Pular para o conteúdo principal


A VIDA É SEMPRE VELOZ

Tudo acontece tão rápido nessa vida que eu chego a ficar assustado...

Essa frase – pronunciada por um velho amigo - ecoava sem parar na sua cabeça. Sem parar. Ele tem razão - ela pensou – Toda a razão. A vida é extremamente veloz e eu chego a ficar assustada com tudo isso. Feliz? Porra, fico muito feliz, mas também assustada, bem assustada.

Tudo acontece tão rápido nessa vida que eu chego a ficar assustado...

Ela tinha curtos cabelos coloridos. Bem, hoje eles estão menos coloridos. Cor indefinida. Porém, durante toda a sua adolescência, não foram raros os dias em que ela teve que acordar e olhar atentamente para o espelho, com seus olhos grudados de sono, antes de poder afirmar com toda a convicção qual a efetiva cor dos mesmos. Eles já foram de todas as cores possíveis. E, por isso, reclamavam. E o pior é que não reclamavam somente por isso. Reclamavam por tudo. Ela tem tatuagem – reclamavam. Ela fala palavrão – reclamavam – Ela pensa que escreve bem – reclamavam – Ela pensa que vai ser alguém – reclamavam. E reclamavam e reclamavam e reclamavam. Sobre qualquer coisa. Sobre qualquer aspecto da vida daquela garota que os irritava. Quem reclamava? Ora, vocês sabem, os idiotas, os imbecis, aqueles que têm quase nada ou muito pouco a fazer. Aqueles que, por ressentimento ou inveja ou medo ou o caralho, têm medo de viver as suas próprias vidas e, portanto, preocupam-se em aniquilar com a dos outros. Destruir o que vive sozinho. Independente. Qual a importância dessas pessoas? Nenhuma porra, absolutamente nenhuma, mas, confesso, ela teve que respirar muito fundo antes de mandá-las, merecidamente, a uma longa viagem sem volta para o inferno. Mas, deixando de lado os idiotas, ela estava feliz naquela tarde. Naquela tarde ensolarada de início de verão. Naquela tarde, simples, o que realmente importava para ela era o fato de ter finalmente percebido, pela primeira vez em seus vinte e poucos anos, que tudo acontece muito rápido nesta vida. Muito rápido.

Tudo acontece tão rápido nessa vida, que eu chego a ficar assustado...

Naquela tarde cheia de sol e de verão e de brisas frescas e de pessoas vivas andando para lá e para cá, com tanto e tão pouco rumo certo, ela se viu sentada naquele café, tranqüila, bebericando um delicioso copo de chá de hortelã gelado. Ela sorriu da cena que estava protagonizando. Chá de hortelã gelado. O que os idiotas diriam? – pensou, com um sorriso. Nada de vodka, nada de cigarros, nada de noite, nada de fumaça, nada de loucas e deliciosas pirações. Tudo isso ficou para depois. Não para nunca mais, óbvio, apenas para depois, afinal, tudo acontece tão rápido nessa vida que o amanhã daqui a pouco é hoje.

E, assim, ela ficou por toda a tarde naquele café, apenas com o seu chá gelado, com o seu doce dia de verão, com os seus pensamentos e com a sua barriga tão lotada de vida.

Ela estava grávida e feliz... extremamente feliz...

Tudo acontece tão rápido nessa vida... que bom...



Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

TIJOLOS APARENTES

OUÇA: kate bollinger || candy
- Então? – ela perguntou com um olhar indisfarçável de carinho e cuidado, antes de abrir a porta para ele sair. Ele sorriu, meneou a cabeça e não soube responder de primeira. - Então? – ela insistiu e continuou – Não vai me dizer nada? Nada? Ele levantou a cabeça e a olhou com a maior ternura do mundo e respondeu – Eu adorei. Simplesmente adorei. Ela não escondeu um sorriso genuíno e disse – Fico contente. Você nem imagina o quanto. Nem imagina. - Imagino sim. Imagino sim. - Do que mais gostou? – ela prosseguiu em sua suave inquisição. Doce inquisição. - Do que mais gostei? – ele repetiu. Ela assentiu com a cabeça e disse – Sim. Não vou deixá-lo ir embora sem me responder. Não posso. Você ficou aqui a tarde toda comigo e eu apenas adoraria saber. Ele a olhou com carinho e ternura. Disse, divertido – Do que mais gostei? Bem, além de você servir um adorável capuccino? Ela sorriu e emendou – Deixa de ser bobo. Não foi capuccino nenhum. Fale. Eu sinto no seu olhar. Só pr…

SHALL WE DANCE

OUÇA: rosalyn || loverfriend
- Então, aceita dançar esta música? – ele pediu, com gentileza e suavidade. Ela sorriu. E ele estava trêmulo e nervoso. Ansioso. Ela estava alegre e linda. Serena. E quando as primeiras notas do piano soaram na caixa de som, os dois se aproximaram e os seus braços se encontraram. Entrelaçaram. Um elegante e suave toque em uma condução apropriada para o som de notas belas e delicadas. Ela o conduzia. Ele também. E a canção era densa e envolvente, apaixonada, e as notas voavam e flutuavam pela sala da sala. Os braços entrelaçados revelavam uma cumplicidade sem igual. Rara. Poucas vezes vista. Poucas vezes sentida. Nunca? Não daquela maneira. Não como naquela noite. Talvez em outros tempos, mas não como naquele exato instante. E entre braços entrelaçados e desejos agora não mais escondidos, o perfume dos cabelos misturado ao cheiro das tintas era inebriante. Aroma de camomila. Aroma de vontades. Desejos e sorrisos. Ela o conduzia. Ele também. O toque entre eles era suave, assim como os…

ERA O QUE FARIA LOU REED

OUÇA: antoine diligent || nobody loves u
Clube Varsóvia, duas e meia da madrugada. Mais uma noite. Mais um cigarro. Mais um chato chegando perto. - Oi – o garoto loiro disse, com aquela voz quase bêbada e mole, derretendo as sílabas. A moça alta de preto nem o olhou e ficou em silêncio. Aproveitou e brincou com o seu cigarro entre os seus longos e espessos dedos antes de dar mais uma tragada naquele Marlboro. - Oi – ele insistiu – E aí? Tudo bem? Ela pensou um instante, desistiu do cigarro, pegou o copo cheio de gim à sua frente e tomou mais um gole. Ausência de resposta em retorno. “Ainda bem que há um DJ no local” – ela agradeceu em pensamento. - Ah, fala alguma coisa – ele pediu – Você é bonita, sabe? Bastante bonita. Ela tomou ainda mais um gole, deixou o copo no balcão e se virou na direção do garoto loiro. Depois de alguns momentos o observando, disse – Oi. Está tudo bem sim. Exceto o incômodo. - É, realmente. Um incômodo. Também acho que o volume está muito alto hoje. O DJ devia perceber is…