4.12.19

PICTURE THIS


- Ei? Aqui. Olhe aqui, garoto triste – ela disse de um jeito abrupto, porém carinhoso e suave – Olhe aqui – insistiu com um sorriso entre os lábios, um sorriso amigável e amável.
Doce, terrivelmente doce.
Típico dela.
Ele virou o seu corpo de súbito e a olhou rapidamente.
Pego de surpresa por ela, ainda mais uma vez.
- Bah – resmungou e virou o rosto ao perceber a câmera - Deixa disso, porra – disse contrariado e irritado, mais pela situação e menos por odiar ser fotografado por ela.
Ela?
Ela adorava fotografar.
Adorava fotografar tudo o que fosse possível.
Tudo.
Ela adorava fotografar cenários, paisagens, flores, praias, enfim, qualquer coisa interessante ou não, atraente ou não. Ela adorava fotografias e, dentre todas as coisas, o que ela mais adorava eram as fotografias de pessoas.
Exato, pessoas.
Gente de verdade.
Pessoas com sorrisos, lágrimas e tudo mais.
Gente. Somente isso.
Porém, nunca através de celulares idiotas.
Não. Nunca.
Ela adorava fotografar de verdade.
Era uma das coisas que fazia de melhor.
- Vira, vai – ela insistiu na tentativa de amenizar o que não podia, porém ele permaneceu com o rosto virado, fora do foco.
Fora de foco.
Fora do alcance da lente dela.
Ela pôs a câmera de lado e se aproximou com cuidado.
Tocou de leve nos ombros dele e fez um carinho breve em seu cabelo quase longo e todo solto.
Percebeu nele as lágrimas que não podia ver e a respiração contida que podia ouvir.
Sabia o que havia.
Sabia exatamente o que estava acontecendo naquele saguão de aeroporto tão impessoal e repleto de gente.
Ela entrelaçou os seus braços finos e tatuados a partir das costas largas dele e encostou com carinho, podendo sentir o perfume adorável flutuando do seu cabelo e de sua nuca.
O perfume dele.
E prometeu a si mesma nunca esquecer aquele aroma e aquela noite e aquele saguão de aeroporto tão bipolar, cheio de alegria para uns e melancolia para outros.
- Você vai mesmo, certo? – ele perguntou sem realmente querer saber a resposta e continuou - Sem fotos, por favor. Depois você me manda as suas de lá, se quiser. Mas agora não quero fotos de nada – disse com ela colada às suas costas, ambos em silêncio.
- Você precisa ir – ele concluiu.
Ela nada disse e apenas o abraçou ainda mais.
Não insistiu em nada e ele permaneceu com o rosto virado, afogado em lágrimas contidas e desesperadas em não serem vistas.
Fora de foco.
Fora do alcance da lente dela.
Fora do alcance dela.
Fora do alcance dele.
Apenas um retrato para quem via de fora.
Apenas a vida deles sentida por dentro.
O que não é quase nada para muitos, mas muito para eles.
Apenas a vida deles.





22.11.19

E COMO FUGIMOS DAS SOMBRAS?


jye || a shitty love song

E o que eu faço porra?” – ele pensou em desespero, atônito e surpreso ao se dar conta do que ela tinha acabado de presenciar. “Como eu fujo daqui? Como eu fujo da minha própria sombra?” – continuou em pensamento. Suando demais. Suando muito, porém muito mais em razão do desespero do que das doses que havia bebido e das danças que havia dançado.
Não sabia o que fazer. Definitivamente não sabia o que fazer.
Na verdade não havia o que fazer.
Não havia.
Simples assim.
O erro já havia sido cometido. O erro já estava pronto e acabado.
Um delicado e especial presente, gentilmente embrulhado em papel de seda colorida em rosa e violeta, entregue a ele por Blodeuwedd, a irresistível deusa galesa.
Um presente.
Rosa e violeta.
Um presente.
Um erro.
Mais um erro, mais um.
Irremediável?
Talvez.
Inconsequente?
Com certeza.
Típico?
Típico, sim.
Típico dele.
Ela?
Considerando a velocidade em que ele a viu pelas costas deixando a pista em direção à saída, com certeza a esta altura ela já havia alcançado a porra do bar em frente ao Clube Varsóvia e pedido algumas doses daquele conhaque vagabundo que a ridícula grana dela podia comprar.
Havia luzes no Clube Varsóvia.
Muitas luzes, muito som, muita gente e ele. Perdido no espaço. Suspenso no tempo e espaço.
E a rosa e a violeta?
Bem, a rosa é vermelha e a violeta é azul e nada, nada vai mudar isso. Nada.
Ao menos até o sol nascer e as sombras voltarem para deixa-lo simplesmente sem ter como e nem para onde fugir.


