelado; ouviu música; desistiu; ligou a televisão; ligou o spotify; desligou o spotify; assistiu a um filme; um seriado; deu comida pros seus pets; tirou uma selfie solitária; pensou no recente namoro desfeito; odiou ter estado com aquele idiota; lembrou; esqueceu; enfim, muitos e vários “nadas” ao longo do dia.
Uma infinidade de “nadas”.
Até respirar fundo e decidir abrir o armário.
Sim, a porra do armário.
Afastou as roupas e resolveu revirar a caixa quadriculada que ficava escondida lá no fundo do armário.
A pequena caixa quadriculada repleta de detalhes.
Memorabilia da sua própria vida.
Fotos, várias Polaroids, duas fitas cassetes antigas, uma pétala de flor seca, alguns desenhos espalhados, ingressos para shows, entradas de cinema e cartas, várias cartas, mas uma, apenas uma, muito especial, ainda no envelope violeta.
Segurou em suas delicadas mãos o papel antigo e quebradiço e sentiu o aroma do perfume de quem a escreveu como se realmente estivesse ao seu lado.
Abriu pela enésima vez...

Oi,
Ou tchau ou até breve. Nunca se sabe. Nunca. E não sei exatamente o que escrever neste papel. Não. Realmente eu não sei. Quero que saiba que não estou feliz pela forma como tudo aconteceu e terminou entre a gente. Não, eu não estou nada feliz. Sei que devia ter falado com você e não apenas ter deixado esta carta antes de ir, mas, você sabe, eu não podia mais insistir. Não, eu não podia insistir mais. Você fez o certo e decidiu o que tinha que decidir. Julgou e tentou evitar que algo entre nós terminasse da forma que foi. Eu estava errado, fiz muita besteira e falei muitas coisas que jamais devem ser ditas. Eu sei. Mas insistir seria ainda mais errado. Foi muita bobagem ter te perdido lá atrás. Muita. E, realmente, o que tive foi medo e creio que nunca te achei na verdade. Não se perde o que não se teve de verdade. Quer dizer, de verdade, porque para mim você sempre foi minha e sempre será. Esteja onde eu estiver. Londres, como é o caso, ou Estocolmo, Edimburgo, Paris, Bruxelas, o que seja. Qualquer lugar. Qualquer lugar. Agora? Bem, agora você está feliz com ele e espero que assim seja. Espero mesmo. Eu não queria ter brigado com nenhum dos dois. Não. Mas não achei que fosse terminar assim. Não achei que devia ter falado tudo quando fiquei bêbado naquela noite. Não. Devia ter ficado em silêncio como tantas outras vezes. Mas você também não demonstrou nada quando eu falei da viagem. Não falou. Devia ter falado, assim como eu também devia ter dito tudo antes. Bem antes. Antes de ser tarde demais, de ter te ferido tanto assim e antes de este avião partir. Principalmente antes de este avião partir. Parece e é, na verdade, uma cena patética de um filme romântico de uma sessão da tarde qualquer, mas é real. Esta carta e esta despedida são reais. Real e eu não quero mais chorar na sua frente. Não. Não quero. E por favor, me perdoe por tudo o que fiz e disse. Esconda ou destrua esta carta, pois se alguém a achar e ler o seu conteúdo daqui a alguns anos, sinceramente vai ter a certeza de quem a escreveu ou é um idiota ou trata-se de um roteiro de uma comédia romântica de quinta categoria escrita por um babaca. Mas, os babacas amam por mais ridículo que possa parecer. Enfim, fica este cassete também que eu gravei para você. São aquelas canções que você ouvia enquanto eu te ensinava a dirigir, lembra? Séculos atrás. Bem, cuide-se. Não vou te escrever de Londres e muito provavelmente nunca mais nos veremos ou você não irá querer. Enfim, quem sabe? Quem sabe. Quem sabe. Fica bem. Eu te amo e sempre vou te amar e me perdoe por nunca mais te procurar. Tenho certeza que vai ficar bem Certeza. 
Ass: você bem sabe quem”.

Ela levou e apertou o papel junto ao seu peito, com cuidado para não molhar, pois as lágrimas estavam todas fugindo daqueles olhos verdes e grandes, rolando através do seu rosto sem qualquer pudor.
Sem qualquer pudor.
Ela sorriu da profecia dele e lembrou a última vez que o viu, há alguns anos, atravessando a rua, acompanhado.
Ela o viu.
Ele não.
Ela lamentou não ter gritado um oi.
Um último oi poderia ser uma primeira palavra, mas ela não fez nada.
Nada.
Ela apenas pensou como de costume, em fazer vários “nadas”.
Mas não fez.
Não.
Mas amar é coisa de adolescentes tolos, ela considerou enquanto fechava a caixa e a colocava de volta em seu lugar, o fundo do armário.
De volta ao fundo do armário a caixa quadriculada repleta de retratos e de vários “nadas”.
Vários “tudos”.
Ou quase.
Basta ter coragem e fazer.



