28.9.19

VOCÊ ME AVISA QUANDO PARAR DE CHOVER?


sorcha richardson || honey

- O amor acaba? Provavelmente o amor não acaba. Pode se transformar em outro sentimento. Raiva, ódio, carinho, desprezo, indiferença ou sei lá. Credo, puta filosofia barata e vagabunda para fazer perder o nosso tempo aqui na praia. Praia esta ainda que totalmente cinza e quase sob a chuva que logo vem por aí – disse Pedro, sentado de modo relaxado sobre um montinho de areia, com a cabeça baixa enquanto os seus dedos longos desenhavam algo ainda sem forma naquela tela tão natural e tão fofa.
Luisa estava sentada próxima a ele e apenas o observou com carinho através dos seus olhos tristes e úmidos. Nada comentou. Somente admirou ainda mais uma vez os longos e descuidados cabelos claros de Pedro. Amigo de longa data. Amigo de tantas coisas. Muito boas e muito ruins. Testemunha ocular dos seus sucessos, insucessos, conquistas, fracassos e perdas.
Ele levantou a cabeça e perguntou – O amor acabou?
Luisa ouviu aquela pergunta tão direta e resolveu observar o céu. Observar aquele céu tão cinza naquele fim de tarde. Um céu tão escuro e tão cheio de nuvens pesadas que em nada combinava com aquele cenário de praia, mas sim com o que ela estava sentindo.
Areias escaldantes?
Definitivamente não.
Nuvens chumbo?
Definitivamente sim.
Chuva?
Em instantes.
Pedro pôs-se de pé e rapidamente sacudiu a areia grudada nos pelos das suas coxas e pernas. Sacudiu as mãos. Estendeu-as limpas em direção à Luisa que o encarou com um olhar sincero de carinho. Muito carinho. Esticou os braços e segurou as mãos fortes de Pedro com as suas tão pequenas e frágeis. Pôs-se de pé e para abraça-lo com bastante força.
Ele retribuiu e ainda completou com um carinho suave nos cabelos da amiga.
Ela começou a chorar.
Ele a abraçou com mais ternura ainda e beijou de leve seu rosto.
- Pedro? – ela perguntou baixinho em um sussurro.
- Diz – ele respondeu.
- Vai começar a chover, não?
- Sim. O céu está muito cinza e o vento está ficando cada vez mais forte. E nem vou falar sobre as bravas ondas do mar – tentou ser suave.
Após uma breve pausa, Luisa emendou - Ele não vai voltar não é?
Pedro fechou os olhos e apenas respirou fundo. Ficou em silêncio.
- Posso te pedir uma coisa? – Luísa disse.
- Claro meu amor. Certamente você pode pedir o que quiser.
Luisa olhou para o mar bravio sobre os ombros de Pedro e disse – Você me avisa quando parar de chover? Por favor? Você me avisa?

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27.9.19

UMA ÚLTIMA VEZ


Eduarda cantarolou baixinho como uma idiota a canção assim que a ouviu ecoando das caixas de som da sua velha vitrola. Suave e conhecida melodia. Densas e conhecidas memórias. Angústia e constrangimento pelos erros cometidos. Erros praticados e repetidos. Erros perpetrados sem cuidado, em uma espécie de looping eterno. Erros. Apenas erros com os quais ela tinha intimidade dada a insistência em cometê-los. Eduarda fechou os olhos lentamente e tamborilou os seus longos e finos dedos de desenhista sujos de carvão na amassada caixa de fósforos, esperando com o cigarro apagado descansando em seus lábios, ainda mais lindos na cor cereja. Ela cantarolou baixinho uma última vez. Uma última vez. Sabia que a música acabaria logo e ela? Bem, Nanda já estaria com as malas feitas e fora do quarto, pronta para sair antes mesmo de a porra da canção terminar. Pensado e ocorrido. Assim que abriu os olhos Eduarda viu Fernanda parada em frente ao quarto com a sua mala pronta e a mochila nas costas. Aquela linda garota ruiva, agora com o rosto delicado todo vermelho e congestionado pelo choro, ia mesmo embora. Ia mesmo embora sem dizer uma palavra. Sem perdoá-la. Antes de Fernanda chegar à porta, Eduarda jogou a amassada caixa de fósforos e o seu cigarro ainda apagado bem no meio da montanha de fotos antigas espelhadas pelo tapete bagunçado da sala e correu em direção à porta. Trêmula, apenas perguntou:
- Nanda? Posso te perguntar uma coisa, uma última vez?
Fernanda abaixou os olhos borrados e assentiu com a cabeça, balançando os seus longos e agora desordenados cabelos ruivos. Nada falou.
Eduarda emendou, aproveitando o silêncio:
- É sério isto? Você não vai me dar uma última chance? Uma última chance? Uma última vez?
Fernanda levantou a cabeça e a encarou com raiva, muita raiva e desprezo e nenhuma frieza. Um olhar devastador. Devastador. Apenas disse em um tom baixo e fatal:
- Tem mesmo certeza que quer saber a resposta? Depois de tudo? Mesmo depois de tudo?  Certeza? – concluiu afastando Eduarda de seu caminho para abrir a porta e sair daquele apartamento deixando tudo para trás.
E fechou a porta com força.
Foi embora.
Definitivamente.
Eduarda caiu de joelhos naquela sala agora assustadoramente vazia com um choro desolador. Desolador.  
Percebeu, entorpecida, que a canção não mais ecoava através das caixas de som da sua velha vitrola. Não mais. A suave e conhecida melodia do silêncio estava agora misturada ao som do seu choro copioso e desesperado e tornou-se a trilha sonora daquele filme. Daquela exata cena. Triste e conhecida cena. Denso e repetido negativo. Densa e recorrente memória. Angústia e constrangimento pelos erros cometidos. Erros praticados e repetidos em uma espécie de looping eterno. Erros e a insistência em fazer de tudo para não ser feliz. Para não ser feliz.



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