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Mostrando postagens de 2020

LO(VE)NDON CALLING

OUÇA: gaba kulka || london calling
O corpo dos dois parecia derreter.O corpo dos dois parecia derreter, tamanha a excitação, tesão, desejo e vontade que impregnava o ambiente naquele quarto. O suor transbordava em cada poro de cada corpo. Cada poro. Cada corpo. Ele estava absolutamente enlouquecido e extasiado. Ela, por sua vez, estava em uma espécie de transe e delírio. Mãos e bocas e seios e pernas e coxas e dedos e lábios e línguas e beijos e saliva se encontravam. Sem parar. Contínua e sofregamente. O aroma que pairava no ar era o de uma espécie de vinho raro. Beleza rara. Especial. Ela sentia o gosto dele na sua boca. Ele sentia o dela. Sutil e intenso. Integrado.Suor, paixão, delírio, toques e gemidos. Sexo ou amor, ou seja lá o que isso quer dizer....E, logo depois, eles deitaram e ficaram quietos, respirando o silêncio. Por pouco tempo. Por pouco tempo.Ela, agitada como sempre, gargalhou brava e, abrupta, ligou o velho aparelho de som em decibéis altos. Bastante altos. - Que mú…

A CERTEZA DO QUE NÃO SE VÊ

OUÇA: faye webster || better distractions
Foi tudo muito rápido.Um relance e um instante.Um momento.Ele pegou um cigarro no bolso do casaco, acendeu-o rapidamente, deu uma tragada profunda e tentou olhar do outro lado da rua para ter certeza do que estava vendo.Não quis crer no que imaginou ter testemunhado acontecer do outro lado da rua.Um casal.Uma mulher e um homem. Juntos.Mãos dadas e aparentemente sorrindo.Aparentemente não, eles estavam mesmo sorrindo.Não. Acho que não – ele pensou enquanto tentava observar melhor aquela cena que o despertou. O Clube Varsóvia não estava muito cheio naquela quinta-feira, mas no meio da pequena multidão esperando para entrar, algo chamou a sua atenção.Algo que ele não queria ter visto e, no mesmo instante em que viu e se deu conta, desejou não ser realmente verdade. Ele ficou parado em frente ao bar do outro lado da rua do Clube Varsóvia, tragando o seu cigarro e tentando ter a certeza do que estava vendo. Precisava ser rápido, pois eles já estavam…

VARINHAS MÁGICAS DISFARÇADAS EM PINCÉIS

OUÇA: ludovico einaudi || nuvole bianche
O suor escorria pela sua testa.Muito.Gotas grandes e pesadas.Gotas nervosas escorrendo sobre o seu belo rosto.A respiração?A respiração estava ofegante.Bastante.Sem inspiração.A tela à sua frente permanecia em branco.Branco o suficiente para lhe dar medo.Muito.Medo de não criar.Medo de não gritar ao mundo tudo o que queria.Medo de as pessoas não saberem o que ela tinha a dizer.E precisava dizer.Muito.E o suor?Bem, ele ainda estava lá.E ela imaginava que para pintar o que queria, deveria ter toda a técnica, disciplina e plasticidade que não teve ao longo de muito tempo.Ao longo dos últimos anos.Ao longo dos últimos anos em que se prendeu.O suor escorria pela sua testa.Muito.Gotas grandes e pesadas.E a respiração estava ainda mais ofegante.Muito mais.E a tela continuava em branco.Intocada.Como uma alma virgem a ser desvendada.Lágrimas?Bem, elas também estavam lá.Também estavam lá.Todas e junto com ela.Como em um passe de mágica, ela virou o olhar …

LOOP

OUÇA: vacations || avalanche

Ela entrou no apartamento e apenas observou.
Tudo estava igual.
Tudo estava absolutamente do mesmo modo que ela havia deixado quando saiu, um pouco antes do anoitecer.
O copo americano ainda estava sujo de café.
A garrafa de refrigerante estava aberta e, óbvio, já sem gás.
O caderno com as anotações rabiscadas e com as páginas amassadas estava no mesmo lugar.
Os lápis continuavam sem ponta e as canetas estavam distribuídas sem cuidado pelo tapete felpudo.
Os vinis estavam espalhados ao lado da vitrola antiga, herança de seu avô.
Os maços de cigarros estavam vazios perto da mesinha de canto.
Algumas roupas insistiram em ficar penduradas junto a estante, na mesma posição que ela havia deixado para secar perto do meio-dia. Bem, ao menos para alguma coisa servia o sol naquele apartamento – ela pensou.
O relógio ainda estava parado e a fez lembrar de algo que não iria fazer mesmo: comprar baterias.
Cinco da madrugada.
Ela apenas permaneceu imóvel na sala de seu apartamento,…

SONHO. SONHO?

