31.1.20

BANDA DESENHADA À LUZ DE VELAS



Não havia luz.
Não.
Nada de luz.
E, ainda assim, ele permanecia esparramado no sofá, olhando atento para a fraca luz azul que saía da tela do seu celular, apenas a observar as barras indicativas do status da bateria do aparelho, diminuírem.
Diminuírem rapidamente.
Diminuírem de forma inadequada e veloz. De modo incrivelmente injusto.
Ao menos naquela noite.
Ao menos naquela madrugada.
E ele, ainda assim, apenas observava e aguardava – sem paciência - algum pop-up explodir na porra da tela de seu celular e anunciar uma nova mensagem dela.
Apenas observava, enquanto ouvia o som dos trovões que explodiam sem parar naquela noite.
Não havia luz elétrica no apartamento.
Havia apenas a luminosidade dançante provocada pelas velas vagabundas que formavam figuras disformes e incríveis na parede descascada do seu apartamento.
Pequeno apartamento à luz de velas.
Não havia energia e nem previsão de retorno da eletricidade.
Chuva implacável.
Verão infernal com suas tempestades surpresas.
Ao menos fosse inverno, porra – ele pensou egoísta como sempre.
Mas era verão e a tempestade estava lá fora.
Cruel.
E a luz não estava dentro do seu apartamento.
Não. Nada de luz.
Maldita companhia de energia.
Inoportuna tempestade.
E logo naquela noite, ele lamentou ao acender (mais) um cigarro.
Logo naquela noite.
Logo naquela noite em que ele finalmente havia a reencontrado depois de tanto tempo.
Quase uma era do gelo de tempo.
Ele, definitivamente, não acertava uma.
Deixou o cigarro sobre o cinzeiro sujo ao seu lado e levou as mãos à cabeça quando a luz azul finalmente morreu.
Acabou a bateria, acabou a conversa.
Não havia mais celular.
Não havia mais contato.
Ao menos até que a luz voltasse
Ao menos até a luz voltasse (e se voltasse).
Ele prestou ainda mais atenção à chuva desabando demente lá fora e pegou alguns amassados papéis em branco jogados ao lado do cinzeiro na mesinha de lado.
Pensou em uma banda desenhada.
Pensou em criar e desenhar uma história em quadrinhos para retratar a situação.
Deu mais uma profunda tragada em seu cigarro e sorriu como um tolo com aquele monte de papéis na mão esquerda.
Sorriu como um idiota ao lembrar que não sabia sequer segurar um lápis, um pincel, um carvão, uma caneta, enfim, o que quer que fosse necessário para retratar o momento.
Não sabia desenhar nada e, tampouco, desenhar aquele momento.
A banda desenhada à luz de velas não lhe foi possível criar.
Ele sorriu mais uma vez e fez o que conseguia fazer.
Tomou um gole do seu conhaque barato, deu uma tragada em seu cigarro e começou a escrever.
Apenas começou a escrever.
Escrever com um sorriso esperando a luz voltar.
E ela voltaria.







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