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E COMO FUGIMOS DAS SOMBRAS?

OUÇA:  jye || a shitty love song “ E o que eu faço porra?” – ele pensou em desespero, atônito e surpreso ao se dar conta do que ela tinha acabado de presenciar. “ Como eu fujo daqui? Como eu fujo da minha própria sombra? ” – continuou em pensamento. Suando demais. Suando muito, porém muito mais em razão do desespero do que das doses que havia bebido e das danças que havia dançado. Não sabia o que fazer. Definitivamente não sabia o que fazer. Na verdade não havia o que fazer. Não havia. Simples assim. O erro já havia sido cometido. O erro já estava pronto e acabado. Um delicado e especial presente, gentilmente embrulhado em papel de seda colorida em rosa e violeta, entregue a ele por Blodeuwedd , a irresistível deusa galesa. Um presente. Rosa e violeta. Um presente. Um erro. Mais um erro, mais um. Irremediável? Talvez. Inconsequente? Com certeza. Típico? Típico, sim. Típico dele. Ela? Considerando a velocidade em que ele a viu pelas costa...

BILLIARDS

OUÇA:  flower crown || bender szn E o amor não passava de um grande jogo para ela. Um grande, divertido e arriscado jogo. Perigoso e excitante. Nada mais do que isso. Nada mais do que isso. O amor. Um jogo. Um jogo, porém um jogo que não era para ser. Um jogo, uma espécie de sinuca perigosa e arriscada que ela adorava experimentar e manipular vorazmente. Dia após dia, de forma cada vez mais intensa. Dado viciado. Arma fatal. O amor. Um jogo. Um jogo, porém um jogo que não era para ser. A maldição da beleza. Seduzir e destruir. A maldição da beleza que exalava do seu olhar azul e penetrante, dos seus cabelos soltos e longos, do seu perfume inebriante, do seu doce veneno. Um falso brilhante. Um diabólico conjunto da obra. A arma fatal. Uma roleta russa desvairada. Um jogo. O amor não passava disto. Um jogo. Um jogo, porém um jogo que não era para ser. E ela costumava ganhar. Estava mais do que acostumada a ganhar. Muito mais. Rot...

UMA ÚLTIMA VEZ

Eduarda cantarolou baixinho como uma idiota a canção assim que a ouviu ecoando das caixas de som da sua velha vitrola. Suave e conhecida melodia. Densas e conhecidas memórias. Angústia e constrangimento pelos erros cometidos. Erros praticados e repetidos. Erros perpetrados sem cuidado, em uma espécie de looping eterno. Erros. Apenas erros com os quais ela tinha intimidade dada a insistência em cometê-los. Eduarda fechou os olhos lentamente e tamborilou os seus longos e finos dedos de desenhista sujos de carvão na amassada caixa de fósforos, esperando com o cigarro apagado descansando em seus lábios, ainda mais lindos na cor cereja. Ela cantarolou baixinho uma última vez. Uma última vez. Sabia que a música acabaria logo e ela? Bem, Nanda já estaria com as malas feitas e fora do quarto, pronta para sair antes mesmo de a porra da canção terminar. Pensado e ocorrido. Assim que abriu os olhos Eduarda viu Fernanda parada em frente ao quarto com a sua mala pronta e a mochila nas costas. ...

PONTEIO

E o gato dormia ao lado dela. Na cômoda ao lado da cama. Próximo. Bem próximo. Ronronando baixinho com um ronco fofo. Um ronco fofo. Um amigo próximo sem se importar com a fumaça do seu cigarro. Com seu hálito de vodka barata. Um gato. Um amigo. Lindo, peludo e gordo. Mais gordo do que o necessário. Mais pílulas do que o necessário. Mais álcool do que o necessário. Mais esperança do que o necessário. Mais gato do que o necessário. Mais fumaça do que era preciso. Mais Edu Lobo na vitrola do que o necessário. Mas nunca é demais. Nunca. Mais noite do que o necessário. Mais noite. Muito mais. Menos lágrimas. Não. As lágrimas eram as mesmas. Ela não esquecia. Não. Não esquecia e nem dormia. E chovia. E fumava. E chorava. Muito. Muito. Mas o gato não se importava. Apenas dormia. E os trovões? Apenas um ponteio. Apenas um ponteio. Um novo começo? Pode ser. Pode ser. “Ponteio ... Colocar os dedos sobre ...

