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SERPENTINA



- Você enlouqueceu? – Sofia perguntou de modo ligeiro, após a breve frase da amiga de longa data, a suave Helô - Há quanto tempo você me conhece para vir com este papo de carnaval, bloco e o caralho? Dez? Quinze anos? Mais? Não entendeu nada ainda, meu doce? – prosseguiu em sua fala usualmente ranzinza.
Helô, habituada, não deu a menor bola para a amiga. Deu de ombros e continuou o que estava fazendo, escolhendo colares e adereços coloridos que estavam no fundo do seu armário.
- Você está me ouvindo Heloisa? Eu vou para a minha casa. Não vou ficar aqui e não vou a bloco nenhum de carnaval, nenhum. Ok? – pontuou, tentando ser enfática.
- Pára de ser histérica e dramática Sofia. Pára. Nós vamos sim. E vai ser fucking delicious. A vida continua. Continua. Esquece o que tem que ser esquecido e vamos dançar.
Sofia olhou para o teto, contrariada. Sem paciência, percebeu que o jogo já estava perdido.
- Vai. Diz logo, amor. Este colar e estes marabus? – perguntou enquanto exibia um colar havaiano cafona ao extremo e dois marabus coloridos. Um metalizado rosa e outro azul turquesa.
- Você é uma idiota – disse Sofia, fazendo Heloisa cair na gargalhada.
- Deixa de ser boba. Recomeça sua vida porra. Já deu o que tinha que dar este drama. Vai ser ótimo. Nós duas. Não vai ter o seu Cadu – enfatizou e continuou - Não vai ter o meu Edu, não vai ter o Gustavo, enfim, não vai ter a porra toda. Somos apenas nós e a multidão. Recomeçar. Entende a palavra de ordem? Vai ser ótimo beber um pouco, dançar bastante e jogar muito confete e glitter no asfalto. Diversão. Saca? Só para variar. Só um pouco. Só um pouquinho. Esquecer de vez toda esta droga que aconteceu nos últimos tempos. E tem mais, euzinha nunca te peço nada – emendou com mel encharcado no seu tom de voz – Caíram bem estes óculos psicodélicos? – finalizou.
- Você é insuportável Heloísa. Insuportável. Incorrigivelmente doente – sentenciou Sofia, enquanto tomava bruscamente o marabu rosa extra pink das mãos da amiga e os enrolava ao pescoço.
- Eu também te amo – respondeu Heloisa – Te amo muito. Mais do que ele já te amou – Você vai se divertir. Prometo. Vamos voar de forma desconexa como uma serpentina lançada por alguém muito embriagado.
Partiram rumo ao centro velho da cidade.
O bloco?
A tarde teve bebida, teve folia, teve samba, teve música, teve de tudo.
Tudo um pouco.
Beijos, abraços, sambas, reggaes, axés, afoxés, marchinhas antigas, marchinhas modernas, maquiagem neon, frevos, patuás, colares havaianos, marabus coloridos, confetes arremessados, serpentinas voadoras, suores transferidos entre corpos e mais corpos, aromas de cervejas baratas ou não, cigarros, perfumes, máscaras, chicotinhos, fantasias, perucas, vestidos, bermudas, enfim, teve de tudo.
Tudo um pouco.
Enquanto esperava Heloisa voltar heroicamente do banheiro, Sofia, encostada na suja porta metálica na entrada do bar, respirou profundamente e se deu conta do cenário à sua volta e de onde efetivamente estava.
Sua real condição.
Observou a multidão à sua frente, espremida e feliz.
Uma multidão de gente dançando e feliz.
Alguns felizes, outros nem um pouco.
E ela apenas queria que ele estivesse ali.
Apenas isso.
E, ao se dar conta de que já estava na calçada pronta para voltar para casa, ignorando a multidão, ouviu Helô chamando com quatro latas de cerveja quase caindo de suas delicadas e desastradas mãos.
- Aonde você vai, Sô? Temos que tomar todas estas latinhas antes que esquentem.
E Sofia sorriu ao ajudar a amiga e perceber, por um delicioso segundo, que estava segura e feliz por tê-la por perto.
Muito feliz e muito segura.
E partiu com ela para recomeçar o que precisava recomeçar e emular o voo desconexo de uma serpentina lançada de modo desajeitado por mãos embriagadas.
Um adorável voo de carnaval.
Recomeçar de uma forma totalmente diferente do começo anterior.
Recomeçar até o samba acabar...




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