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DORSO

- Posso? – ele perguntou com o grafite na mão. Ela assentiu com a cabeça e nada disse. Toda nua e deitada na cama daquele motel meio barato, meio caro, mas, ao lado dele. Ao menos ao lado dele. Ao menos juntos. - Posso mesmo? – ele repetiu a pergunta. - Claro – ela respondeu – Siga em frente. E ele, em meio as tatuagens dela que emolduravam as suas costas encontrou o espaço suficiente para escrever o que sentia. Tudo o que sentia e o que queria. Ela? Úmida. Ele? Tenso e duro. - Sabe de uma coisa? – ele perguntou após acabar de escrever. - Não sei de nada. Fala por favor – ela disse doce e tranquila. - Escrevi muito, mas nunca escrevi com grafite em costas tão lindas. Ela sorriu e perguntou – E o que escreveu? Ele sorriu de novo e disse – Vá no espelho. Veja você. E ela foi. E soriu e chorou. Apenas isso. DORSO... 1.ANATOMIA parte posterior do tronco humano, compreendida na extensãodas regiões dorsal e lombar da coluna vertebral; costas 2.parte superior ou posterio...

O FIM?

- O fim? – ele perguntou surpreso. Muito surpreso. Ela assentiu com a cabeça. Um sorriso leve. Um breve sorriso leve. Um sorriso canalha. Muito canalha. - O fim? Mesmo? – ele insistiu. Ela concordou. - O fim. Apenas isso – ela disse. - Não achei que fosse assim – ele disse - Como a canção do The Doors. Achei que seria menos dramático e mais apaixonado. - Nunca é apaixonado acabar relações seu idiota. Nunca. Dá prá entender. Ele abaixou a cabeça e ficou em silêncio. Mas na frente pode estar tudo – ela disse. Tudo. Entendeu, seu idiota, mesmo que saivá que você jamais gostaria desta canção. "On The Horizon" People see different things When they look on the horizon Do you see dark clouds rolling in fast Cos baby they ain't gonna last And I can't see anybody else I can't stop looking at you Take this dream and make it true All I see is love, sweet love On the horizon, oh yeah Just one look in your deep brown eyes And ba...

CÉU LÍQUIDO

Ele estava sentado com as pernas bem dobradas, encostado junto à parede. Debaixo da esquadria da janela da sala daquele apartamento vagabundo em que ele morava. Uma droga. Uma porra de apartamento. No escuro, sentado com as pernas bem dobradas, quase com câimbras que sequer sentia, ele apenas via a sombra noir dos relâmpagos que davam as caras lá fora, intermitentemente. Acuado e assustado. Acuado e assustado. Bem, nada estranho. Nada estranho vindo dele. Acuado e assustado era apenas ele na sua melhor forma. Na sua pior forma. Na forma de sempre. Tolo as usual . E a chuva parecia ser despejada do céu pelos anjos – anjos? Que porra é essa? - através de enormes baldes. Enormes baldes, repletos de água doce e ao mesmo tempo amarga. Água das nuvens, dos rios, dos Alpes, de lágrimas e de tudo o mais o que parecesse líquido. Mas, ainda assim, o seu baseado insistia em permanecer aceso preso entre seus lábios. Insistia amigavelmente. Bom amigo. Seu único...

EU DANÇARIA SINATRA COM VOCÊ

- Dançaria? – ele perguntou surpreso e extremamente animado – Dançaria mesmo Sinatra comigo? Ela apenas sorriu e nada disse. Nem um contra argumento. Nada. - Dançaria? Mesmo? Mas e o punk, o hard core, o rock e o caralho a quatro que você tanto gosta? Você dançaria mesmo? – repetiu. Ela sorriu e respondeu – Claro que sim. Claro. Com você eu dançaria qualquer coisa. Até tango. Ele pareceu um bobo. - Me leve para a lua então. - Como? – ela perguntou. - A lua. Me leve até ela. FLY ME TO THE MOON “ Fly me to the moon and let me play among the stars Let me see what spring is like on Jupiter and Mars In other words Hold my hand In other words darling, kiss me Fill my heart with song And let me sing forever more You are all I long for All I worship and adore In other words Please be true In other words I love you Fly me to the moon Jupiter and Mars Fly me to the moon Jupiter and Mars Fly me to the moon Fly me to the moon Fly me to the moon Fly ...