OUÇA: stello || so in love
Ela sentiu o toque. Sentiu o detalhe das fortes mãos dele percorrendo o seu corpo.  O corpo inteiro. Suave. Atrevido. Delicado e adorável. Toques intensos. Espirais. Crescentes. Sentiu um calor, um tremor, um arrepio forte, sem saber exatamente donde vinha. Um arrepio delicioso. Sentiu quando ele a segurou firme pelas mãos e a levantou da cama abraçando-a com leveza. Noite fria, agora quente. Ela abriu os seus olhos devagar, numa tentativa de encontrar os dele.  Ele não deixou. Não. Não mesmo. Com suas mãos grandes, ele gentilmente a impediu, segurando com suavidade as suas pálpebras e as mantendo fechadas.  O aroma do perfume das mãos dele a invadiu e ela apenas sorriu, sem resistência. Concordou. Ele a abraçou com uma elegância rara.  Uma delicadeza raramente por ela sentida. Ela sentiu de forma ainda mais intensa o calor, o tremor, o arrepio forte, mas agora sabendo exatamente donde vinha. Um arrepio delicioso. Sentiu como se flutuasse, como se eles estivessem acima do chão. Uma e…

SHALL WE DANCE

OUÇA: rosalyn || loverfriend
- Então, aceita dançar esta música? – ele pediu, com gentileza e suavidade. Ela sorriu. E ele estava trêmulo e nervoso. Ansioso. Ela estava alegre e linda. Serena. E quando as primeiras notas do piano soaram na caixa de som, os dois se aproximaram e os seus braços se encontraram. Entrelaçaram. Um elegante e suave toque em uma condução apropriada para o som de notas belas e delicadas. Ela o conduzia. Ele também. E a canção era densa e envolvente, apaixonada, e as notas voavam e flutuavam pela sala da sala. Os braços entrelaçados revelavam uma cumplicidade sem igual. Rara. Poucas vezes vista. Poucas vezes sentida. Nunca? Não daquela maneira. Não como naquela noite. Talvez em outros tempos, mas não como naquele exato instante. E entre braços entrelaçados e desejos agora não mais escondidos, o perfume dos cabelos misturado ao cheiro das tintas era inebriante. Aroma de camomila. Aroma de vontades. Desejos e sorrisos. Ela o conduzia. Ele também. O toque entre eles era suave, assim como os…

AROMAS E SABORES

OUÇA: sebastian roca || honestly
Nem dez e meia da manhã de uma segunda-feira – ela pensou enquanto dirigia o seu carro pela Avenida Central. Nem dez e meia da manhã de uma segunda-feira e ela relembrou o dia. Repassou o dia como se já tivesse acabado. Como se fosse muito. Como se fosse longo. Como se os segundos fossem séculos. Como se os segundos fossem dias. Pela janela do seu carro, ela observou o sol implacável da manhã de inverno tentando invadir sua retina. Retina fixa na imagem dele. Memória congelada nas horas que teve. Madrugada inquieta e turbulenta, repleta de desejos, sonhos, vontades e poesias. Repleta dele. Repleta dela. Juntos. Como um. Você É a poesia – ela lembrou do que ele falou antes de ir. Enfático. Ela sorriu. Estava leve. Você É a poesia – repetiu o pensamento. Nem dez e meia da manhã de uma segunda-feira. Ela desejou que o tempo parasse e pudesse sentir novamente tudo o que sentiu na madrugada. Tudo. Exatamente tudo. Cada detalhe. Cada sensação. Cada aroma. Cada sabor. Tudo. Absolutamente …

TIJOLOS APARENTES

OUÇA: kate bollinger || candy
- Então? – ela perguntou com um olhar indisfarçável de carinho e cuidado, antes de abrir a porta para ele sair. Ele sorriu, meneou a cabeça e não soube responder de primeira. - Então? – ela insistiu e continuou – Não vai me dizer nada? Nada? Ele levantou a cabeça e a olhou com a maior ternura do mundo e respondeu – Eu adorei. Simplesmente adorei. Ela não escondeu um sorriso genuíno e disse – Fico contente. Você nem imagina o quanto. Nem imagina. - Imagino sim. Imagino sim. - Do que mais gostou? – ela prosseguiu em sua suave inquisição. Doce inquisição. - Do que mais gostei? – ele repetiu. Ela assentiu com a cabeça e disse – Sim. Não vou deixá-lo ir embora sem me responder. Não posso. Você ficou aqui a tarde toda comigo e eu apenas adoraria saber. Ele a olhou com carinho e ternura. Disse, divertido – Do que mais gostei? Bem, além de você servir um adorável capuccino? Ela sorriu e emendou – Deixa de ser bobo. Não foi capuccino nenhum. Fale. Eu sinto no seu olhar. Só pr…

