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QUANDO OS RETRATOS CAUSAM DOR


- Moça, moça? – perguntou o taxista enquanto Lia descia do seu carro.
- Sim – ela respondeu, desinteressada.
- Isto é seu? Acho que você deixou aqui no banco de trás – o taxista, gentil, perguntou, segurando um pequeno retrato em preto e branco, todo amssado, de um carinha todo metido a bonito.
Ela olhou para o taxista com constrangimento. Não pôde evitar as lágrimas surgirem em seus olhos. Não pôde evitar a consternação e a raiva. Simplesmente não pôde.
- É da senhora? – o taxista perguntou novamente.
- Não – ela respondeu seca e rude – Não é não.
- Estranho. Achei que fosse. Costumo sempre dar uma olhadinha no banco de trás quando um passageiro sai do meu taxi, para evitar que eles percam as coisas. Esta foto não estava aqui, não. Mas tudo bem. Obrigado moça – concluiu, fechando a porta e acelerando em direção a novos caminhos.
Lia ficou estática enquanto o táxi partia. Viu o veículo branco desaparecer entre os outros carros da avenida e não se moveu.
Pensou em como era idiota. Como era babaca em achar que ele – o carinha do retrato – pudesse durar para sempre na sua vida. Pensou em como era imbecil e lembrou da cena patética dele comendo aquela garota no estúdio, bem ao lado da sua guitarra. A guitarra que ELA, Lia, havia dado a ele.
Começou a chorar discretamente enquanto caminhava. Queria apenas que estivesse chovendo. Assim, ficava mais fácil esquecer que estava chorando. Muito mais fácil.

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