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TRISTES CANÇÕES EM PRETO E BRANCO

E ele tocava violão muito bem. Tá, não era um mestre, mas tocava com bastante prazer as músicas que ele realmente gostava. Amava tocar e tocar e tocar o seu velho violão. Só não amava mais esse prazer do que conversar com a garota do “fundo” da sala, a sua melhor amiga desde sempre. Ele a adorava. Verdadeiramente. Adorava passar as noites de sábado na casa dela, quando seus pais viajavam, bebendo gim, fumando cigarros, papeando e, claro, tocando violão para ela. Ela pedia as músicas e ele só prosseguia tocando e emendando uma na outra. Ela pedia REM, Smiths, Wilco, o que fosse, e lá ia ele agradá-la com seu dedilhado macio, experimentando um arranjo aqui, outro ali. Mas ele percebeu, um certo dia, que havia mais do que amizade. Havia amor naquilo tudo. Havia um amor maior do que ele seria capaz de expressar em simples palavras. Ele jamais havia sentido algo assim por outra pessoa. Aquele sentimento era amor verdadeiro, na sua forma mais brutal, na sua forma mais bela e na sua forma mais cruel. Então, ele resolveu demonstrar todo aquele amor, por pior que fosse o resultado, por piores que fossem as conseqüências. E resolveu fazê-lo através de uma linda balada de amor, especialmente escrita e composta para ela. Assim fez. Noites foram passadas em claro, acordes de todos os tipos foram experimentados, letras e mais letras foram escritas e ele, depois de muito tempo, se deu conta de que a música para ela estava definitivamente pronta. Sua pequena obra prima declarando todo o seu amor. Naquela noite quente de sábado ele chegou animado e feliz à casa dela. Ela, por sua vez, também estava radiante, com um brilho enigmático no olhar. Parecia saber o que a esperava.

Mas não sabia, podem apostar.

- Preciso te dizer uma coisa muito importante – ele disse, enquanto pegava a garrafa de gim que estava nas mãos dela.
- Eu também. Algo maravilhoso – ela emendou – Algo que certamente precisará de uma de suas músicas especiais seguido de um de nossos brindes especiais.
- Que bom. Espero que sim. O que houve? – perguntou, animado.
- Estou totalmente apaixonada – ela disse, feliz como raras vezes ele a viu.
- Apaixonada? – ele retrucou, surpreso.
- Apaixonada. Apaixonadíssima, eu diria. Lembra do Zeca? Que estudou com a Helen? Então, finalmente rolou. Saímos e as coisas estão indo bem e eu sempre quis ficar com ele e estamos juntos há umas duas semanas. E estou feliz pra caramba...muito, muitíssimo feliz.
- Ora, você nunca me disse nada – ele reagiu, tentando esconder da melhor forma possível os bilhões de estilhaços em que havia se transformado – Fico feliz - mentiu.
- So...let´s celebrate babe – ela disse, virando um copo de gim – E você? O que queria me dizer? – perguntou.
- Nada especial. Queria te mostrar uma música que fiz para a minha irmã dedicar ao seu namorado. Mas mudei de idéia, agora que você me contou essa novidade. Resolvi transformar essa balada, numa canção para você e ele. A canção de vocês.
- Você é lindo! Te adoro, amigo! Sempre... – ela disse, enquanto o abraçava com toda a ternura possível de caber em um abraço.

...e ele tocou. Com toda a força do mundo, uma das mais tristes e belas canções de amor de todos os tempos...



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