SOPHIE DÉJÀ-VU

OUÇA: coralie clément || cest la vie (maxi gnzz catwalk rub)
- Te conheço, não é? – ele perguntou de modo suave e alegre, logo atrás daquela garota alta de cabelos castanhos à sua frente na fila do balcão do bar. Três da madrugada e a fila do balcão do bar do Clube Varsóvia era o lugar a não se estar, seja pelo excesso de gente, seja pelo excesso de sede. Calor na madrugada de quinta-feira. Ela parou a conversa com sua amiga e virou apenas um pouco a sua cabeça, desviando o olhar apenas o mínimo necessário para observá-lo. Sem nem um sorriso ou simpatia, respondeu direta – Não. Ele a olhou com certa surpresa e retrucou – Não? Mas você sequer me olhou direito. Não prestou atenção, fala a verdade – ele afirmou querendo ser simpático. Ela virou mais uma vez e o olhou com atenção. Dessa vez, fez de tal forma que ele realmente percebesse que ela o observou com cuidado e disse novamente – Não. Não te conheço – sentenciou. Ele não desistiu do sorriso e disse – Ah, talvez seja por causa do horário, …

NÃO HÁ MAIS O SUOR NAS MÃOS

OUÇA: baseball game || woman
Silêncio.
O piano estava lá.
O piano estava lá posicionado à sua frente.
As mãos?
Quentes.
Ela estava com as mãos aquecidas como nunca.
Sensação agradável de calor.
Naquele instante, não havia nada em sua mente além de paz.
Muita paz.
Ela estava feliz e contente como há tempos desejava estar.
Há tempos.
Ela pensou em como havia lutado, brigado, gritado, escalado, desenhado, pintado, composto enfim, como havia feito tudo o que fez para estar lá naquela sala e naquele momento.
Para estar lá naquela sala, exatamente naquele instante e naquele momento à frente do seu piano.
O seu piano e a sua vida.
Muita desconstrução e, ainda mais necessária, muita reconstrução.
Ela deu um suspiro de alívio e sorriu de leve ao lembrar por um breve instante de tudo.
Um relance do passado.
Mas era passado.
Algo que não existia mais.
O presente, sim.
O presente é importante.
Sempre presente e, a partir daquele instante, à sua frente.
Ao seu alcance.
Ela sorriu sem perceber e caminhou lenta em direção …

QUANTOS ACORDES TEM UMA BALADA?

OUÇA: fazerdaze || little uneasy
- Você está tenso, né? – ela perguntou enquanto olhava para ele, todo encolhido no canto da sala, mexendo e brincando com o copo americano vazio nas suas mãos. Ele parou o que estava fazendo e a olhou com certa seriedade e balbuciou – Tenso? – perguntou e prosseguiu agora em alto som – Tenso? Tenso? Claro que não. Não há razão para isso. Ela sorriu e o compreendeu. Ficou em silêncio. Ele apoiou o copo vazio sobre a mesinha de canto ao seu lado e se levantou. Deu algumas voltas em círculo pela sala, esquecendo completamente o que ela havia dito anteriormente. Completamente longe. Distante demais. Ela apenas o observava em silêncio, quieta e paciente. Apenas esperando ele falar alguma coisa. Apenas esperando. - Então... – ele começou a falar, para na sequência emendar - Ah, esquece – concluiu, sem nada acrescentar. Após alguns segundos ela falou - Não te entendo, sabia? – disse, em tom extremamente doce. Ele parou e a encarou novamente e disse – O quê? O que não ente…

ERA O QUE FARIA LOU REED

OUÇA: antoine diligent || nobody loves u
Clube Varsóvia, duas e meia da madrugada. Mais uma noite. Mais um cigarro. Mais um chato chegando perto. - Oi – o garoto loiro disse, com aquela voz quase bêbada e mole, derretendo as sílabas. A moça alta de preto nem o olhou e ficou em silêncio. Aproveitou e brincou com o seu cigarro entre os seus longos e espessos dedos antes de dar mais uma tragada naquele Marlboro. - Oi – ele insistiu – E aí? Tudo bem? Ela pensou um instante, desistiu do cigarro, pegou o copo cheio de gim à sua frente e tomou mais um gole. Ausência de resposta em retorno. “Ainda bem que há um DJ no local” – ela agradeceu em pensamento. - Ah, fala alguma coisa – ele pediu – Você é bonita, sabe? Bastante bonita. Ela tomou ainda mais um gole, deixou o copo no balcão e se virou na direção do garoto loiro. Depois de alguns momentos o observando, disse – Oi. Está tudo bem sim. Exceto o incômodo. - É, realmente. Um incômodo. Também acho que o volume está muito alto hoje. O DJ devia perceber is…