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LO(VE)NDON CALLING

OUÇA: gaba kulka || london calling O corpo dos dois parecia derreter. O corpo dos dois parecia derreter, tamanha a excitação, tesão, desejo e vontade que impregnava o ambiente naquele quarto. O suor transbor dava em cada poro de cada corpo. Cada poro. Cada corpo. Ele estava absolutamente enlouquecido e extasiado. Ela, por sua vez, estava em uma espécie de transe e delírio. Mãos e bocas e se ios e pernas e coxas e dedos e lábios e línguas e beijos e saliva se encontravam. Sem parar. Contínua e sofregamente. O aroma que pairava no ar era o de uma espécie de vinho raro. Beleza rara. Especial. Ela sentia o gosto dele na sua boca. Ele sentia o dela. Sutil e intenso. Integrado. Suor, paixão, delírio, toques e gemidos. Sexo ou amor, ou seja lá o que isso quer dizer. ... E, logo depois, eles deitaram e ficaram quietos, respirando o silêncio.  Por pouco tempo. Por pouco tempo. Ela, agitada como sempre, gargalhou brava e, abrupta, ligou o velho aparelho de som em decibéis altos. Bastante alt...

VARINHAS MÁGICAS DISFARÇADAS EM PINCÉIS

OUÇA: ludovico einaudi || nuvole bianche O suor escorria pela sua testa. Muito. Gotas grandes e pesadas. Gotas nervosas escorrendo sobre o seu belo rosto. A respiração? A respiração estava ofegante. Bastante. Sem inspiração. A tela à sua frente permanecia em branco. Branco o suficiente para lhe dar medo. Muito. Medo de não criar. Medo de não gritar ao mundo tudo o que queria. Medo de as pessoas não saberem o que ela tinha a dizer. E precisava dizer. Muito. E o suor? Bem, ele ainda estava lá. E ela imaginava que para pintar o que queria, deveria ter toda a técnica, disciplina e plasticidade que não teve ao longo de muito tempo. Ao longo dos últimos anos. Ao longo dos últimos anos em que se prendeu. O suor escorria pela sua testa. Muito. Gotas grandes e pesadas. E a respiração estava ainda mais ofegante. Muito mais. E a tela continuava em branco. Intocada. Como uma alma virgem a ser desvendada. Lágrimas? Bem, elas também estav...

LOOP

OUÇA: vacations || avalanche Ela entrou no apartamento e apenas observou. Tudo estava igual. Tudo estava absolutamente do mesmo modo que ela havia deixado quando saiu, um pouco antes do anoitecer. O copo americano ainda estava sujo de café. A garrafa de refrigerante estava aberta e, óbvio, já sem gás. O caderno com as anotações rabiscadas e com as páginas amassadas estava no mesmo lugar. Os lápis continuavam sem ponta e as canetas estavam distribuídas sem cuidado pelo tapete felpudo. Os vinis estavam espalhados ao lado da vitrola antiga, herança de seu avô. Os maços de cigarros estavam vazios perto da mesinha de canto. Algumas roupas insistiram em ficar penduradas junto a estante, na mesma posição que ela havia deixado para secar perto do meio-dia. Bem, ao menos para alguma coisa servia o sol naquele apartamento – ela pensou. O relógio ainda estava parado e a fez lembrar de algo que não iria fazer mesmo: comprar baterias. Cinco da madrugada. Ela apenas permaneceu imóvel na sala de se...

AROMAS E SABORES

OUÇA:  sebastian roca || honestly Nem dez e meia da manhã de uma segunda-feira – ela pensou enquanto dirigia o seu carro pela Avenida Central. Nem dez e meia da manhã de uma segunda-feira e ela relembrou o dia. Repassou o dia como se já tivesse acabado. Como se fosse muito. Como se fosse longo. Como se os segundos fossem séculos. Como se os segundos fossem dias. Pela janela do seu carro, ela observou o sol implacável da manhã de inverno tentando invadir sua retina. Retina fixa na imagem dele. Memória congelada nas horas que teve. Madrugada inquieta e turbulenta, repleta de desejos, sonhos, vontades e poesias. Repleta dele. Repleta dela. Juntos. Como um. Você É a poesia – ela lembrou do que ele falou antes de ir. Enfático. Ela sorriu. Estava leve. Você É a poesia – repetiu o pensamento. Nem dez e meia da manhã de uma segunda-feira. Ela desejou que o tempo parasse e pudesse sentir novamente tudo o que sentiu na madrugada. Tudo. Exatamente tudo. Cada detalhe. Cada sensação. Cada aroma...