Blodeuwedd. A definição mais direta que encontrei: 
Blodeuwedd, a Deusa galesa, foi dada em casamento ao Deus do Sol Llew Llaw Gyffes (Lugh) no solstício de verão de Lughnassah. Seu nome foi associado à traição porque ela enganou o marido fazendo-o encarar o complicado caminho para a corte: banhar-se embaixo de um telhado de sapê num caldeirão na margem de um rio, em pé, com uma perna tocando um cervo. Então ela o matou com a ajuda do amante”.
Daqui... Deusa que Dança





7.10.19

BILLIARDS


flower crown || bender szn

E o amor não passava de um grande jogo para ela. Um grande, divertido e arriscado jogo.
Perigoso e excitante.
Nada mais do que isso.
Nada mais do que isso.
O amor.
Um jogo.
Um jogo, porém um jogo que não era para ser.
Um jogo, uma espécie de sinuca perigosa e arriscada que ela adorava experimentar e manipular vorazmente.
Dia após dia, de forma cada vez mais intensa.
Dado viciado.
Arma fatal.
O amor.
Um jogo.
Um jogo, porém um jogo que não era para ser.
A maldição da beleza.
Seduzir e destruir.
A maldição da beleza que exalava do seu olhar azul e penetrante, dos seus cabelos soltos e longos, do seu perfume inebriante, do seu doce veneno. Um falso brilhante. Um diabólico conjunto da obra.
A arma fatal.
Uma roleta russa desvairada.
Um jogo.
O amor não passava disto.
Um jogo.
Um jogo, porém um jogo que não era para ser.
E ela costumava ganhar.
Estava mais do que acostumada a ganhar.
Muito mais.
Rotina.
Sempre.
Sempre?
Sempre. Ao menos até ele chegar.
Até acontecer.
Até ele chegar e devastar o seu coração, os seus sentimentos, os seus desejos e as suas vontades.
E o jogo inverteu.
Ela não controlava mais.
Não podia ganhar.
Nem de forma desonesta ou manipulável.
Nem de forma qualquer.
Ele?
A alma gêmea que ela inoportunamente encontrou.
O amor.
Um jogo.
Um jogo, porém um jogo que não era para ser.
O sentimento que ela tanto debochou de tantos outros.
Pobres miseráveis vulneráveis. Idiotas e tolos – costumava pensar.
Miserável.
Vulnerável.
O que ela se tornou.
Estava mais do que acostumada a ganhar.
Mais do que acostumada a vencer.
Sempre.
Quase sempre.
Até ele surgir e o inédito acontecer.
Até a alma gêmea finalmente aparecer e colidir de frente com ela.
O inédito que não era para ser.
A alma gêmea que não era para ser.
E o jogo?
Bem, o jogo agora estava definitivamente perdido.
Definitivamente perdido.





Photo by Anatoly Lebedeff from FreeImages


28.9.19

VOCÊ ME AVISA QUANDO PARAR DE CHOVER?


sorcha richardson || honey

- O amor acaba? Provavelmente o amor não acaba. Pode se transformar em outro sentimento. Raiva, ódio, carinho, desprezo, indiferença ou sei lá. Credo, puta filosofia barata e vagabunda para fazer perder o nosso tempo aqui na praia. Praia esta ainda que totalmente cinza e quase sob a chuva que logo vem por aí – disse Pedro, sentado de modo relaxado sobre um montinho de areia, com a cabeça baixa enquanto os seus dedos longos desenhavam algo ainda sem forma naquela tela tão natural e tão fofa.
Luisa estava sentada próxima a ele e apenas o observou com carinho através dos seus olhos tristes e úmidos. Nada comentou. Somente admirou ainda mais uma vez os longos e descuidados cabelos claros de Pedro. Amigo de longa data. Amigo de tantas coisas. Muito boas e muito ruins. Testemunha ocular dos seus sucessos, insucessos, conquistas, fracassos e perdas.
Ele levantou a cabeça e perguntou – O amor acabou?
Luisa ouviu aquela pergunta tão direta e resolveu observar o céu. Observar aquele céu tão cinza naquele fim de tarde. Um céu tão escuro e tão cheio de nuvens pesadas que em nada combinava com aquele cenário de praia, mas sim com o que ela estava sentindo.
Areias escaldantes?
Definitivamente não.
Nuvens chumbo?
Definitivamente sim.
Chuva?
Em instantes.
Pedro pôs-se de pé e rapidamente sacudiu a areia grudada nos pelos das suas coxas e pernas. Sacudiu as mãos. Estendeu-as limpas em direção à Luisa que o encarou com um olhar sincero de carinho. Muito carinho. Esticou os braços e segurou as mãos fortes de Pedro com as suas tão pequenas e frágeis. Pôs-se de pé e para abraça-lo com bastante força.
Ele retribuiu e ainda completou com um carinho suave nos cabelos da amiga.
Ela começou a chorar.
Ele a abraçou com mais ternura ainda e beijou de leve seu rosto.
- Pedro? – ela perguntou baixinho em um sussurro.
- Diz – ele respondeu.
- Vai começar a chover, não?
- Sim. O céu está muito cinza e o vento está ficando cada vez mais forte. E nem vou falar sobre as bravas ondas do mar – tentou ser suave.
Após uma breve pausa, Luisa emendou - Ele não vai voltar não é?
Pedro fechou os olhos e apenas respirou fundo. Ficou em silêncio.
- Posso te pedir uma coisa? – Luísa disse.
- Claro meu amor. Certamente você pode pedir o que quiser.
Luisa olhou para o mar bravio sobre os ombros de Pedro e disse – Você me avisa quando parar de chover? Por favor? Você me avisa?