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17.6.20

NEON GUIPURE


killkiyoshi || if only zamboni

Quatro e quatorze da madrugada e lá estava ele, todo aceso, encostado próximo à janela e olhando na direção da cama, admirado.
Admirando-a.
Ela.
Ela estava lá, desajeitada sobre a cama e dormindo de forma profunda, quase desnuda, toda linda.
Desarmada.
Quatro e quinze da madrugada e aquilo não era insônia.
Não, não era insônia.
Definitivamente não.
Não mesmo.
Era felicidade.
Apenas felicidade.
Quatro e dezesseis da madrugada e lá estava ele, despido, segurando um copo de vodka com as mãos que ele sorvia em breves e cuidadosos goles.
Bebia lentamente a generosa dose vodka, de modo intencional.
Pretendia retardar, ao máximo, a perda do sabor daquela linda garota ainda impregnado em seus lábios.
Não quis acender um cigarro para não perturbá-la.
Não quis nem pensar em arriscar acordá-la.
Seria um crime.
O crime do século, desconstruir aquela cena.
Cena adorável.
Adoravelmente bela.
Encantadora.
Quatro e dezessete e o que mais ele podia querer, além do que já possuía naquele exato instante? Naquele exato momento da madrugada?
Quatro e dezoito e ela, toda linda, ao alcance dos seus olhos.
O perfume suave e com toques doces exalava da sua delicada pele, sobressaindo no ambiente e afastando o aroma urgente do sexo apaixonado há pouco praticado.
Quatro e dezenove da madrugada e a luz do letreiro do prédio comercial vizinho invadia, sem cerimônia ou permissão, aquele aconchegante quarto de apartamento e abraçava a delicada renda guipure envolta no corpo dormido dela.
Uma dança sensual de luz neon sobre um palco de renda guipure.
Como se fosse possível.
E era.
Quatro e vinte e ele estava acordado.
Mais do que nunca.
Mais do que nunca.
Acordado e feliz.
Feliz.
Bastante feliz.
Espectador de uma cena adorável.
Cena de algum belo e inédito filme antigo.
Coadjuvante de uma cena explícita de amor.
Ele, o coadjuvante.
Ela, a protagonista.
Sem dúvida alguma.
O neon?
O neon era a fotografia.
E a renda guipure o figurino ideal, a moldura perfeita para aquele quadro de paixão.
Uma bela tela de cinema real.
O mais belo quadro.
A mais bela tela.
Ela.
Quatro e quarenta e nove; quatro e cinquenta e dois; quatro e cinquenta e oito; cinquenta e nove; e, ele, ainda estava lá.
Ainda acordado e com o mesmo, exatamente o mesmo, sorriso no rosto, apenas desejando em pensamento que o relógio parasse, ainda que por mais vinte e tantas horas.
E isso não era pedir demais.
Definitivamente, não era pedir demais.