DEE DEE

- Você não gosta de Sinatra? – ele perguntou surpreso. Ela sorriu seu sorriso mais lindo, mais fofo, mais terno e amplo e deu mais um gole da sua vodka. Ele pareceu surpreso – Mas que tipo de pessoa não gosta de Sinatra? Não entendo – Mafioso, bonito, cantor, cool, enfim, tudo de bom. E usava uns ternos e chapéus lindos. Grafite. Fora as mulheres com quem saiu. - Bonitão você é cego ou não me conhece? – ela respondeu – Está vendo a minha camiseta surrada aqui? Ele sorriu. - É, está bem surrada mesmo. - Muito uso, otário. Ele sorriu, sem graça. - O que está escrito nela? – ela perguntou cínica. Ele sorriu como um bobo e respondeu tímido – Dee Dee Ramone. Sou um idiota mesmo. Ela sorriu – Não é não. Apenas deixa as pessoas levarem a sua vida e gosta de Frank Sinatra e dos Ramones também. Sujeito difícil você. Muito difícil. Ele assentiu com a cabeça e disse – Sou mesmo, mas sabe de uma coisa? Ela negou com a cabeça e esperou a resposta dele. - Fly me to the Mo...

JURANDO MENTIRAS

- Você o quê? – ele perguntou visivelmente irritado. Muito irritado. Ela deu de ombros, tomou um gole da sua bebida e deu um trago de seu cigarro. O décimo nono da noite de muitos outros que ainda viriam. - Repete porra – ele falou em um tom mais alto, mas não desrespeitoso. Ela ignorou. Apenas ignorou. - Não vai dizer nada? – ele perguntou. Ela deu um discreto sorriso e respondeu – Não. Nada. Não tenho nada para te falar além do que já disse. E falei demais, por sinal – emendou. - Ah, uma letra de música dos anos setenta que nem minha avó lembra mais. Ela sorriu cínica e mais uma vez tomou um gole da sua bebida e deu um trago no seu cigarro. O vigésimo da noite. - Você me jurou mentiras? – ele perguntou de forma aflita – É isso? Mentiras? Perguntou – Mentiras? - Insistiu. Ela parou e o encarou direto antes de dizer – Sim. Jurei o que podia e o que não podia. Mas, agora estou livre. Sigo sozinha, assumindo meus pecados, se é que eles existam. Se é que existam ...

OUVINDO CORES

- O que você pretende? – Tina perguntou de forma apressada para Lia – O que pretende? Investir em nada? Nada? Em quem nem quer saber de você? – disse de forma cruel. Lia abaixou a cabeça e nada disse. Limitou-se ao seu baseado vagabundo e sua vodka de quinta categoria. - Não adianta Lia, porra. A caixa postal do seu celular ordinário jamais vai receber uma mensagem dela. Ela te deu um foda-se, entende? Entende? Lia olhou-a trêmula, esperando apoio, apenas apoio – Talvez não. Talvez não. Talvez ela não tenha conseguido ligar. Apenas isso. Apenas não tenha conseguido ligar. Tina olhou para o alto sem a menor paciência. A menor paciência. Ficou em silêncio. - Sabe de uma coisa? – pergunntou Lia. Tina respondeu seca, porém com afeto – Nem tenho idéia, Lia. Nem tenho idéia, ainda mais vindo de você. Nem tenho idéia. - Eu gosto de ouvir cores – disse Lia direta. Tina a olhou com espanto e disse – Ouvir cores? Tem certeza que, ao menos desta vez você comrpou um baseado não...