Photo by Martina - from FreeImages


27.9.19

UMA ÚLTIMA VEZ


Eduarda cantarolou baixinho como uma idiota a canção assim que a ouviu ecoando das caixas de som da sua velha vitrola. Suave e conhecida melodia. Densas e conhecidas memórias. Angústia e constrangimento pelos erros cometidos. Erros praticados e repetidos. Erros perpetrados sem cuidado, em uma espécie de looping eterno. Erros. Apenas erros com os quais ela tinha intimidade dada a insistência em cometê-los. Eduarda fechou os olhos lentamente e tamborilou os seus longos e finos dedos de desenhista sujos de carvão na amassada caixa de fósforos, esperando com o cigarro apagado descansando em seus lábios, ainda mais lindos na cor cereja. Ela cantarolou baixinho uma última vez. Uma última vez. Sabia que a música acabaria logo e ela? Bem, Nanda já estaria com as malas feitas e fora do quarto, pronta para sair antes mesmo de a porra da canção terminar. Pensado e ocorrido. Assim que abriu os olhos Eduarda viu Fernanda parada em frente ao quarto com a sua mala pronta e a mochila nas costas. Aquela linda garota ruiva, agora com o rosto delicado todo vermelho e congestionado pelo choro, ia mesmo embora. Ia mesmo embora sem dizer uma palavra. Sem perdoá-la. Antes de Fernanda chegar à porta, Eduarda jogou a amassada caixa de fósforos e o seu cigarro ainda apagado bem no meio da montanha de fotos antigas espelhadas pelo tapete bagunçado da sala e correu em direção à porta. Trêmula, apenas perguntou:
- Nanda? Posso te perguntar uma coisa, uma última vez?
Fernanda abaixou os olhos borrados e assentiu com a cabeça, balançando os seus longos e agora desordenados cabelos ruivos. Nada falou.
Eduarda emendou, aproveitando o silêncio:
- É sério isto? Você não vai me dar uma última chance? Uma última chance? Uma última vez?
Fernanda levantou a cabeça e a encarou com raiva, muita raiva e desprezo e nenhuma frieza. Um olhar devastador. Devastador. Apenas disse em um tom baixo e fatal:
- Tem mesmo certeza que quer saber a resposta? Depois de tudo? Mesmo depois de tudo?  Certeza? – concluiu afastando Eduarda de seu caminho para abrir a porta e sair daquele apartamento deixando tudo para trás.
E fechou a porta com força.
Foi embora.
Definitivamente.
Eduarda caiu de joelhos naquela sala agora assustadoramente vazia com um choro desolador. Desolador.  
Percebeu, entorpecida, que a canção não mais ecoava através das caixas de som da sua velha vitrola. Não mais. A suave e conhecida melodia do silêncio estava agora misturada ao som do seu choro copioso e desesperado e tornou-se a trilha sonora daquele filme. Daquela exata cena. Triste e conhecida cena. Denso e repetido negativo. Densa e recorrente memória. Angústia e constrangimento pelos erros cometidos. Erros praticados e repetidos em uma espécie de looping eterno. Erros e a insistência em fazer de tudo para não ser feliz. Para não ser feliz.



Photo by lucianotb from FreeImages

15.2.19

PONTEIO


E o gato dormia ao lado dela.
Na cômoda ao lado da cama.
Próximo.
Bem próximo.
Ronronando baixinho com um ronco fofo.
Um ronco fofo.
Um amigo próximo sem se importar com a fumaça do seu cigarro.
Com seu hálito de vodka barata.
Um gato.
Um amigo.
Lindo, peludo e gordo.
Mais gordo do que o necessário.
Mais pílulas do que o necessário.
Mais álcool do que o necessário.
Mais esperança do que o necessário.
Mais gato do que o necessário.
Mais fumaça do que era preciso.
Mais Edu Lobo na vitrola do que o necessário.
Mas nunca é demais.
Nunca.
Mais noite do que o necessário.
Mais noite.
Muito mais.
Menos lágrimas.
Não.
As lágrimas eram as mesmas.
Ela não esquecia.
Não.
Não esquecia e nem dormia.
E chovia.
E fumava.
E chorava.
Muito.
Muito.
Mas o gato não se importava.
Apenas dormia.
E os trovões?
Apenas um ponteio.
Apenas um ponteio.
Um novo começo?
Pode ser.
Pode ser.

“Ponteio
...
Colocar os dedos sobre as cordas de um instrumento musical para produzir o som...”

https://www.dicio.com.br/pontear/