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31.5.20

JOYEUX ANNIVERSAIRE



Ela sacudiu levemente a cabeça, sem entender exatamente o que estava acontecendo.
O barulho era conhecido e suave e vinha do aparelho que estava jogado sobre o criado-mudo.
O seu celular.
Ela detestava toques aflitos e altos, então o dela era sempre ameno. Discreto.
Olhou para o relógio com os olhos ainda quase cerrados e mal acreditou – Porra. Acabei de pegar no sono caralho! Que tipo de imbecil liga para você a uma hora dessa? Depois de três noites dormindo mal. Porra, se não for alguma urgência eu mato – pensou, veloz e desconexa.
Agarrou o aparelho e sequer viu o número estampado na tela.
Já atendeu logo disparando irritada e sonolenta – Oui que s'est-il passé? – perguntou rude, sem a menor boa vontade ou gentileza.
- Mon petit amour. Feliz aniversário! – a voz respondeu.
Ela estremeceu e não acreditou na voz tão familiar e doce que escutava do outro lado.
Improvável.
Bastante improvável.
Afundou a cabeça novamente no travesseiro e soltou um sorriso sincero de alegria.
Um misto de alegria e angústia.
Saudades.
Felicidade em ondas sonoras.
- Porra. Você sabe que horas são por aqui? – ela disse abafando uma risada.
- Claro. Como poderia esquecer. O seu fuso horário eu não esqueço – ele respondeu.
Ela gostou do que ouviu e provocou – Ah, claro, por isso fala comigo todos os dias, mesmo depois de todo este tempo. Mais de ano - reclamou.
Ele a ignorou e disse - Feliz aniversário querida.
Ela ficou surpresa, pois ainda não tinha se dado conta de que dia era aquele.
Olhou para o relógio, percebeu do que se tratava, sorriu e respondeu - Obrigado. Obrigado – disse amável e, sem graça, completou – Mas, não podia esperar um horário decente para me ligar? Tipo, depois do meu café da manhã? Ou talvez uma mensagem – ela esfriou – Um conto? Você era bom nisso. Parou e disse em tom baixo, mas ainda para ele escutar – Bem, no nosso caso, creio que ainda assim não seria adequado.
Ele sorriu e respondeu calmo - Claro que não. Bem, você sabe. Eu sempre gostei de ser o primeiro a te cumprimentar e pelo muito que sei de fuso horário, aí em Paris acaba de dar meia-noite. E não sou de mandar mensagens. Eu ligo e falo. É melhor.
Ela, definitivamente, despertou.
- É, mas não ligou desde que eu cheguei aqui em Paris e você ficou por aí. Nunca aceitou, não é verdade? “A vida é feita de escolhas”, não foi essa a babaquice que você me disse um dia antes do aeroporto? – ela emendou, remoendo o que não devia.
Ele respirou fundo e desconversou - Então, o que importa é que eu pensei. E pensei muito. Então, resolvi arriscar e ligar para te desejar todas as coisas boas que você sempre merece e mereceu. Todas. Te desejar o melhor, antes de qualquer outra pessoa.
- É? – ela provocou – E se eu estivesse acompanhada? Pensou nisso?
Ele respondeu alegre – Sim, eu pensei. No entanto, resolvi tentar a sorte e, caso você estivesse acompanhada, seria a hora de a pessoa perceber e sair fora imediatamente.
Ela escutou e ficou em silêncio. Pensativa naquela hipótese.
- Mas percebo que acertei – ele completou.
Em tom de tristeza, ela disse - Se você tivesse me escutado, não tivesse sido idiota, poderia estar aqui comigo agora e não parado aí, telefonando em horários inoportunos. Tudo poderia ter sido tão diferente – concluiu.
Após um breve silêncio, ele disse – Ou poderá ser. Poderá ser diferente. Como vamos saber, não é mesmo?
Ela ficou em silêncio e dispersa por um instante, apenas observando a chuva molhando a janela do seu quarto.
- Então... – ele disse - ... que tal ser mais ágil e sair da cama para abrir a porta aqui do edifício. Está chovendo, sabia? E está frio. Eu tenho só uma mala pequena, mas não é impermeável e as roupas dentro dela vão molhar. E muito.
Ela olhou para o telefone surpresa e balbuciou – Mas... o quê? Edifício? Que bobagem está dizendo? – perguntou.
- Por favor. Libere a entrada. Talvez seja melhor eu te desejar feliz aniversário pessoalmente, ainda que completamente ensopado – disse com uma voz alegre.
Ela mal acreditou e sorriu como há tempos não sorria.
O maior dos seus sorrisos.
Feliz, surpresa e acelerada, como tivesse ganho o melhor dos presentes.
A melhor das surpresas.
E, na verdade, não é para isso que serve um presente de aniversário?




14.5.20

NINGUÉM ME CONHECE, SABIA?


ichsrmdhn || so here we are (big cut remix by platonic - bloc party cover)