FANTASIAS

E lá estava ele em frente ao espelho. Um rosto pálido em frente ao espelho. Muito pálido e muito inchado. Excesso de bebida. Excesso de excessos. Uma festa a fantasia. Mais uma festa a fantasia. E ele odiava. Mesmo. Odiava de verdade. Mas iria mesmo assim. Mesmo assim. Vampiro? Fantasma? Monstro? Duende? Não. Ele decidiu ir de si mesmo. Apenas um terno e uma gravata e um chapéu. Apenas isso. E no salão de repente ele a viu. Uma bailarina linda. Toda de rosa e com uma máscara suave cobrindo parte do seu rosto. Seu coração disparou e ele tomou um gole forte do conhaque para ter a certeza de que não desviaria antes de chegar próximo dela. - Oi Débora, tudo bem? - ele perguntou, tímido. - Débora? Não, meu nome é Letícia . Muito prazer - a "sua" bailarina respondeu, sorrindo - Me desculpe - ele disse - Confusão, sabe? A luz, a música, a bebida. Mil desculpas – acrescentou – eu estava a procura de alguém. - Deixa para lá. Não tem import...

SHOWS

E a cidade estava repleta de shows naquele fim de semana. Repleta, repleta de shows. Repleta. Morrissey, New Order, Soul Asylum e o caralho a quatro. Muitos shows. Tudo o que você pode e poderia imaginar. Tudo. Mas não havia grana e nem ingressos. Nem neve. Muito menos neve. Nada. Aqui não é a Islandia. Ainda... Ainda não... Mas havia calor. Mormaço, desejo e tesão. Suor, lágrimas e chama. Chama. Uma chama crescendo e um fogo. Um fogo muito grande. Aquecendo o que era para ser aquecido. Ser muito aquecido. Naquele apartamento vagabundo em que eles moravam havia dedos e desejos e lábios e delírios e copos americanos repletos de vodka barata. A pior das vodkas. A melhor das vontades. Muitas vontades. Muitas vontades. Vontade de esquecer. Tudo. Apenas tudo. E a cidade estava repleta de shows naquele fim de semana. Repleta, repleta de shows. Repleta de desejos. Mas repleta de shows. Mas o maior aconteceria naquela cama. ...

ELA SEMPRE ANDAVA DEVAGAR. SEMPRE DEVAGAR.

Ela andava devagar. Sempre. Caminhava lentamente mesmo sob a chuva. Com seu delicioso guarda chuva amarelo. Lindo. Charmoso como ela. Charmoso como tudo. E como a chuva. Apenas charmosa. Mas ela andava devagar. Sempre. Lenta. Caminhava lentamente mesmo sob a chuva. Com seu delicioso guarda chuva amarelo. Lindo. Charmoso como ela. Não se importava. E fumava. Um atrás do outro. E parava nos botecos. Um conhaque sempre é bom. Dois ainda melhor. E parar em botecos é bom. Sempre alguém nota um guarda chuva amarelo em um boteco. Sempre. Ainda mais com ela. Ainda mais com ela. E ela andava devagar. Sempre. E fumava e bebia e caminhava. Lenta. Caminhava lentamente mesmo sob a chuva. Com seu delicioso guarda chuva amarelo. Lindo. Charmoso como ela. Charmoso como tudo. A razão? Não querer chegar a seu destino. Não querer chegar. Ou querer demorar. Demorar muito. Ainda que sob a chuva e sob o efeito de doses de con...