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BANDA DESENHADA À LUZ DE VELAS

OUÇA:  glaciers || winter Não havia luz. Não. Nada de luz. E, ainda assim, ele permanecia esparramado no sofá, olhando atento para a fraca luz azul que saía da tela do seu celular, apenas a observar as barras indicativas do status da bateria do aparelho, diminuírem. Diminuírem rapidamente. Diminuírem de forma inadequada e veloz. De modo incrivelmente injusto. Ao menos naquela noite. Ao menos naquela madrugada. E ele, ainda assim, apenas observava e aguardava – sem paciência - algum pop-up explodir na porra da tela de seu celular e anunciar uma nova mensagem dela. Apenas observava, enquanto ouvia o som dos trovões que explodiam sem parar naquela noite. Não havia luz elétrica no apartamento. Havia apenas a luminosidade dançante provocada pelas velas vagabundas que formavam figuras disformes e incríveis na parede descascada do seu apartamento. Pequeno apartamento à luz de velas. Não havia energia e nem previsão de retorno da eletricidade. Chuva implac...

TREMA? NÃO EXISTE MAIS

OUÇA:  não ao futebol moderno || san martin Apenas um sinal. Apenas um sinal ortográfico que existiu um dia. Um sinalzinho indicativo da pronúncia, não tônica, da letra U antecedida da letra Q ou da letra G, seguido pelas letras E ou I, superficialmente explicando. Para escrever palavras como tranquilo, sequência, eloquência, sequela, e tantas outras da língua portuguesa, a trema deveria ser usada. Há tempos, não mais. Não. Sinal desnecessário. Inútil. Irrelevante. Obsoleto. Desusado. Superado. Envelhecido. Ultrapassado. Esquecido. Simples assim. Assim como o sentimento deles. Assim como o amor deles. Assim como eles. O amor acabou. E como consequência, tudo mudou. E a trema deveria ser utilizada. Há tempos, não mais. E aquele sorriso delicioso e lindo daquela garota estampado naquele retrato antigo ficou como trema. Lindo e esquecido. Belo e inútil. Superado. Distante. E agora, onde você vê beleza eu vejo uma grande bob...

PICTURE THIS

OUÇA:  rosalyn || lover friend - Ei? Aqui. Olhe aqui, garoto triste – ela disse de um jeito abrupto, porém carinhoso e suave – Olhe aqui – insistiu com um sorriso entre os lábios, um sorriso amigável e amável. Doce, terrivelmente doce. Típico dela. Ele virou o seu corpo de súbito e a olhou rapidamente. Pego de surpresa por ela, ainda mais uma vez. - Bah – resmungou e virou o rosto ao perceber a câmera - Deixa disso, porra – disse contrariado e irritado, mais pela situação e menos por odiar ser fotografado por ela. Ela? Ela adorava fotografar. Adorava fotografar tudo o que fosse possível. Tudo. Ela adorava fotografar cenários, paisagens, flores, praias, enfim, qualquer coisa interessante ou não, atraente ou não. Ela adorava fotografias e, dentre todas as coisas, o que ela mais adorava eram as fotografias de pessoas. Exato, pessoas. Gente de verdade. Pessoas com sorrisos, lágrimas e tudo mais. Gente. Somente isso. Porém, nunca através de celulares idiot...

E COMO FUGIMOS DAS SOMBRAS?

OUÇA:  jye || a shitty love song “ E o que eu faço porra?” – ele pensou em desespero, atônito e surpreso ao se dar conta do que ela tinha acabado de presenciar. “ Como eu fujo daqui? Como eu fujo da minha própria sombra? ” – continuou em pensamento. Suando demais. Suando muito, porém muito mais em razão do desespero do que das doses que havia bebido e das danças que havia dançado. Não sabia o que fazer. Definitivamente não sabia o que fazer. Na verdade não havia o que fazer. Não havia. Simples assim. O erro já havia sido cometido. O erro já estava pronto e acabado. Um delicado e especial presente, gentilmente embrulhado em papel de seda colorida em rosa e violeta, entregue a ele por Blodeuwedd , a irresistível deusa galesa. Um presente. Rosa e violeta. Um presente. Um erro. Mais um erro, mais um. Irremediável? Talvez. Inconsequente? Com certeza. Típico? Típico, sim. Típico dele. Ela? Considerando a velocidade em que ele a viu pelas costa...

BILLIARDS

OUÇA:  flower crown || bender szn E o amor não passava de um grande jogo para ela. Um grande, divertido e arriscado jogo. Perigoso e excitante. Nada mais do que isso. Nada mais do que isso. O amor. Um jogo. Um jogo, porém um jogo que não era para ser. Um jogo, uma espécie de sinuca perigosa e arriscada que ela adorava experimentar e manipular vorazmente. Dia após dia, de forma cada vez mais intensa. Dado viciado. Arma fatal. O amor. Um jogo. Um jogo, porém um jogo que não era para ser. A maldição da beleza. Seduzir e destruir. A maldição da beleza que exalava do seu olhar azul e penetrante, dos seus cabelos soltos e longos, do seu perfume inebriante, do seu doce veneno. Um falso brilhante. Um diabólico conjunto da obra. A arma fatal. Uma roleta russa desvairada. Um jogo. O amor não passava disto. Um jogo. Um jogo, porém um jogo que não era para ser. E ela costumava ganhar. Estava mais do que acostumada a ganhar. Muito mais. Rot...

UMA ÚLTIMA VEZ

Eduarda cantarolou baixinho como uma idiota a canção assim que a ouviu ecoando das caixas de som da sua velha vitrola. Suave e conhecida melodia. Densas e conhecidas memórias. Angústia e constrangimento pelos erros cometidos. Erros praticados e repetidos. Erros perpetrados sem cuidado, em uma espécie de looping eterno. Erros. Apenas erros com os quais ela tinha intimidade dada a insistência em cometê-los. Eduarda fechou os olhos lentamente e tamborilou os seus longos e finos dedos de desenhista sujos de carvão na amassada caixa de fósforos, esperando com o cigarro apagado descansando em seus lábios, ainda mais lindos na cor cereja. Ela cantarolou baixinho uma última vez. Uma última vez. Sabia que a música acabaria logo e ela? Bem, Nanda já estaria com as malas feitas e fora do quarto, pronta para sair antes mesmo de a porra da canção terminar. Pensado e ocorrido. Assim que abriu os olhos Eduarda viu Fernanda parada em frente ao quarto com a sua mala pronta e a mochila nas costas. ...

PONTEIO

E o gato dormia ao lado dela. Na cômoda ao lado da cama. Próximo. Bem próximo. Ronronando baixinho com um ronco fofo. Um ronco fofo. Um amigo próximo sem se importar com a fumaça do seu cigarro. Com seu hálito de vodka barata. Um gato. Um amigo. Lindo, peludo e gordo. Mais gordo do que o necessário. Mais pílulas do que o necessário. Mais álcool do que o necessário. Mais esperança do que o necessário. Mais gato do que o necessário. Mais fumaça do que era preciso. Mais Edu Lobo na vitrola do que o necessário. Mas nunca é demais. Nunca. Mais noite do que o necessário. Mais noite. Muito mais. Menos lágrimas. Não. As lágrimas eram as mesmas. Ela não esquecia. Não. Não esquecia e nem dormia. E chovia. E fumava. E chorava. Muito. Muito. Mas o gato não se importava. Apenas dormia. E os trovões? Apenas um ponteio. Apenas um ponteio. Um novo começo? Pode ser. Pode ser. “Ponteio ... Colocar os dedos sobre ...