Introspectiva.
Definitivamente, ela era introspectiva.
Muito.
Sensível, ela simplesmente preferia ficar no canto dela.
Permanecer no canto dela calada e atenta, apenas a observar as cenas que explodiam ao seu redor.
Confortável.
Apenas confortável.
Segura na sua insegurança.
Segura na sua zona de conforto.
Sempre buscou exposição zero dos seus medos, das suas paixões erradas, das suas lágrimas salgadas e do seu mundo imperfeito (ao menos imperfeito para ela).
Exposição zero e pretendido conforto.
Frágil conforto em torno de si.
Sensível e tímida.
Definitivamente, ela era sensível e tímida.
Muito.
- Oi, cheguei ele disse com um sorriso ao se aproximar dela Tudo bem?
Ela o observou sem expressão definida e assentiu com a cabeça.
Nada disse.
Nada disse de primeira, como sempre.
- Sim, eu também estou contente em te ver falou e continuou Eu sei lá. Não sei foi uma boa ideia termos vindo aqui hoje. A festa hoje aqui no Clube Varsóvia está meio parada e não sei, não estou sentindo as famosas good vibes de sempre finalizou sorrindo.
- Idiota ela respondeu.
Ele fez uma expressão cínica de falsa surpresa e disse Eu? Idiota? O que eu te disse ao telefone hoje à tarde, depois de conversarmos tanto ontem? Não sei se você está ok para ir à festa. Ele pode estar lá, etc. Então sugeri que comêssemos alguma coisa, bebêssemos o que quer que fosse, enfim, fizéssemos qualquer outra coisa e blablabla. No entanto, você, a simpática, disse que queria vir e, ainda por cima, sozinha, sem esperar sequer minha carona. Veio e, quando eu a encontro, está aí. Como sempre apenas olhando. Apenas olhando com estes assustadores e deliciosos olhos verdes.
Ela deu de ombros e apenas disse Até que está divertido. Está boa sim a festa. Quer beber algo? ela perguntou.
- Sim, queridíssima, quero um uísque. Nada de cerveja hoje.
Ela retrucou rápida e direta, sem olhar em direção a ele Ótimo. Aproveita e pega o mesmo para mim. Estou com sede.
Ele apenas olhou para o alto e sorriu antes de ir buscar as bebidas.
Ela permaneceu parada e atenta, apenas observando ele se perder entre as demais pessoas em busca das bebidas para eles.
Ela permaneceu parada e atenta o observando sumir e, mesmo com o radar exato de todos os amigos/conhecidos que estavam por perto, ela sequer mexeu um músculo da sua linda face em outra direção que não fosse a dele sumindo entre as outras pessoas.
Perdeu-se em pensamentos - Se ao menos eu conseguisse expressar alguma coisa com o meu olhar desejou - Porra, não ia adiantar nada mesmo. Nada. Eu queria tanto perder o medo e tentar. Mas não, eu não consigo caralho. Eu não vou conseguir falar nada para ele. O idiota vai voltar com as bebidas e não vou conseguir dizer que...  tentou continuar, mas foi interrompida ao perceber o copo cheio de destilado e gelo bem à sua frente e que lhe havia sido voluntariamente trazido por ele.
Ela se conformou com a angústia e voltou ao tempo/espaço real daquela festa no Clube Varsóvia.
Tomou um gole breve antes de dizer - Sabe de uma coisa que eu pensei muito esta noite e precisava te dizer? Algo que eu preciso falar e que você talvez não saiba. Não tenha notado. Sei lá.
- Não acredito. Você? Você vai me revelar algo sobre você que eu ainda não sei? ele perguntou enquanto buscava um cigarro no bolso do casaco.
Ela gelou e disse ríspida - Você é um imbecil mesmo, não sei a razão de perder meu tempo.
- Não, por favor, diga. Vou gostar de ouvir, afinal não faço outra coisa a não ser te ouvir há... quanto tempo mesmo? ele perguntou irônico.
- Vá se foder ela respondeu irritada.
Ele sorriu divertindo-se muito com ela e continuou Não, pode dizer. Deve ser alguma novidade. A mocinha que só veste preto para ficar invisível e conter o ímpeto e o brilho da outras cores e sempre tentar passar despercebida para o mundo vai confessar algo. Inédita esta postura zombou A moça da zona de conforto. A própria insegura em segurança.
Ela o matou com o olhar e ficou quieta.
- Posso adivinhar? Posso?
- Tente a sua sorte ela respondeu, agora com esperança nos olhos verdes.
- Então, você queria me dizer que veio aqui apenas para reencontrá-lo. Apenas para reencontrar a porra do Edu na tentativa de consertar a bobagem que você acha que fez aquele dia. Eu acho que não fez nada, mas fazer o quê se você insiste em achar. E o pior é que ainda que encontrasse o Edu você ia ficar quieta, apenas porque não tem coragem de mostrar o que verdadeiramente sente. Tem medo. E você, supostamente acha que eu não sei que você quer vencer esta porra deste medo, desta insegurança, e mesmo me conhecendo há séculos, você demora uma vida para se abrir comigo - concluiu.
Ela suspirou e acendeu um cigarro em silêncio.
- Acertei? Acertei muito, não é mesmo? ele perguntou.
Ela suspirou e disse - Acho que ninguém me conhece, sabia? Apesar de você saber demais sobre mim, a verdade é que não raras vezes tenho a impressão que ninguém me conhece de verdade. Ninguém concluiu virando mais um gole e partindo sozinha para a pista de dança repleta do Clube Varsóvia antes que as lágrimas que cresciam no canto dos seus olhos verdes fossem perceptíveis.
Sozinha na pista de dança e agora desconfortável.
Desconfortável na sua própria insegurança.
Desconfortável na sua própria insegurança e querendo apenas poder gritar.
Apenas poder gritar o que ninguém, ninguém além dela, sabia.
Ninguém.






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