QUANTOS ACORDES TEM UMA BALADA?

OUÇA:  fazerdaze || little uneasy - Você está tenso, né? – ela perguntou enquanto olhava para ele, todo encolhido no canto da sala, mexendo e brincando com o copo americano vazio nas suas mãos. Ele parou o que estava fazendo e a olhou com certa seriedade e balbuciou – Tenso? – perguntou e prosseguiu agora em alto som – Tenso? Tenso? Claro que não. Não há razão para isso. Ela sorriu e o compreendeu. Ficou em silêncio. Ele apoiou o copo vazio sobre a mesinha de canto ao seu lado e se levantou. Deu algumas voltas em círculo pela sala, esquecendo completamente o que ela havia dito anteriormente. Completamente longe. Distante demais. Ela apenas o observava em silêncio, quieta e paciente. Apenas esperando ele falar alguma coisa. Apenas esperando. - Então... – ele começou a falar, para na sequência emendar - Ah, esquece – concluiu, sem nada acrescentar. Após alguns segundos ela falou - Não te entendo, sabia? – disse, em tom extremamente doce. Ele parou e a encarou novamente e disse – O qu...

ERA O QUE FARIA LOU REED

OUÇA:  antoine diligent || nobody loves u Clube Varsóvia, duas e meia da madrugada. Mais uma noite. Mais um cigarro. Mais um chato chegando perto. - Oi – o garoto loiro disse, com aquela voz quase bêbada e mole, derretendo as sílabas. A moça alta de preto nem o olhou e ficou em silêncio. Aproveitou e brincou com o seu cigarro entre os seus longos e espessos dedos antes de dar mais uma tragada naquele Marlboro. - Oi – ele insistiu – E aí? Tudo bem? Ela pensou um instante, desistiu do cigarro, pegou o copo cheio de gim à sua frente e tomou mais um gole. Ausência de resposta em retorno. “Ainda bem que há um DJ no local” – ela agradeceu em pensamento. - Ah, fala alguma coisa – ele pediu – Você é bonita, sabe? Bastante bonita. Ela tomou ainda mais um gole, deixou o copo no balcão e se virou na direção do garoto loiro. Depois de alguns momentos o observando, disse – Oi. Está tudo bem sim. Exceto o incômodo. - É, realmente. Um incômodo. Também acho que o volume...

NÃO SÃO TEMPOS COMO QUAISQUER OUTROS

OUÇA:  spang sisters || king prawn the 1st Ela jogou o livro de lado irritada, ajeitou os cabelos tortos pela cama e levantou-se. Aflita. Ela estava aflita e sem paciência. Nenhuma paciência. Andou de um lado ao outro do quarto procurando algo para pensar, algo para tocar, algo para lembrar, algo para fazer. Não pensou em nada ou, infelizmente, pensou sim tão logo percebeu o baú cor de palha encostado junto a parede. Lembrou das dezenas de fotos e bilhetes e bobagens que estavam ali guardadas. Pensou em abri-lo e considerou que esta seria uma boa ideia. Aproximou-se do baú e percebeu o que estava prestes a fazer. Parou brusca e riu da própria tolice em achar que as velhas lembranças podiam ajudar, ainda que em desespero. Não, nada que lembrasse aquela pessoa poderia ser bom naquele momento - considerou. Culpou o tédio pela burrice. Voltou a si. Sorriu e agradeceu a sei lá quem por ter voltado ao seu juízo normal a tempo. Saiu do quarto. Foi em direçã...