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SALTOS ORNAMENTAIS

- Você está triste hoje? – ele perguntou – Algum problema?
Ela sorriu, apenas fazendo um gesto negativo com o seu rosto e balançando os seus longos cabelos.
- Tá bem – ele disse, incrédulo – Você acha que ainda me engana? Depois de todos esses anos, de todo esse tempo, depois dessa vida que vivemos juntos? Não engana não, my dearest friend.
- Amor, amor, amor... por que ele é tão pé no saco? Por que ele irrita e enerva e destrói e deixa marcas e maltrata e tira o sono dos pobre mortais?
Ele apenas riu – Que beleza, hein? Discorrendo sobre absurdos, pensando sobre questões sem resposta, enfim, sendo banal e uma garota clichê. Logo você, querida, a menos garota clichê de todas as que já conheci. E olha que eu já conheci muitas assim.
- Garotas clichê? – ela perguntou.
- Não, garotas apaixonadas. Garotas apaixonadas e perdidas e com um sorriso bobo como esse seu agora. Estampado como uma cicatriz na sua linda e adorável face.
- Eu sou uma idiota mesmo – ela respondeu.
- Por que? Porque ama? Porra, amor não é pecado, amor não é errado, amor não é complicado...
- Não? - ela interrompeu, indignada.
Ele a encarou com simplicidade – Não. Não é complicado não. De forma alguma. É extremamente simples, aliás.
- Sei – ela zombou – Até parece.
- Teve uma garota que eu conheci, há muitos anos, que me disse uma coisa que eu jamais esqueci. Era uma noite linda e eu gostava muito dela. Claro que ela não me dava bola, mas isso pouco importa. Ela era apenas uma amiga. Uma boa amiga. Não ótima amiga como você, mas uma boa amiga. Uma irmã. Naquela noite ela me disse algo adoravelmente simples, adoravelmente simples, mas que realmente se encaixou na minha vida. Óbvio que estávamos completamente bêbados, mas ainda assim me lembro das palavras bêbadas daquela garota. Ela disse que um sentimento que te deixa sem ar, sem fôlego, sem rumo, sem noção, sem sentido, sem chão, sem céu, sem objetivo, sem auto-estima, com medo, com insegurança, com tremor, com nervosismo, com insônia, com pavor, com auto-indulgência, com culpa, com pânico, enfim, com toda a sorte de síndromes e melindres e desesperos que uma pessoa pode conhecer, não pode ser complicado. Esse tipo de sentimento não pode, oh Deus, claro que não, ser apenas complicado.
Ela o encarou, com sarcasmo e perguntou – Não? Não pode ser complicado?
- Nós somos complicados – ele disse, tranqüilo – Nós. A complicação reside aqui – ele fez um carinho nos longos cabelos cacheados dela - O amor não tem nada com isso. Nada. – finalizou, virando um copo de tequila.
- Sabe de uma coisa? – ela disse, serena – Preciso de terapia.
Fazendo um sinal para o garçom daquele velho boteco, ele perguntou – De pinga ou de vodka? Limão ou morango? – e deu um sorriso ... lindo, por sinal, como tudo deve ser.


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